Poderia Vossa Eminência dizer como surgiu o seu chamado à vida religiosa e por que razão escolheu a via franciscana?

Bem, quando eu era ainda muito pequeno, o meu irmão mais velho resolveu fazer um retiro no mosteiro dos capuchinhos. Meu pai foi levá-lo e eu o acompanhei.

Enquanto os retirantes se reuniam, meu pai e eu fomos conversar com um velho frade alemão que estava plantando legumes na horta do mosteiro.

Conversamos com ele durante um bom tempo. Na viagem de volta, meu pai me disse: “Meu filho, aquele é o homem mais feliz do mundo!”

Pensei comigo mesmo: “Veja, ele não tem um bom carro, não se veste bem, não tem uma bela esposa, mas mesmo assim é verdade: ele é muito feliz, pois simplesmente irradia paz”.

E concluí: “Eu também quero ser feliz assim!” Muitos anos depois, entrei naquele mesmo mosteiro.

Julgo, porém, que o fato de ter um tio sacerdote ajudou-me muito na vocação. Ele me batizou e foi um bom modelo para mim.

Além disso, na minha família havia muita veneração pelo sacerdócio e devoção à Eucaristia. Íamos à Missa quase todos os dias e rezávamos o Rosário e outras orações em família. 

Todas essas coisas causam impressão numa criança.  

Em Vossa Eminência, o cordão dos franciscanos e o barrete cardinalício estão presentes em perfeita harmonia. Qual é o segredo dessa feliz união? 

Parece-me que o importante é esforçar-se por estar disponível para o que a Igreja queira de nós. Quando entrei no mosteiro, nunca imaginei que um dia seria solicitado a ser Bispo ou Cardeal. Se soubesse, teria me aplicado mais aos estudos no seminário! 

Mas, repito, o que importa é procurar estar disponível para aquilo que a Igreja nos pede.

Às vezes, claro, pode surgir uma tensão, pelo fato de ser frade e, ao mesmo tempo, Bispo, mas procuramos viver de tal modo que os valores da vida franciscana reflitam junto à necessidade de ser, como Bispo, irmão de todos, influenciando assim a maneira com a qual vivemos a nossa vocação.

Espero que como Cardeal haja também esta mesma contribuição. 

Vossa Eminência comemora neste mês 25 anos de episcopado. Poderia compartilhar com nossos leitores algo dessa rica experiência eclesial?

Sempre achei que se um capuchinho tivesse de ser Bispo, ele deveria sê-lo nas missões, e foi nas Ilhas Virgens Americanas que comecei o meu episcopado.

Em determinado momento fui chamado de volta ao Continente, e cada uma das dioceses constituiu para mim uma experiência maravilhosa, muito diferente uma da outra.

Isso me proporcionou oportunidade de vivenciar a universalidade e a riqueza da Igreja, a começar pela cultura do Caribe, passando em seguida por Fall River, Massachusetts, onde há muitos portugueses.

Depois Palm Beach, na Flórida, uma diocese com muitos contrastes, algumas pessoas muito ricas, outras muito pobres; por fim, Boston, uma diocese enorme, com tantos desafios diferentes, instituições e pessoas de todos os lugares imagináveis.

Então, tem sido um privilegio maravilhoso, o de poder vivenciar essa grande diversidade e riqueza da nossa Igreja Católica, e ser edificado pela Fé e pela dedicação dos sacerdotes, dos fiéis e dos religiosos que em cada lugar encontrei. É uma grande consolação.

Vossa Eminência tem um mestrado em Educação Religiosa e um Ph.D. em Literatura espanhola e portuguesa. Qual é a razão de ter escolhido estes dois idiomas em seus estudos acadêmicos?

É uma história um tanto longa. Quando eu estudava Teologia em Washington, o Superior Provincial quis que me graduasse na Universidade Católica, e a primeira matéria que estudei foi Missiologia, porque eu tinha sido designado para as missões.

Porém, o curso de Missiologia naquela época era muito fraco. Comentei isso com o Provincial e ele deixou a meu critério escolher o que me fosse mais útil.

Então estudei literatura espanhola, especializando-me nos místicos espanhóis e nos escritores espirituais do Siglo de Oro.

Isso representou uma caminhada muito enriquecedora e espiritual, que me permitiu conhecer Santa Teresa, São João da Cruz, Santo Inácio e muitos outros escritores dessa época, que são um tesouro muito grande na história da Igreja.

Eu recebia uma bolsa da Universidade Católica, e eles me ofereceram a possibilidade de fazer o doutorado, mas para isso eu precisava de outro curso de literatura.

Propuseram-me, então, estudar árabe. Mas esse idioma realmente não oferecia uma dimensão pastoral para mim, e acabei optando pelo português.

Pouco após a ordenação, precisaram de alguém apto a celebrar Missa em português. Assim, comecei minha vida presbiteral numa comunidade portuguesa em Washington.

Isso acabou sendo uma espécie de “noviciado” para mim, pois anos mais tarde fui nomeado Bispo de Fall River, onde a maioria dos católicos é constituída de portugueses.  

Vossa Eminência ordenou recentemente seis sacerdotes diocesanos de idade e de origens étnicas díspares. Seria esta multiplicidade um reflexo da variedade de povos na Arquidiocese de Boston?

Houve tempo em que as pessoas associavam Boston com os irlandeses e os italianos que residiam aqui em grande número.

A eles se somaram, nos séculos XIX e XX, outros grupos do Canadá Francês e da Europa do Leste. E mais recentemente, uma nova imigração oriunda da América Latina, Ásia e África. 

A última ordenação sacerdotal realizada na Catedral foi, de fato, um reflexo disso. Sem dúvida, é um desafio manter a união entre os fiéis de uma diocese onde existem tantas culturas.

Mas Pentecostes é transcender todas as diferenças, para que cada pessoa possa falar a língua do Espírito e ouvir as maravilhas de Deus no seu próprio idioma, e fazer parte da mesma família. 

O Papa Bento XVI convidou as comunidades católicas americanas a moldar os corações e mentes segundo as palavras do Pai-Nosso: “venha a nós o vosso reino”. Vossa Eminência poderia explicar-nos a importância deste chamado?

Quando Jesus nos ensinou a rezar, deu-nos o Pai-Nosso. Nesta oração, as frases “venha a nós o vosso Reino” e  “seja feita a vossa vontade” têm um valor fundamental.

Entretanto, temo que muitas vezes, ao rezarmos, acabemos por formulá-las de outra maneira: “venha a nós o meu reino” e “seja feita a minha vontade”… 

É preciso que compreendamos a bondade do Senhor e quanto Ele nos ama para nos enchermos de confiança e dizer: “Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade”. Esses pedidos devem estar no coração de nossas preces.

Considero a Oração do Abandono, do Beato Charles de Foucauld, como uma maravilhosa extensão do “Venha a nós o Vosso Reino”, porque ela nos coloca nas mãos de Deus, por ser Ele o nosso Pai, e nos faz confiar n’Ele.

O que Ele quer para nós – sua vontade – é sempre o melhor que pode nos acontecer. 

Uma palavra final para os nossos leitores, animando-os a crescerem no amor à Igreja, na esperança e na caridade para com seus irmãos e irmãs. 

Com certeza! Eu gostaria de dizer uma palavra de estímulo a vocês, no exercício do seu ministério, particularmente na evangelização que procura tornar visível às pessoas do mundo a presença amorosa de Deus, e convida os católicos a levar uma vida de discípulos.

Somos uma Igreja missionária, não podemos perder isso de vista. 

Uma das maneiras de anunciarmos a Boa Nova é pelo amor fraterno que nos une na Igreja, e que é um sinal: “Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”(Jo 13, 35).

A Eucaristia nutre esse amor e nos permite proclamar alegre e corajosamente a Boa Nova do Evangelho, e convidar os outros a participarem dessa alegria.

 


O Cardeal Seán Patrick O’Malley, OFMCap, ingressou no seminário menor aos 12 anos, fez profissão solene aos 21 e recebeu a ordenação sacerdotal aos 26, em 1970. Antes de governar a Arquidiocese de Boston (EUA), foi Bispo missionário de São Tomás, nas Ilhas Virgens Americanas (1984-1992); Bispo de Fall River, Massachusetts (1992-2002); Bispo de Palm Beach, Flórida, onde permaneceu de outubro de 2002 a julho de 2003. Bento XVI impôs-lhe a púrpura cardinalícia no Consistório de 2006.