Desde os primeiros tempos da Igreja houve homens e mulheres que sentiram um chamado de Deus para trilhar um caminho especial de santificação diferente não só da via comum a todos os fiéis – que constituem família, possuindo bens, etc. –, mas também da dos sacerdotes consagrados ao serviço do altar e dos irmãos.

Eram as virgens cristãs, muitas delas mártires gloriosas durante as sangrentas perseguições; ou as viúvas que, renunciando aos bens terrenos, dedicavam-se ao serviço dos pobres na prática da caridade.

Ou ainda os eremitas que se afastavam do mundo civilizado para imolar sua vida na oração e na contemplação, em penitência por faltas cometidas, ou como proteção de sua própria inocência.

Formas de vida em comunidade muito diversificadas

Essas vocações individuais tenderam a constituir, com o tempo, comunidades, nas quais as pessoas chamadas por Deus a um mesmo gênero de vida uniam seus esforços e se entreajudavam.

Ao longo dos séculos, essas comunidades ou famílias espirituais organizaram-se em diversas formas.

Os cenóbios de São Pacômio, as abadias de São Bento, os conventos dominicanos, os eremitérios franciscanos, as casas dos jesuítas são exemplos, entre tantos outros, de instituições de vida em comum, constituídas por pessoas que, praticando a obediência, a castidade e a pobreza, consagravam sua vida à maior glória de Deus.

As formas de organização da vida adotadas por essas comunidades ou famílias religiosas foram muito diversificadas, adaptadas às necessidades da Igreja e às inspirações do Espírito Santo para cada fundador.

São Francisco de Assis e sua nova forma de vida

Quando, na primavera de 1209, o poverello de Assis, acompanhado por seus doze primeiros companheiros, apresentou a Inocêncio III as poucas linhas que constituíam sua primitiva Regra, o Papa e seus conselheiros hesitaram: Tratava-se de um grupo de excêntricos?

Ou estavam inspirados pelo Espírito Santo? Com efeito, a nova forma de vida “segundo o santo Evangelho” era muito diferente da dos monges que há séculos perfumavam a Igreja com seus frutos de santidade. 

Mas o Romano Pontífice, ensina Bento XVI, “soube discernir a iniciativa do Espírito Santo e acolheu, abençoou e encorajou a comunidade nascente”.1

E “do pequeno regato que brotou aos pés do Monte Subasio, formou-se um grande rio, que deu uma contribuição notável à difusão universal do Evangelho”.2 

O Oratório de São Filipe Néri

No século XVI, São Filipe Néri – verdadeiro apóstolo na Roma neopaganizada da Renascença – reuniu em torno de si numerosos discípulos com os quais organizou uma família religiosa, e pediu ao Papa Gregório XIII que esta não fosse obrigada a assumir nenhuma das formas jurídicas anteriormente estabelecidas, mas pudesse constituir uma instituição diferente.

Assim surgiu a Congregação do Oratório, na qual os membros “não deviam estar vinculados por votos ou promessas, mas o único liame deveria ser o amor”.3

O desafio era grande, pois uma instituição canônica desse tipo não entrava na concepção de muitos juristas renascentistas influenciados por um Direito Romano mal-entendido. 

Entretanto, em 1575 Gregório XIII, pela bula Copiosus in misericordia, erigiu e aprovou a “Congregação de presbíteros e clérigos denominada do Oratório” fundada pelo “nosso amado filho Filipe Néri”.

O mais curioso é que esta ereção não incluía nenhuma aprovação de estatutos, uma vez que “o único vínculo deveria ser o amor”.

Nasceu assim na Igreja uma forma de instituição jurídica que tomou diversos nomes ao longo dos séculos, sendo atualmente denominada “Sociedade de Vida Apostólica”.4 

quarenta anos depois da aprovação pontifícia, os filhos do Santo florentino conseguiram, ajudados por canonistas e estudiosos, redigir as primitivas Regras do “Oratório”, aprovadas pelo Papa Paulo V.5

Evolução através dos séculos

No decorrer dos séculos, muitos fundadores de famílias religiosas sentiram-se chamados pelo Espírito Santo a enquadrar seu respectivo instituto em alguma das formas jurídicas existentes – ordens contemplativas, ordens mendicantes, congregações dedicadas ao ensino, ao atendimento dos enfermos, etc.

Enquanto outros, como São Francisco de Assis ou São Filipe Néri, igualmente inspirados pela Divina Providência, consideraram que deviam inovar nas formas; e tanto uns quanto outros receberam a aprovação da Igreja de Jesus Cristo.

Esta aprovação do Papa era dada, durante séculos, por meio de uma Bula pontifícia.

Mas, o crescimento da Igreja ao longo dos séculos impôs a criação de organismos que aliviassem o pesado fardo do sucessor de Pedro: são os Dicastérios Romanos, instituições que auxiliam o Papa nas diversas tarefas da Igreja.

Hoje a decisão de aprovar uma nova família religiosa continua sendo responsabilidade do Papa.

Mas cabe ao Cardeal-Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica erigir ou aprovar, mediante Decreto, o novo grupo de consagrados que o Espírito Santo suscitou na sua Igreja. 

Até 31 de dezembro de 2008, havia 44 Sociedades de Vida Apostólica aprovadas: 32 masculinas e 12 femininas. Uma das primeiras, e a mais numerosa, é a dos Padres Lazaristas, fundada por São Vicente de Paulo, hoje com quase 4 mil membros.

Entre as Sociedades femininas, destaca-se a das Filhas da Caridade, fundada por São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac: conta atualmente com 20 mil irmãs consagradas ao serviço dos necessitados.

Desde o último mês de abril, as Sociedades Virgo Flos Carmeli (clerical) e Regina Virginum (feminina), nascidas no seio dos Arautos do Evangelho, fazem parte dessa família de instituições.

 


1 Discurso aos membros da família franciscana, 18/04/2009.
2 Idem, ibidem.
3 SCHWAIGER G., La Vita Religiosa dalle origini ai nostri giorni. Milano: 1997, p.335.
4 Cf. Código de Direito Canônico, can. 731-746.
5 Christifidelium quorumlibet, 24/02/1612.