O Divino Redentor é Rei por direito adquirido em virtude de sua Paixão, mas o é também em razão de sua onipotência, exercendo o império nos Céus e na terra. Nesta, porém, não Se impõe aos pecadores que O rejeitam. Por misericórdia, concede-lhes um tempo de graça para a conversão.
Este mundo é, portanto, o bastião que compete aos seus súditos fiéis conquistar. Quando Nosso Senhor afirmou ao infame Pilatos “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18, 36), não ditou uma sentença definitiva, mas proclamou que seu Reino universal abarcaria o mundo também, atendendo à súplica que Ele mesmo elevou ao Pai Eterno: “Venha a nós o teu Reino” (Mt 6, 10).
Em parte, esse Reino já veio: ele existe na Santa Igreja Católica, instituição imortal nascida do costado ferido pela lança de Longinos, quando o Rei expirava na Cruz. Mas o Reino definitivo chegará algum dia? Certamente. A oração do Pai-Nosso, prece perfeita proferida pelo Filho ao Pai, não é condicional.
No Antigo Testamento parece discernível um como que prenúncio do Pai-Nosso na frase do Salmo: “Enviai o vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da terra” (103, 30). Há também a promessa de São Luís Grignion de Montfort1 acerca da futura vinda do Reino de Maria.
Contudo, parece que a plenitude do reinado de Cristo ainda está por se concretizar neste mundo, não por falta de poder d’Ele, mas pela contingência das criaturas em se conformarem inteiramente com o Criador.
Jesus não pode ser rebaixado ao nível de um Herodes, reinando sobre súditos que louvam a Barrabás. O ornato digno de um rei é ter súditos à altura de sua grandeza.
Se Nosso Senhor tivesse aceitado ser coroado no Domingo de Ramos, estaria atentando contra sua própria majestade, pois seria o Senhor de criminosos, interesseiros, usureiros, pecadores, blasfemos, sacrílegos, usurpadores, politiqueiros, cínicos, invejosos, caluniadores, traidores, conspiradores…
Ele quis ser Rei para trazer alegria a seus súditos, sem poupar nenhum sacrifício para isso, a tal ponto que o único pedido negado ao Filho-Rei pelo Pai foi: “Se for possível, afasta de Mim esse cálice” (Mt 26, 39). Até esse ponto chega o amor infinito de Deus pelos homens.
A perfeita alegria que Nosso Senhor deseja para nós consiste na plena conformação com Ele. Atingido esse objetivo, o Reino de Cristo estará instaurado e seus súditos participarão de um gáudio que – maravilha misteriosa e insondável da dadivosidade de Deus – tem algo de infinito ainda não desvendado pela Teologia. Eis o que Jesus pede ao Pai:
“Para que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste. Dei-lhes a glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim” (Jo 17, 21-23).
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