Os Evangelhos sinóticos descrevem com objetividade a conversão de Mateus. São Lucas e São Marcos, por deferência, referem-se a Levi, ao passo que o próprio Mateus escreve sobre si: “Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos” (9, 9). Por que “um homem”? Porque, verdadeiramente homem, era verdadeiramente pecador, comenta São Tomás de Aquino.1 Ora, esse recurso de escrita foi utilizado pelo Evangelista para manifestar que ninguém deve se desesperar da salvação.2

Ademais, o Evangelho mateano deixa transparecer, pela contiguidade dos episódios, que seu autor levantou-se e seguiu a Cristo porque antes fora preparado pela graça ao presenciar a cura do paralítico (cf. Mt 9, 1-8), cuja narração precede o texto da Liturgia de hoje. A graça é misteriosa por natureza e o Espírito sopra quando quer e onde quer… O Divino Escultor aguarda o momento preciso para moldar as almas.

Na ocasião daquele milagre, Jesus atravessou de barco o mar e “foi para a sua cidade” (Mt 9, 1), isto é, Cafarnaum, onde residia desde que deixara Nazaré (cf. Mt 4, 13). Ora, nesses locais junto às margens havia postos alfandegários e possivelmente Levi ali se encontrava quando apresentaram a Nosso Senhor um paralítico, para que o curasse.

O Evangelista menciona que, em atenção à fé dos circunstantes, o Redentor perdoou os pecados do entrevado e concedeu-lhe a cura: “Levanta-te, pega tua cama e vai para tua casa” (Mt 9, 6).

A multidão “ficou cheia de temor e glorificou a Deus” (Mt 9, 8). Quanta admiração o episódio deve ter suscitado na alma de Mateus, até então estrangulada pela repulsa da sociedade judaica ao seu ofício! De fato, que maravilha observar a munificência de Jesus ao perdoar o paralítico, antes mesmo de este impetrar o perdão!

Isento de inveja da graça fraterna e inebriado pelo anseio de se aproximar de Nosso Senhor para também ser perdoado, aquele publicano sem dúvida surpreendeu-se ao notar que o Mestre caminhava em sua direção. Quando ouviu os divinos lábios pronunciarem o mandato segue-Me, foi ele conduzido por uma graça eficaz para imediatamente deixar tudo, conforme complementa São Lucas (cf. Lc 5, 28).

Ao observar os benefícios divinos em relação aos demais, a alma humana fica mais apta a se abrir para outras dádivas que vêm do Alto. É habitual, na ordem da graça, a existência de prévias conversões imperfeitas que preparam o coração para uma perfeita conversão.3 Foi o caso do publicano Levi, chamado depois de outros Apóstolos e após diversos sinais; era preciso esperar o momento propício em que ele obedecesse sem amarras à voz de Cristo.

A exemplo de São Mateus, devemos estar atentos às manifestações da graça na alma do próximo, certos de que o mesmo fluxo de maravilhas pode pairar sobre nós para suscitar uma nova conversão. Que nós também deixemos tudo e sigamos o Divino Mestre quando Ele nos chamar! 

Notas:


1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. In Matthæum, c.IX, lect.2, n.756.

2 Cf. SÃO JERÔNIMO. Commentariorum in Matheum. L.I, c.9: CCL 77, 55.

3 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.114, a.10.