Já no século IV a.C., contrapondo-se aos sofistas, Platão discorria no seu diálogo Teeteto acerca da relação entre o verdadeiro e o falso e, em consequência, sobre a necessidade de o homem reconhecer a relação entre uma palavra e a realidade que ela designa.
Meditando também sobre a confusão das línguas em Babel (cf. Gn 11, 1 9), fiquei convencido da necessidade de analisar a balbúrdia de ideias e conteúdos que parece caracterizar os nossos dias.
E julguei oportuno, para isso, propor alguns exemplos que sirvam como ponto de partida para considerações a este respeito.
Meu objetivo é fazer com que nos compenetremos da importância de usar as palavras em seu sentido próprio, respeitando o significado que possuem e, por conseguinte, a verdade das coisas.
Uma liberdade mal concebida
Em sua obra What’s Wrong with the World,1 escreveu argutamente Chesterton: “Nisto consiste a gigantesca heresia moderna: em modificar a alma humana para adaptá-la às circunstâncias, em vez de modificar as circunstâncias para adaptá-las à alma humana”.2
E isso é feito em nome de uma mal concebida liberdade que, de peregrinos nesta terra que conhecem o caminho e o destino, nos converte em seres errantes.
Confunde-se, de fato, liberdade com garantia de poder fazer sempre o que se deseja e tem-se, ademais, a pretensão de que isto seja reconhecido como autêntico direito.
Ignora-se que nem sempre o possível é benéfico para o homem, e que quem age deste modo acaba por tornar-se um pobre escravo (cf. I Cor 10, 23; II Pd 2, 19).
Inebriamo-nos com uma liberdade restringida ao conceito de livre-arbítrio até perdermos a consciência de quem somos! Quando o homem rejeita sua condição de criatura submete-se à confusão, à incomunicabilidade, a viver num perene conflito consigo mesmo e com seus semelhantes.
Se não aceitarmos que nossa natureza nos foi dada por Deus, e tudo o que isso objetivamente significa, condenamo-nos a ser nada mais que pobres vagabundos.
A verdade se impõe por si mesma
Convido, pois, o caro leitor, a refletir por si mesmo, começando por confrontar-se com a realidade e procurando a verdade a partir dela.
Evitará, assim, ficar preso num gênero de subjetivismo cego que alimenta egocentrismos estéreis e conduz inexoravelmente a uma solidão letal.
São Tomás adverte: “A verdade é forte em si mesma e não pode ser vencida por nenhuma objeção”.3 Portanto, ela nunca deve ser imposta, pelo simples motivo de que se impõe per se!
Infelizmente, porém, com muita frequência o homem hodierno se defende da verdade, sem perceber que é a verdade que o defende; em lugar de procurar conhecê-la, prefere apoiar as convicções ou interesses do seu próprio grupo, quando não do seu próprio bando.
Bem e mal são realidades objetivas
Analisemos, por exemplo, os termos bem e mal. Na vida cotidiana eles são claros para todos, mas só na aparência.
Dentro do atual clima de subjetivismo ético e consequente relativismo, muitos estão profundamente convencidos de que não existem o bem e o mal objetivos, mas sim aquilo que a pessoa sente como sendo bom ou mau.
Usa-se a palavra sentir numa acepção genérica, acompanhada frequentemente por uma noção de consciência ainda mais confusa e distorcida, segundo a qual caberia ao homem decidir, em último termo, o que é bom e o que é mau.
Aliás, se relermos o Livro do Gênesis, veremos que nada há de novo debaixo do sol, pois a tentação de nossos primeiros pais foi justamente a de quererem ser iguais a Deus (cf. Gn 3, 1 6)!
Contudo, para além de qualquer tentação, importa reconhecer que bem e mal são, antes de tudo, realidades objetivas.
Para confirmá-lo de forma imediata basta observar, mesmo por alto, nossa vida física e moral: a saúde é um bem, a doença é um mal; dar a vida é um bem, tirá-la é um mal…
Não pretendo, porém, deter-me neste aspecto, mas sim noutro que, salvo melhor juízo, mostra de modo eloquente o quanto aquilo que é ruim quase predomina sobre nosso modo de pensar e de agir cotidiano.
Refiro-me ao fato de que, em geral, o negativo nos impressiona mais que o positivo.
A fisiologia precede as patologias
Com frequência, esquecemo-nos de algo indiscutível: que o mal, tanto físico quanto moral, é sempre uma privação, uma carência.
Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu: o bem exige a totalidade dos requisitos, a falta de um deles compromete o conjunto.
Infelizmente, muitas vezes nos sentimos inclinados a começar por recolher, evidenciar e realçar as carências – o mal –, negligenciando aquele aspecto positivo – o bem – à luz do qual faz sentido falar de um mal.
Deixamo-nos tomar pelas “patologias” e acabamos por esquecer que elas são precedidas pela “fisiologia”.
Daí surge a importância de educar-se a olhar para o bem em primeiro lugar, a saber privilegiar e valorizar o que é positivo. Think positive, gostam de repetir os norte-americanos.
Considerar o mundo exterior sob essa perspectiva mudará inevitavelmente nossa mentalidade, nossa forma de entender a vida e nossa própria vida, assim como a daqueles com os quais entremos em contato.
Triunfar do mal com o bem
A Palavra de Deus convida sem cessar, e quase desafia, a recuperar a beleza de uma existência que é dom divino e não autocriação do homem.
Ela só pode ser plenamente vivida tendo a fé de que o Filho de Deus “me amou e Se entregou por mim” (Gal 2, 20), empenhando-se em fazer triunfar “do mal com o bem” (Rm 12, 21) e enchendo nossas mentes e corações com aquilo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, de boa fama (cf. Fl 4, 8).
Uma última observação, por certo não de pouca monta: fazer o bem ou o mal é coisa importante e tem suas consequências perante Deus:
O Filho do Homem enviará seus Anjos, que retirarão de seu Reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes.
Então, no Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o sol. Aquele que tem ouvidos, ouça (Mt 13, 41 43).
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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