Festa da catolicidade

A festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo é uma grata memória das grandes testemunhas de Jesus Cristo e ao mesmo tempo uma solene confissão em favor da Igreja una, santa, católica e apostólica.

É antes de tudo uma festa da catolicidade. O sinal de Pentecostes – a nova comunidade que fala em todas as línguas e une todos os povos num único povo, numa família de Deus – tornou-se realidade.

A nossa assembleia litúrgica, na qual estão reunidos Bispos provenientes de todas as partes do mundo, pessoas de numerosas culturas e nações, é uma imagem da família da Igreja distribuída sobre toda a terra.

Estrangeiros tornaram-se amigos; superando todas as fronteiras, reconhecemo-nos irmãos.

Com isto é levada a cabo a missão de São Paulo, que sabia “ser para os gentios um ministro de Cristo Jesus, que administra o Evangelho de Deus, a fim de que a oferenda dos gentios, santificada pelo Espírito Santo, Lhe seja agradável” (Rm 15, 16). 

A finalidade da missão é uma humanidade que se tornou uma glorificação viva de Deus, o culto verdadeiro que Deus espera: eis o sentido mais profundo da catolicidade, uma catolicidade que já nos foi doada e para a qual, contudo, devemos avançar sempre de novo.

A catolicidade exprime não só uma dimensão horizontal, a reunião de muitas pessoas na unidade, exprime também uma dimensão vertical: somente dirigindo o olhar para Deus, somente abrindo-nos a Ele nos podemos tornar verdadeiramente uma coisa só.

Como Paulo, também Pedro veio a Roma, à cidade para onde confluíam todos os povos e que por isso podia tornar-se, mais que qualquer outra, a expressão da universalidade do Evangelho. 

Multiplicidade na unidade

Catolicidade significa universalidade, multiplicidade que se torna unidade; unidade que, contudo, permanece multiplicidade.

Da palavra de Paulo sobre a universalidade da Igreja, já vimos que faz parte desta unidade a capacidade que os povos têm de se superar a si mesmos, para olhar para o único Deus. 

O fundador da Teologia Católica, Santo Ireneu de Lyon, no século II, expressou este vínculo entre catolicidade e unidade de maneira muito bela, e cito-o. Diz:

A Igreja espalhada em todo o mundo conserva esta doutrina e esta Fé com diligência, formando quase uma única família: a mesma Fé com uma só alma e um só coração, a mesma pregação, ensinamento, tradição, como se tivesse uma só boca.

São diversas as línguas segundo as regiões, mas a força da tradição é única e a mesma.

As Igrejas da Alemanha não têm uma Fé ou tradição diversa, nem as da Espanha, da Gália, do Egito, da Líbia, do Oriente, nem as do centro da terra; como o sol, criatura de Deus, é um só e idêntico em todo o mundo, assim a luz da verdadeira pregação resplandece em toda parte e ilumina os homens que desejam chegar ao conhecimento da verdade.1

A unidade dos homens na sua multiplicidade tornou-se possível porque Deus, este único Deus do Céu e da terra, se mostrou a nós; porque a verdade fundamental sobre a nossa vida – sobre o nosso “de onde?” e “para onde?” – se tornou visível quando Ele se mostrou a nós e em Jesus Cristo nos fez ver o seu rosto, a Si mesmo.

Esta verdade sobre a essência do nosso ser, sobre nossa vida e nossa morte, verdade tornada visível por Deus, une-nos e faz de nós irmãos. Catolicidade e unidade caminham juntas. E a unidade tem um conteúdo: a fé que os Apóstolos nos transmitiram da parte de Cristo. 

Compêndio do Catecismo

Sinto-me feliz porque ontem, festa de Santo Ireneu e vigília da solenidade dos Santos Pedro e Paulo, pude entregar à Igreja um novo guia para a transmissão da Fé, que nos ajuda a conhecer melhor e depois também a viver melhor a Fé que nos une: o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. 

A igreja é apostólica

Dissemos que catolicidade da Igreja e unidade da Igreja caminham juntas. O fato de que essas duas dimensões se tornem visíveis a nós nas figuras dos Santos Apóstolos indica-nos já a característica sucessiva da Igreja: ela é apostólica. O que significa isso? 

O Senhor instituiu doze Apóstolos, assim como doze eram os filhos de Jacó, indicando-os como arquétipos do povo de Deus que, tendo-se já tornado universal, desde então abrange todos os povos.

São Marcos diz-nos que Jesus chamou os Apóstolos para que “andassem com Ele e também para os enviar” (Mc 3, 14). Parece quase uma contradição. Nós diríamos: ou estão com Ele ou são enviados e põem-se a caminho. 

Há uma palavra do Santo Papa Gregório Magno sobre os Anjos, que nos ajuda a desfazer tal contradição. Ele diz que os Anjos são sempre enviados e ao mesmo tempo estão sempre diante de Deus, e continua: “Onde quer que sejam enviados, onde quer que vão, caminham sempre no seio de Deus”.2

O Apocalipse qualificou os Bispos como “anjos” da sua Igreja e, por conseguinte, podemos fazer esta aplicação: os Apóstolos e os seus sucessores deveriam estar sempre com o Senhor e precisamente assim – onde quer que vão – estar sempre em comunhão com Ele e viver dessa comunhão.

A Igreja é apostólica, porque confessa a Fé dos Apóstolos e procura vivê-la. Existe uma unicidade que caracteriza os Doze chamados pelo Senhor, mas existe ao mesmo tempo uma continuidade na missão apostólica.

São Pedro na sua primeira Carta qualificou-se como “copresbítero” com os presbíteros aos quais escreve (5, 1). E com isto expressou o princípio da sucessão apostólica: o mesmo ministério que ele tinha recebido do Senhor continua agora na Igreja, graças à ordenação sacerdotal.

A Palavra de Deus não está só escrita, mas, graças às testemunhas que o Senhor, por meio do Sacramento, inseriu no ministério apostólico, permanece palavra viva.

 


1 Adv. haer. I 10, 2.
2 Homilia 34, 13.