Vossa presente Sessão é dedicada a um tema oportuno: A juventude está desaparecendo? Solidariedade para com as crianças e os jovens numa época de turbulência.
Alguns indicadores demográficos têm evidenciado claramente a necessidade urgente de uma reflexão crítica sobre este tema.
Com efeito, embora as estatísticas acerca do crescimento da população estejam abertas a interpretações variáveis, concorda-se geralmente sobre o fato de que existe, em nível planetário e de maneira particular nos países industrializados, duas tendências significativas e interligadas: de um lado, aumenta a expectativa de vida, e de outro, diminui a taxa de nascimentos.
Enquanto as sociedades estão envelhecendo, muitas nações ou grupos de nações não dispõem de um número suficiente de jovens para renovar as próprias populações.
As raízes da situação são morais e espirituais
Esta situação resulta de múltiplas e complexas causas – amiúde de caráter econômico, social e cultural – que vós propusestes estudar.
No entanto, pode-se dizer que as suas raízes últimas são morais e espirituais; elas estão ligadas a uma inquietadora diminuição da fé, da esperança e, em especial, do amor.
Ter filhos exige que o eros egoísta se realize num ágape criativo, arraigado na generosidade e caracterizado pela confiança e pela esperança no futuro. Por sua própria natureza, o amor anseia pela eternidade.1
Talvez a falta desse amor criativo e clarividente seja a razão pela qual, nos dias de hoje, muitos casais decidem não casar-se, numerosos matrimônios malogram, e diminuiu de maneira tão significativa a taxa de nascimentos.
Crianças e jovens têm necessidade de amor
As crianças e os jovens são, muitas vezes, os primeiros a experimentar as consequências desse eclipse do amor e da esperança. Com frequência, em vez de se sentirem amados e estimados, parecem ser apenas tolerados.
Numa “época de turbulência”, falta-lhes repetidas vezes uma adequada orientação moral por parte dos adultos, com grave prejuízo para seu desenvolvimento intelectual e espiritual.
Hoje, muitas crianças crescem no seio de uma sociedade que se esqueceu de Deus e da dignidade inata da pessoa humana, criada à sua imagem.
Em um mundo modelado pelos acelerados processos de globalização, não raro as crianças são expostas só a visões materialistas do universo, da vida e da realização humana. Todavia, as crianças e os jovens são, por sua própria natureza, receptivos, generosos, idealistas e abertos à transcendência.
Sobretudo, têm necessidade de serem expostos ao amor e de desenvolver uma ecologia humana sadia, na qual consigam compreender que não vieram ao mundo por acaso, mas através de um dom que faz parte do plano amoroso de Deus.
Se quiserem ser fiéis à sua vocação, os pais, os educadores e os líderes das comunidades jamais podem renunciar a seu dever de propor às crianças e aos jovens a tarefa de optar por um projeto de vida orientado para a felicidade genuína, capaz de distinguir entre a verdade e a falsidade, o bem e o mal, a justiça e a injustiça, e o mundo real e o mundo da “realidade virtual”. (…)
Com base na fé, construir um futuro melhor
Já que acreditam que o Evangelho lança luz sobre todos os aspectos da vida social e individual, os cristãos não poderão deixar de ver as dimensões filosóficas e teológicas dessas questões, e a necessidade de considerar a oposição fundamental entre o pecado e a graça, que abarca todos os outros inquietadores conflitos do coração do homem: entre o erro e a verdade, o vício e a virtude, a rebelião e a cooperação, a guerra e a paz.
Não podem, ademais, deixar de estar persuadidos de que a fé, vivida na plenitude da caridade e comunicada às novas gerações, constitui um elemento essencial para a construção de um futuro melhor e para a salvaguarda da solidariedade entre as gerações, pois ela fundamenta todo o esforço humano para edificar uma civilização do amor na revelação de Deus Criador, na criação dos homens e das mulheres à sua imagem, e na vitória de Jesus Cristo sobre o mal e a morte.
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