Vibrar com as necessidades da Igreja, em todos os continentes, é, e sempre será, algo muito próprio dos cristãos. […]
Não se apaga da minha memória o júbilo com que São Josemaría expressava esta verdade. Escrevia numa ocasião:
Na Santa Igreja, nós, os católicos, encontramos a nossa fé, as normas de conduta, a oração, o sentido da fraternidade e a comunhão com todos os irmãos que já desapareceram e que se purificam no Purgatório – Igreja padecente – ou que já gozam da visão beatífica – Igreja triunfante –, amando eternamente o Deus três vezes Santo.
Por isso, a Igreja permanece aqui e, ao mesmo tempo, transcende a História. A Igreja, que nasceu sob o manto de Santa Maria, continua – na Terra e no Céu – a louvá-La como Mãe.1 […]
A Igreja como Corpo de Cristo
Meditemos de novo nas palavras de Jesus Cristo ressuscitado. À pergunta de Saulo – Quem és, Senhor? –, o Senhor responde: Eu sou Jesus, a quem tu persegues (cf. At 9, 5).
No fundo, nesta exclamação do Ressuscitado, que transformou a vida de Saulo, acha-se contida toda a doutrina sobre a Igreja como Corpo de Cristo. Cristo não se retirou para o Céu, deixando na Terra uma multidão de seguidores que levam adiante “a sua causa”.
A Igreja não é uma associação que quer promover certa causa. Nela, não se trata de uma causa. Trata-se da pessoa de Jesus Cristo, que, também como Ressuscitado, continua a ser “carne”.
Tem “carne e ossos” (cf. Lc 24, 39), como o Ressuscitado afirma no Evangelho de São Lucas, perante os discípulos que julgavam que era um espírito. Tem um corpo. Está pessoalmente na sua Igreja.2
À luz destas considerações, aprofundamos mais na realidade de que qualquer ofensa à Igreja – à sua doutrina, aos seus Sacramentos e instituições, aos seus Pastores, especialmente à sua Cabeça visível, o Romano Pontífice – constitui um menosprezo pelo próprio Jesus Cristo.
Pois a Igreja que contemplamos na Terra, apesar das fraquezas e erros que nós, seus membros, arrastamos, sempre é a Igreja de Deus, como Paulo repete inumeráveis vezes: é o Povo que Deus Pai convocou em Sua presença.
O Corpo de Cristo, que Jesus Cristo fundou ao preço do Seu Sangue, a fim de prolongar a Sua presença na História até o final dos tempos; o Templo do Espírito Santo, que se ergue como a verdadeira morada de Deus entre os homens.
Com palavras de um Padre da Igreja, que o Concílio Vaticano II fez suas, “toda a Igreja aparece como ‘um povo reunido em virtude da unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo’”.3
Universalidade e unidade da Igreja
A Unidade e Trindade de Deus define, portanto, o fundamento último da realidade e da natureza íntima da Igreja. Por isso,
enganar-se-iam gravemente aqueles que procurassem separar uma Igreja carismática – que seria a verdadeiramente fundada por Cristo – de outra jurídica ou institucional, que seria obra dos homens e simples efeito de contingências históricas.
Só há uma Igreja. Cristo fundou uma única Igreja: visível e invisível, com um corpo hierárquico e organizado, com uma estrutura fundamental de direito divino e uma íntima vida sobrenatural que a anima, sustenta e vivifica.4
A sublime visão da Igreja, que São Paulo expõe em suas Epístolas, é a razão de ser da fortaleza com que atua quando está em jogo a sua unidade ou a sua universalidade.
Admoesta os cristãos de Corinto, propensos a dividir-se em facções contrapostas, dizendo-lhes:
Irmãos, […] eu soube que há entre vós discórdias. Refiro-me ao fato de que entre vós se usa esta linguagem: “Eu sou discípulo de Paulo; eu, de Apolo; eu, de Cefas; eu, de Cristo”.
Então estaria Cristo dividido? É Paulo quem foi crucificado por vós? É em nome de Paulo que fostes batizados? (I Cor 1, 11-13).
A defesa da unidade desta Mãe santa mostra-se como uma paixão dominante na vida do Apóstolo, como também o foi a defesa da sua universalidade.
Desde o primeiro momento – ensina o Papa –, compreendeu que essa realidade não estava destinada só aos judeus, a um grupo determinado de homens, mas tinha um valor universal e se estendia a todos, porque Deus é o Deus de todos.5
E assim, ante o perigo de que a primitiva comunidade cristã ficasse encerrada nos limites da Sinagoga, o denominado Concílio de Jerusalém declarou que todos os homens e mulheres, de qualquer raça, língua e nação, são chamados a uma plena incorporação na Igreja de Cristo (cf. At 15, 23-29).
Na qual “não há judeu ou grego, não há servo ou livre, não há varão ou mulher, porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gal 3, 28).
Rezar “pro unitate apostolatus”
Desta pertença da Igreja a Cristo procede
o nosso dever de viver realmente em conformidade com Cristo. Daqui derivam também as exortações de São Paulo a propósito dos diferentes carismas que animam e estruturam a comunidade cristã.
Todos remontam a um único manancial, que é o Espírito do Pai e do Filho, sabendo que na Igreja ninguém deixa de ter um carisma, pois, como escreve o Apóstolo, “a cada um é concedida a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (I Cor 12, 7).6
É sinceramente piedosa a tua petição pro unitate apostolatus? Como rezas por todos os que gastam a sua existência pela Igreja? Sabes chegar com a oração até o último lugar onde se trabalha por Cristo?
Quantas graças temos que dar a Deus por ter querido que a Igreja seja, ao mesmo tempo, única e tão variada! E que respeito temos de mostrar por todas as manifestações com que o Espírito Santo quer adornar a Esposa de Cristo!
Na Igreja, há diversidade de ministérios, mas um só é o fim: a santificação dos homens. E desta tarefa participam de algum modo todos os cristãos, pelo caráter recebido com os Sacramentos do Batismo e da Confirmação.
Todos devemos sentir-nos responsáveis por essa missão da Igreja, que é a missão de Cristo.7
Ninguém está a mais na Igreja: todos somos necessários. O ponto importante centra-se na comunhão com a sua Cabeça visível, com os Pastores e com todo o Povo de Deus, cada um segundo o chamado e a graça que recebeu.
A Obra, uma pequena parte da Igreja
No âmbito dos ensinamentos eclesiológicos de São Paulo, a realidade teológica e jurídica da Obra – que é uma pequena parte da Igreja – adquire todo o seu relevo.
Apraz-me considerá-lo agora que está prestes a terminar o especial ano mariano que convoquei para comemorar as bodas de prata da ereção pontifícia da Prelazia.
O labor apostólico do Opus Dei – dos seus fiéis leigos e dos seus sacerdotes – é, necessariamente, uma colaboração para a vitalidade pastoral das Igrejas particulares onde a Prelazia vive e atua.