Queridos irmãos, antes de tudo gostaria de expressar a minha grande alegria por estar convosco, párocos de Roma: os meus párocos, somos uma família.
Diálogo familiar para conhecer melhor as realidades da Diocese
O Cardeal Vigário bem disse que é um momento de repouso espiritual. E neste sentido estou grato também porque posso iniciar a Quaresma com um momento de repouso espiritual, de fôlego espiritual, no contacto convosco.
Ele disse também: estamos juntos para que possais contar-me as vossas experiências, os vossos sofrimentos, também os vossos sucessos e alegrias.
Portanto, não diria que aqui fala um oráculo, ao qual vós perguntais. Ao contrário, estamos num diálogo familiar, no qual para mim é também muito importante, através de vós, conhecer a vida nas paróquias, as vossas experiências com a Palavra de Deus no contexto do nosso mundo de hoje.
E assim gostaria também eu de aprender, aproximar-me à realidade da qual quem se encontra no Palácio Apostólico está também um pouco demasiado distante. […]
Avareza e idolatria do dinheiro
Padre Giampiero Ialongo: Como Igreja deveríamos interrogar-nos acerca dos motivos que levaram a esta generalizada situação de crise. Deveríamos ter a coragem de denunciar um sistema econômico e financeiro injusto nas suas raízes.
[…] Naturalmente, denunciar isto é um dever da Igreja. Como sabeis, há muito tempo que preparamos uma Encíclica sobre estes pontos.
E no longo caminho vejo como é difícil falar com competência, porque se não for enfrentada com competência uma determinada realidade econômica não pode ser credível.
E, por outro lado, é preciso falar também com uma grande consciência ética, digamos criada e despertada por uma consciência formada pelo Evangelho.
Portanto, é preciso denunciar estes erros fundamentais que agora são evidenciados pela queda dos grandes bancos americanos, os erros na base.
No final, é a avareza humana como pecado ou, como diz a Carta aos Colossenses, avareza como idolatria. Devemos denunciar esta idolatria, que vai contra o verdadeiro Deus, e a falsificação da imagem de Deus com outro deus, “dinheiro”.
Devemos fazê-lo com coragem, mas também concretamente. Pois os grandes moralismos não ajudam se não forem substanciados com conhecimentos da realidade, que ajudam também a compreender o que se pode fazer concretamente para mudar pouco a pouco a situação.
E, naturalmente, para o poder fazer são necessários o conhecimento desta verdade e a boa vontade de todos.
O pecado obscurece a razão e cria resistências na nossa vontade
Chegamos aqui ao ponto forte: existe realmente um pecado original? Se não existisse, poderíamos fazer apelo à razão lúcida, com argumentos acessíveis a todos e incontestáveis, e à boa vontade que existe em todos.
Só assim poderíamos progredir bem e reformar a humanidade.
Mas não é assim: a razão – também a nossa – é obscurecida, vemo-lo todos os dias. Porque o egoísmo, a raiz da avareza, consiste em querer, sobretudo, a si mesmo e ao mundo para si. Existe isto em todos nós.
É o obscurecimento da razão: ela pode ser muito douta, com maravilhosos argumentos científicos, mas está obscurecida por falsas premissas. Deste modo vai em frente com grande inteligência e com grandes passos pelo caminho errado.
Também a vontade está, digamos, inclinada, dizem os Padres: não está simplesmente disponível para fazer o bem, mas procura sobretudo a si mesmo ou o bem do próprio grupo.
Por isso, encontrar realmente o caminho da razão, da razão verdadeira, já é uma coisa não fácil e dificilmente se desenvolve num diálogo. Sem a luz da Fé, que entra nas trevas do pecado original, a razão não pode desenvolver-se.
Mas precisamente a Fé encontra depois a resistência da nossa vontade. Esta não quer ver o caminho, que constituiria também um caminho de renúncia a si mesmo e de uma correção da própria vontade a favor do outro e não para si mesmo. […]
A justiça só se realiza se existem os justos
A Igreja tem sempre a tarefa de vigiar, de procurar ela mesma com as melhores forças de que dispõe, as razões do mundo econômico, de entrar neste raciocínio e iluminá-lo com a Fé que nos liberta do egoísmo do pecado original.
É dever da Igreja entrar neste discernimento, neste raciocínio, fazer-se ouvir, também nos diversos níveis nacionais e internacionais, para ajudar e corrigir.
Este não é um trabalho fácil, porque muitos interesses pessoais e de grupos nacionais se opõem a uma correção radical. Talvez seja pessimismo, mas parece-me realismo: enquanto houver o pecado original nunca conseguiremos uma correção radical e total.
Mas devemos fazer o possível para obter correções pelo menos provisórias, suficientes para fazer viver a humanidade e para impedir o domínio do egoísmo, que se apresenta sob pretextos de ciência e de economia nacional e internacional.
Este é o primeiro nível. O outro é o sermos realistas. E ver que estas grandes finalidades da macrociência não se realizam na microciência – a macroeconomia na microeconomia – sem a conversão dos corações. […]
Não se pode criar no mundo a justiça apenas com modelos econômicos bons, que são necessários. A justiça só se realiza se existem os justos.
E os justos não existem se não há o trabalho humilde, cotidiano, de converter os corações. […]
Apreender sempre melhor a liturgia
Padre Marco Valentini: Sem nada tirar à formação humana, filosófica, psicológica, nas universidades e nos seminários, gostaria de compreender se a nossa especificidade não exige uma maior formação litúrgica.
[…] Para mim é realmente importante que os Sacramentos, a celebração eucarística dos Sacramentos, não seja uma coisa um pouco estranha, ao lado dos trabalhos mais contemporâneos como a educação moral, econômica, todas as coisas que já dissemos.
Pode acontecer facilmente que o Sacramento permaneça um pouco isolado num contexto mais pragmático e se torne uma realidade não totalmente inserida na totalidade do nosso ser humano.
Obrigado pela pergunta, porque realmente nós devemos ensinar a ser homens. Devemos ensinar esta grande arte: como ser homem.
Isto exige, como vimos, tantas coisas: da grande denúncia do pecado original nas raízes da nossa economia e nos numerosos ramos da nossa vida, até guias concretos da justiça, até ao anúncio aos não-crentes.
Mas os mistérios não são uma coisa exótica no cosmos das realidades mais práticas. O mistério é o coração do qual provém a nossa força e para o qual voltamos para encontrar este centro.
E por isso penso que a catequese, digamos mistagógica, é realmente importante. […]
Por outras palavras, a catequese eucarística e sacramental deve realmente alcançar o âmago da minha existência, ser precisamente educação a abrir-me à voz de Deus, a deixar-me abrir para que interrompa este pecado original do egoísmo e seja abertura da minha existência em profundidade, de modo que possa tornar-se um verdadeiro justo.
Neste sentido, parece-me que todos devemos aprender sempre melhor a liturgia, não como uma coisa exótica, mas como o coração do nosso ser cristãos, que não se abre facilmente a um homem distante, mas é precisamente, por outro lado, a abertura ao outro, ao mundo.
Todos devemos colaborar para celebrar cada vez mais profundamente a Eucaristia: não só como rito, mas como processo existencial que me toca na minha intimidade, mais do que qualquer outra coisa, e me muda, me transforma.
E transformando a mim, dá início também à transformação do mundo, que o Senhor deseja e para a qual quer fazer-nos seus instrumentos.
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 296, Agosto 2026
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