Aqui nos encontramos nesta manhã, reunidos em torno do altar, nesta igreja cujas paredes estão impregnadas de oração e de História, para agradecer a Deus pelo aniversário de aprovação pontifícia dos Arautos do Evangelho.
Um aniversário que tem uma feliz coincidência com a comemoração litúrgica da Cátedra de São Pedro.
A Cátedra de São Pedro, como sabemos, simboliza o mais elevado serviço deixado pelo Senhor neste mundo: o serviço da verdade e da unidade. É, por isso mesmo, o maior serviço de caridade que se possa prestar.
Uma missão que se entrecruza com a de Pedro
Consideraremos aqui de modo especial a missão dos Arautos do Evangelho, que, de algum modo, se entrecruza harmonicamente com a de Pedro.
Compete obviamente a todo cristão ser sal da terra, ser, de alguma maneira, um arauto do Evangelho, mas neste caso temos um carisma particular, aprovado pela Igreja com vistas à evangelização.
E, como principal argumento para essa obra de evangelização para a qual fostes chamados, gostaria de relembrar uma frase paulina: “Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores” (I Tim 1, 15).
Deve-se, sem dúvida, exortar à solidariedade, preocupar-se com a justiça neste mundo; claro que é preciso promover todos os valores humanos. Todas estas são certamente coisas positivas.
Contudo, a principal finalidade da missão do Filho de Deus na terra – e, portanto, também da vossa – é procurar a salvação de todos os filhos de Eva.
A mais preciosa caridade que podeis fazer ao mundo
Vós sois arautos dessa salvação, que é libertação do pecado, do não senso, da insignificância, da tirania da morte.
Sois seus infatigáveis anunciadores, confiando na graça que, também por vosso intermédio, trabalha nas almas. Deveis, evidentemente, ser cooperadores dessa graça. Sois, portanto, arautos da Boa Nova.
Arautos da Boa Nova. Que belíssimo nome!
E qual é essa Boa Nova?
A Boa Nova é que a vida das pessoas – inevitavelmente cheia também de dificuldades e sofrimentos – não é uma aventura sem sentido, porque um dia todas as contas serão acertadas.
Que a História não é uma sucessão de acontecimentos iníquos e sem finalidade; que nada se perde daquilo que se faz e se sofre, porque tudo concorre para conduzir-nos a uma meta: uma meta de verdade, uma meta de paz, uma meta de amor.
A Boa Nova é que a morte foi vencida, que a tristeza e o pavor de afundar-se no nada se dissolveram no momento em que o Filho de Deus, morto e ressuscitado por nós, pôs à nossa disposição um destino de ressurreição e de vida eterna.
Sede arautos da Boa Nova! Isto é, anunciai que não existe pecado que não tenha sido expiado pelo sacrifício de Cristo, porque nos deixamos conquistar pela força purificadora daquele Preciosíssimo Sangue que, após cada indignidade e fracasso nossos, nos dá a todos a possibilidade de recomeçar.
Que não há poder maligno capaz de nos hostilizar por tempo indeterminado, uma vez que desejamos reentrar na comunhão com Aquele que venceu o mundo.
Anunciai tudo isso. Sede de fato arautos deste anúncio de alegria. Será a mais elevada e mais preciosa caridade que podeis fazer ao mundo e à sociedade
Evitar o perigo de um adocicado solidarismo
Nessa missão evangelizadora há, porém, dois perigos a serem evitados.
Primeiro: a tentação de reduzir o fato salvífico – o qual exige o salto corajoso do ato de Fé – a uma série de valores facilmente encontráveis nos mercados deste mundo.
Assim, o Evangelho deixa de ser principalmente o Evangelho da morte redentora, da Ressurreição, da realeza de Cristo, e torna-se o Evangelho de um adocicado solidarismo, de um diálogo cujo objetivo não é a missão e, portanto, para nada serve, a não ser para perder tempo.
E de nosso tempo devemos prestar contas a Deus…
O diálogo é um esplêndido método para realizar a missão, é o método moderno de evangelização.
Não é também um meio para atingir objetivos como a ecologia ou a promoção puramente humana? Ora, sem dúvida, esses também são valores, mas não valores supremos.
Quem se fixa nesses valores, não consegue remontar ao evento pascal no qual todos eles se fundamentam. E então, mais do que um evangelizador, ele se torna um mundanizado.
Mais do que oferecer a Redenção proveniente do alto, cria a ilusão de que a humanidade pode redimirse sozinha, coisa absolutamente impossível.
Sem Cristo, não há Redenção. Sem o sacrifício da Cruz, não há possibilidade de Salvação. Sem a Eucaristia, não existe nenhuma expectativa. Se assim agísseis, vós seríeis representantes dos mitos secularistas e não arautos do Evangelho.
A verdade deve brilhar mais nos atos do que nas palavras
Uma segunda tentação é a de ocultar que o anúncio da Salvação é contextualmente também anúncio da conversão: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).
Converter-se e crer no Evangelho é o proêmio de tudo quanto se deve fazer. Evangelização, e não interpretação subjetiva da Palavra, segundo os conformismos em moda ou com timidez face à cultura dominante.
Um anúncio corajoso, franco, leal e sem compromissos. Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim sobre o candelabro, para iluminar todos que estão na casa.
É preciso, portanto, tomar cuidado para que a luz do Evangelho não seja abafada sob o alqueire de alguma conduta incoerente ou contraditória nossa.
A verdade deve brilhar nos atos mais ainda do que nas palavras. Sejamos servos, e não senhores, da mensagem que anunciamos. A ela devemos nos conformar inteiramente.
Isso exige fadiga, trabalho, ascese, elevação, mas é também uma esplêndida aventura.
É a grande aventura do Evangelho, não sob a égide dos conformismos em voga, ou da intimidação perante a cultura difundida pelos meios de comunicação, mas sim, da cultura transmitida através das doces moções do Espírito Santo, discernidas na grande oração, sobretudo na oração eucarística, na adoração ao Santíssimo Sacramento do Altar, sob o maternal olhar de Maria Santíssima.
Com frequência, a verdade é incômoda, e por isso às vezes entendida como nos tempos de Isaías, em que se ouvia dizer, ao menos implicitamente: não faça profecias sinceras, diga coisas agradáveis, profetize ilusões…
Parece que de vez em quando o mundo nos pede isso, mas não podemos ceder, de forma alguma, a essa tentação.
As vossas três devoções
Vós tendes três devoções que são os pontos de resistência à ação corrosiva deste mundo. São eles os que correntemente denominamos os três santos amores: o Santíssimo Sacramento do Altar, a Bem-Aventurada Virgem Maria e o Santo Padre, Pedro.
A Eucaristia é o Corpo que nos foi dado. E diretamente desse Corpo – nascido de Maria e dado a nós – provém todo remédio, como também toda salvação não ilusória, mas verdadeira.
Nossa Senhora: conforme nos ensina São Luís Grignion de Montfort, quando Maria lança suas raízes numa alma, produzem-se nela as maravilhas da graça.
Quando o Espírito Santo, seu Esposo, encontra Maria presente numa alma, entra nela e manifesta-Se de maneira abundante.
O terceiro amor é ao Santo Padre, a rocha: “Tu, confirma os teus irmãos” (Lc 22, 32). E estaremos sempre com Pedro. Sempre, porque esta é a garantia: “Confirma os teus irmãos”.
Não nos confirmam as mensagens da televisão, nem as dos jornais, nem as do rádio. Não nos confirma a mensagem das numerosas sereias deste mundo.
Somente Pedro nos confirma. Foi ele quem respondeu a Jesus: “Vós sabeis, Senhor, que Vos amo” (Jo 21, 15). E nós nos incluímos nessa profissão de Pedro, dizendo com ele: “Vós sabeis, Senhor, que Vos amo”.
Hoje, 22 de fevereiro, festa da Cátedra de São Pedro, data da assinatura do decreto de aprovação da vossa Associação: terá sido uma coincidência, um acontecimento fortuito, um acaso? Não.
São as grandes normas de conduta da Providência, nas quais acreditamos.
E para abandonarmo-nos à Divina Providência, abandonemo-nos ao Coração Doloroso e Imaculado de Maria. Nesse Coração, cresceremos na Eclesialidade e, crescendo na Eclesialidade, seremos mais efetivamente arautos de Cristo.