A Igreja celebra hoje sua dignidade de “Mãe de todos os Santos, imagem da cidade celestial” (A. Manzoni), e manifesta sua beleza de Esposa Imaculada de Cristo, fonte e modelo de toda santidade.
Não lhe faltam, por certo, filhos indóceis e inclusive rebeldes, mas é nos Santos que ela reconhece seus traços característicos e precisamente neles encontra sua mais profunda alegria.
Na primeira leitura, o autor do livro do Apocalipse nos descreve “uma multidão imensa, que ninguém poderia contar, de toda nação, raça, povo e língua” (Ap 7, 9).
Esse povo compreende os Santos do Antigo Testamento, desde o justo Abel e o fiel patriarca Abraão, os do Novo Testamento, os numerosos mártires do início do Cristianismo, e os Beatos e Santos dos séculos sucessivos, até as testemunhas de Cristo em nosso tempo.
Une a todos a vontade de encarnar em sua vida o Evangelho, sob o impulso do eterno animador do povo de Deus, o Espírito Santo. […]
Como se pode chegar a ser santo?
Como, porém, podemos chegar a ser Santos, amigos de Deus?
Pode-se responder a esta pergunta, preliminarmente, de forma negativa: para ser Santo, não é preciso fazer ações e obras extraordinárias, nem possuir carismas excepcionais.
Vem depois a resposta positiva: é necessário, sobretudo, escutar Jesus e segui-Lo sem desanimar ante as dificuldades. “Se alguém Me quer servir, siga-Me; e, onde Eu estiver, estará ali também o meu servo. Se alguém Me serve, meu Pai o honrará” (Jo 12, 26).
Quem n’Ele confia e O ama com sinceridade, aceita morrer para si mesmo, como o grão de trigo enterrado, pois sabe que quem quer guardar para si mesmo sua vida a perde, e quem se entrega, quem se perde, encontra assim a vida (cf. Jo 12, 24-25).
A experiência da Igreja demonstra que qualquer forma de santidade, mesmo seguindo sendas diferentes, passa sempre pelas vias da Cruz, pelo caminho da renúncia a si mesmo.
As biografias dos Santos apresentam homens e mulheres que, dóceis aos desígnios divinos, enfrentaram provas e sofrimentos indescritíveis, perseguições e martírio.
Perseveraram em sua entrega, “passaram pela grande tribulação – lê-se no Apocalipse – e lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro” (Ap 7, 14). Seus nomes estão escritos no Livro da Vida (cf. Ap 20, 12), o Paraíso é sua eterna morada.
O exemplo dos Santos estimula-nos a seguir o mesmo caminho, a experimentar a alegria de quem confia em Deus, pois, para o homem, a única verdadeira causa de tristeza e de infelicidade é viver longe d’Ele.
A santidade é um dom de Deus
A santidade exige um esforço constante, mas é acessível a todos porque, mais que obra do homem, é sobretudo dom de Deus três vezes Santo (cf. Is 6, 3).
Na segunda leitura, o Apóstolo São João observa: “Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato!” (I Jo 3, 1).
Portanto, é Deus quem nos amou primeiro e fez-nos, em Jesus Cristo, seus filhos adotivos. Em nossa vida, tudo é dom de seu amor.
Como ficar indiferentes ante um tão grande mistério? Como não corresponder ao amor do Pai celeste com uma vida de filhos agradecidos? Em Cristo, fez o dom total de Si mesmo a nós, e nos chama a uma relação pessoal e profunda com Ele.
Portanto, quanto mais imitamos Jesus e a Ele permanecemos unidos, tanto mais entramos no mistério da santidade divina. Descobrimos que somos amados por Ele de modo infinito, e isso nos move a amar nossos irmãos.
Amar importa sempre num ato de renúncia a si mesmo – “perder-se a si mesmos” – e precisamente por isso nos torna felizes.
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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