Como surgiu o desejo de terem tantos filhos?

Prof. Ney: Somos originários de Campo Mourão, no Paraná. Eu vim para Curitiba cursar a Faculdade de Engenharia e deixei lá a Jecyleine, que já era minha namorada.

Aqui conheci a Obra, o Opus Dei, e comecei a frequentar os meios de formação para estudantes onde me explicaram a doutrina da Igreja bem como o convite à santidade de uma forma viva e atraente.

Estando, a seguir, com a Jecyleine eu lhe disse: “Nós vamos nos casar, mas preciso dizer-lhe uma coisa: se queremos formar uma família, o que importa não é ter muitos ou poucos filhos, mas sim seguir a orientação da Igreja a este respeito”.

Foi um choque, porque, por circunstâncias diversas, os problemas da maternidade lhe causavam muitos receios.

Ela então me respondeu: “Olhe, eu nunca pensei em ter muitos filhos, ainda nem sequer pensei em ter filhos…” Nós estávamos começando o namoro, eu tinha 18 anos e namorava para casar-me.

Dna. Jecyleine: Ele foi meu primeiro namorado e eu a primeira namorada dele.

Prof. Ney: Exato. Apesar do choque, eu continuei, dizendo: “Se nos casarmos e fizermos uso de anticoncepcionais, eu não vou me sentir bem, não vai dar certo, nós não seremos felizes dessa forma”.

Ela tem o espírito muito alegre e brincalhão, e para diminuir a tensão que se havia criado, saiu-se com esta: “Tudo bem, mas eu ponho outra condição: eu morro antes, tá bom?” Como não dependia de mim, eu aceitei…

Não é difícil, do ponto de vista econômico, ter tantos filhos? Não é preciso coragem?

Dna. Jecyleine: A coragem vem da Fé, da consciência da filiação divina; sabemos que somos filhos de Deus e, portanto, nada vai nos faltar, Ele vai nos ajudar sempre que for preciso. É a confiança.

Prof. Ney: Uma coisa que eu aprendi, na Obra, é o conceito da filiação divina, que Deus é Pai. Já passamos por dificuldades financeiras enormes, e o que fizemos nesses momentos? Rezamos o terço em família.

Logo no início de nosso casamento, quando as dificuldades chegaram e chegam, o que aprendi na Opus Dei (que é doutrina da Igreja) sempre me ajudou a manter a paz: “Confiem muito em Deus”. Eu já tive uma fábrica, e por confiar nas pessoas, perdi tudo, fiquei reduzido a zero, contraí uma dívida enorme.

Nestes momentos de dificuldades o sorriso das crianças, o apoio da esposa e a frequência aos Sacramentos (Comunhão e Confissão) e aos meios de formação da Obra me ajudaram a manter a paz.

Deus é um Pai que ama mais os seus filhos que nós mesmos. Pus os meios, trabalhei e por graça de Deus nunca faltou o necessário, bem como nunca sobrou. Hoje o nosso maior investimento é na formação humana e espiritual dos filhos.

Muitas vezes, na Universidade, os alunos, principalmente as meninas, me perguntam sobre meus filhos: queira ou não, isto chama a atenção. Em certa ocasião, um rapaz indagou por que eu tinha querido ter filhos, se achava que conseguiria dar tudo a eles.

Eu comentei que provavelmente não iríamos ter certas coisas, por exemplo: uma casa na praia, vários carros, proporcionar aos filhos cursos extras de música, judô, de balé…

Mas eu não teria aberto mão de nenhum de meus filhos para poder ter algum desses bens, ou para proporcionar aos demais isso ou aquilo, o que mais eles necessitam é de um irmão.

Ouvindo isso, a sala ficou paralisada. Eu concluí dizendo: “Amo meus filhos! Querem um conselho? Não tenham medo de ter filhos”.

O que os seus filhos pensam de pertencer a uma família tão grande?

Dna. Jecyleine: Meu filho mais velho, João Paulo, teve de apresentar na faculdade um trabalho sobre a família. Ele está estudando em Campo Mourão, foi o primeiro a sair de casa.

Ele nos disse que o maior sofrimento dele foi se separar da família, pois somos numerosos, alegres, ativos… Ele sentiu muita falta do calor da nossa casa.

No início deste ano, no curso de inglês do João Paulo, todos deveriam fazer uma apresentação sobre sua família. Enquanto o João falou, todos puderam notar a sua alegria e o entusiasmo ao comentar de tudo e todos.

A próxima colega a falar, por contraste, era filha única, e esta no final fez o seguinte comentário:

Eu amo a minha família e respeito a decisão de meus pais de ter uma filha, mas depois de conhecer a família do João e ver a alegria com que falava, tomei uma decisão na minha vida: não vou ter apenas um filho.

Eu digo às pessoas que não querem ter filhos, ou querem ter apenas um ou dois, que elas estão deixando de ser felizes, porque cada filho é uma alegria a mais que Deus dá. Tendo mais filhos, é-se mais feliz. Cada filho que chega, aumenta a felicidade.

Qual o papel do Opus Dei em sua formação?

Prof. Ney: Na Obra há pessoas que vivem o celibato apostólico (chamados numerários), e eu os admiro e vejo que são muito felizes, mas nunca consegui imaginar-me como um deles.

Sempre me senti uma pessoa com vocação ao Matrimônio; nunca me vi fora da Obra, porque eu amo o seu espírito. Foi com muita alegria que descobri que poderia ser da Obra como supernumerário, pois sempre pensei em casar-me, em ter uma família.

Eu percebi que era o meu caminho, no qual Deus escolheu para mim, minha vocação.

Dna. Jecyleine: Nosso noivado, nossa vida foi orientada, com toda a liberdade de um filho de Deus, pela Obra, que nos foi mostrando o que a Igreja recomenda para os seus filhos.

Éramos dois universitários namorando, com confissão, palestras e meditações semanais. Inclusive em minha faculdade – eu fiz Artes Plásticas –, não faziam algumas brincadeiras e piadas quando eu estava no grupinho. No meio daquela confusão, tínhamos um namoro santo.

Maria Cecília, como filha mais velha aqui presente, o que você sente vivendo numa família assim?

Maria Cecília: Recebemos, meus irmãos e eu, a graça de nascer num lar de amor, e desde pequenos sentimos a alegria de retribuir e de transmitir esse amor.

Quando nascia um novo irmão, eu via que o amor de meus pais crescia entre eles, por nós que já existíamos e pelo novo filho que chegava.

Eu me sinto querida tanto quanto se fosse filha única. Se, ao invés de nove, fôssemos dezoito, poderia até ser que esse amor fosse ainda maior.

Observando os meus pais, compreendi que a partir do momento que uma pessoa se casa, ela não deve buscar a própria felicidade, mas a felicidade do outro.

Esta é a diferença substancial entre o casamento cristão e as outras propostas de união, e que eu pude ver desde pequena. A atenção que eles me davam, bem como ao meu irmão mais velho, me inspirava a tratar do mesmo modo meus irmãos mais novos.

O que recebemos deles, queremos transmiti-lo, amando quem estiver a nosso alcance, quer nas famílias que alguns de nós vão constituir, quer no apostolado para o qual formos chamados.

Então a Obra ensinou muito para o casal, e agora está ensinando para os filhos?

Prof. Ney: O João Paulo e a Maria Cecília frequentaram os centros de formação da Obra. O João Paulo tem hoje uma namorada, ela já fez um retiro, eles se confessam regularmente.

A Maria Cecília, por outro lado, já sentiu a vocação dela, entrou para a Obra, é uma numerária. O futuro pertence a Deus, e na Casa d’Ele há muitas moradas. 

 


O Prof. Ney José Araújo Kloster é engenheiro, professor na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, e Dna. Jecyleine Pereira Kloster é artista plástica e dona de casa, ambos supernumerários do Opus Dei. São pais de João Paulo (22), Maria Cecília (18), Pedro Henrique (16), Marco Aurélio (14), Maria Teresa (12), Ana Beatriz (9), Ana Júlia (7), Ana Laura (4) e José Eduardo (2).