Mãe e Conselheira dos Papas
Apesar de pouco conhecida em nossos dias, a invocação de Nossa Senhora do Bom Conselho foi apreciada por numerosos Pontífices e teve papel decisivo nos rumos de diversos acontecimentos históricos.
Gabriela Cifuentes Forero
Dez de maio de 2025. Em frente ao Santuário de Nossa Senhora do Bom Conselho em Genazzano, Itália, uma profusão de fiéis se comprimia para assistir, comovida, a chegada do recém-eleito Pontífice Leão XIV, que almejava visitar o miraculoso afresco de Maria. “Desejei muito vir aqui nestes primeiros dias do novo ministério que a Igreja me confiou, para levar adiante a missão como Sucessor de Pedro”,1 afirmou ele aos presentes, após o período passado em oração e recolhimento ante a sagrada imagem.
Com essa consagração de seu pontificado, o Santo Padre mostrou desde logo ao mundo sua especial devoção a Maria sob o título de Mãe do Bom Conselho. Esta invocação tornou-se muito cara à Ordem de Santo Agostinho a partir do século XV, quando
“Nossa Senhora, que estava em Scutari, na Albânia, veio daquele longínquo país até Genazzano […]; e pela sua vontade, livremente, entregou-Se e confiou-Se na sua santa imagem às mãos dos agostinianos”.2
Contudo, podemos conjecturar que, além desse augusto motivo, outra razão tenha atraído o Santo Padre aos pés da Virgem de Genazzano.
Própria a aconselhar e guiar as almas no cumprimento da vontade de Deus, Mater Boni Consilii não poderia deixar de ser a padroeira perfeita dos guias da Barca de Pedro em meio às tempestades do mundo. Quem mais necessitado da proteção, auxílio e direção do que a Cabeça visível da Igreja? Quem mais interessado em obter de Deus a luz da sabedoria?
Uma das provas dessa realidade é que tal devoção, embora pouco conhecida em nossos dias, foi muito apreciada por numerosos Pontífices ao longo da História e teve, diversas vezes, um papel decisivo nos rumos da Cristandade.
Primeiras honras à invocação
Tendo o Papa Paulo II (1464-1471) examinado os fatos referentes à chegada milagrosa do afresco a Genazzano em 1467, e concedido o aval oficial da Santa Sé para essa devoção, Mater Boni Consilii passou a atuar no coração da Igreja. Sabe-se, por exemplo, que Sisto IV (1471-1484) era muito devoto d’Ela.
Ao final do século XV, Alexandre VI (1492-1503) concedeu especiais indulgências às almas do Purgatório a cada Eucaristia celebrada na Capela da Mãe do Bom Conselho. Mais tarde Gregório XIII (1572-1585) determinou, ademais, que o altar do santuário se tornasse altar privilegiado3 para Missas em todos os dias do ano e para todo o clero.
Novos privilégios pontifícios
Os pontificados de São Pio V (1566-1572) e Inocêncio XI (1676-1689), durante os quais a ameaça otomana toldou os horizontes da Cristandade e da Igreja, estariam marcados pela proteção da Rainha do Bom Conselho, como visto em artigo precedente.4
A vitória cristã na Batalha de Lepanto e no Cerco de Viena reluziria para sempre no firmamento da História como símbolo da proteção de Maria Santíssima a seus filhos. Solenemente coroada por ordem do Santo Padre em 17 de novembro de 1682 – gesto com o qual se suplicava sua intercessão para a união e mobilização dos soberanos católicos contra os infiéis –, a Virgem de Genazzano não desampararia aqueles que se colocavam sob seu maternal império.
Após tão portentosas manifestações por parte do sagrado afresco, era de se esperar que a Santa Igreja terminasse por honrar ainda mais sua invocação.
Primeiramente, aprouve ao Papa Pio VI (1775-1799) oferecer à Mãe do Bom Conselho um dos mais eminentes privilégios que se pode conceder a uma devoção: em 1777 o Pontífice outorgou aos agostinianos de Genazzano um ofício próprio para a celebração da data de chegada do afresco ao santuário, a ser ali recitado no dia 25 de abril, e por toda a Ordem no dia 26 de abril.5 Estava instituída, assim, a primeira comemoração de Nossa Senhora do Bom Conselho, fonte de ainda mais numerosas graças, conselhos valiosos e auxílios infalíveis para todos os devotos marianos.
Também Bento XIV (1740-1758), outro fiel devoto da Madonna del Buon Consiglio, concedeu a chancela papal a uma notável associação chamada Pia União de Nossa Senhora do Bom Conselho. Tratava-se de uma liga espiritual de devotos inscritos no livro do santuário, cujo objetivo era honrar todos os dias a invocação com algum ato obsequioso, promover no mundo a devoção a Ela e observar com diligência as inspirações concedidas pelo afresco para evitar o pecado e agradar a Deus. Ao aprovar a associação, quis o próprio Pontífice inscrever-se nela como o primeiro membro.6
Além de Bento XIV, vários outros Papas se alistaram na pia união, entre eles o Beato Pio IX (1846-1878) e Leão XIII (1878-1903).
Este último, desejando honrar ainda mais sua Protetora celeste, em 17 de março de 1903 elevou o Santuário de Genazzano à categoria de Basílica Menor; e, para incentivar as almas ao amor pela Mãe do Bom Conselho, no dia 22 de abril do mesmo ano, por um decreto da então Sagrada Congregação dos Ritos, incluiu a invocação Mater Boni Consilii na Ladainha Lauretana.7
Um presente da Virgem à Santa Igreja
Ainda em 1903, Nossa Senhora, certamente com mais poder de ação sobre os Papas devido aos novos privilégios com que fora honrada, fez sentir mais uma vez a eficácia de seus conselhos, discretos, mas infalíveis, na direção da Nau de Pedro, desta vez durante o decisivo período do conclave que sucedeu à morte de Leão XIII.
Após a primeira sessão na Capela Sistina, celebrada em 3 de agosto do referido ano, o Cardeal Oreglia di Santo Stefano, decano do Sagrado Colégio, dirigiu-se ao secretário do conclave, Dom Rafael Merry del Val, dizendo-lhe seriamente que o número de votos para a eleição do Patriarca de Veneza, o Cardeal Giuseppe Sarto, só aumentava, mas que este se recusava a aceitar o gravíssimo encargo. Em seguida, rogou-lhe que perguntasse ao Cardeal por última vez se persistia na negativa, para assim eventualmente direcionar os votos a outro candidato.
Dom Merry del Val dirigiu-se então à Capela Paulina, onde encontrou o Cardeal Sarto ajoelhado diante do quadro da Mãe do Bom Conselho. Ao aproximar-se dele e transmitir-lhe a mensagem do decano, notou que lágrimas começaram a correr-lhe pela face… insistindo na recusa ao cargo. Dom Merry del Val, porém, por inspiração divina admoestou-o: “Eminenza, si faccia coraggio, il Signore l’aiuterà – Eminência, tende coragem, o Senhor o ajudará”. O Cardeal fixou-o profundamente, agradeceu-lhe e continuou rezando diante da Mãe do Bom Conselho.
Poucas horas depois, ele aceitou finalmente a vontade da Providência e assumiu a Cátedra de Pedro. A Santa Igreja ganhou, assim, um zelosíssimo pastor, um de seus mais valentes batalhadores no conturbado século XX: São Pio X.8
Quiçá em memória e gratidão pelas graças recebidas durante aquelas horas de angústia passadas na Capela Paulina, São Pio X (1903-1914) manteve em sua escrivaninha, durante todo o tempo de seu sofrido e benéfico pontificado, uma imagem da Mãe do Bom Conselho.
A devoção papal chega a nossos dias
Mais recentemente, o Papa João Paulo II (1978-2005) aconselhou a devoção à Virgem de Genazzano quando, em uma de suas primeiras audiências gerais, a 25 de outubro de 1978, explicava a necessidade da virtude da prudência:
“Que há de fazer então o novo Papa a fim de proceder prudentemente? […] Deve orar e fazer o possível por ter aquele dom do Espírito Santo que se chama dom de conselho. E todos quantos desejam que o novo Papa seja Pastor prudente da Igreja, peçam para Ele o dom de conselho. E para si mesmos, peçam também este dom, por meio da especial intercessão da Mãe do Bom Conselho”.9
Já em abril de 1993, o Pontífice visitou o famoso Santuário de Genazzano, a fim de impetrar graças especiais para a viagem apostólica que faria à Albânia no dia 25 do mesmo mês.10
Seu sucessor, Bento XVI (2005-2013), inaugurou um mosaico da Virgem do Bom Conselho nos jardins do Vaticano, em 11 de julho de 2009. Honraram o ato com sua presença diversas autoridades, entre elas o Secretário do Papa, Mons. Georg Gänswein, e o Prior da Ordem de Santo Agostinho, Pe. Robert Francis Prevost – o futuro Papa Leão XIV.11 Bento XVI abençoou o mosaico com a intenção de que muitos ali rezassem e rendessem louvor à milagrosa invocação.
Maria guiará, pelos Papas, os rumos da História
Auxiliadora e conselheira dos Papas, Nossa Senhora de Genazzano soube sempre cumprir com perfeição, ao longo da História, seu papel de Mãe da Igreja, guiando-a incólume em meio às mais variadas dificuldades e ataques infernais.
Nestes tempos, marcados por crises de toda ordem, é certíssimo que Ela está mais do que nunca atenta às necessidades do Corpo Místico de Cristo e vela com desmedido empenho pelo Sucessor de Pedro.
Cabe a Leão XIV, sob a proteção inefável da Mãe do Bom Conselho, a quem dedica especial devoção, guiar a nau da Igreja para o porto da salvação, sem temor diante das tormentas, à imitação de seus ilustres predecessores.
Notas:
1 VATICAN NEWS. Papa Leão XIV visita o Santuário de Nossa Senhora do Bom Conselho. In: www.vaticannews.va.
2 DE ORGIO, Angelo Maria apud CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Mãe do Bom Conselho. 3.ed. São Paulo: Lumen Sapientiæ, 2016, p.293.
3 Pela Missa celebrada num altar privilegiado é concedida indulgência plenária em favor do defunto pelo qual se oferece o Santo Sacrifício, caso ele tenha falecido em estado de graça.
4 A Conselheira admirável, nesta edição.
5 Cf. DILLON, George F. The Virgin Mother of Good Counsel. Rome: Sacred Congregation of the Propaganda Fidei, 1884, p.421.
6 Cf. CLÁ DIAS, op. cit., p.275.
7 Cf. LEÃO XIII. Ex quo Beatissima Virgo Maria: ASS 35 (1902-1903), 627.
8 Cf. MERRY DEL VAL, Rafael. El Papa San Pio X: Memorias. 2.ed. Madrid: Atenas, 1954, p.3-7.
9 SÃO JOÃO PAULO II. Audiência geral, 25/10/1978.
10 Cf. L’OSSERVATORE ROMANO. Papi e santi pellegrini al santuario agostiniano. In: www.osservatoreromano.va.
11 Cf. VALIANTE, Francesco M. Nei Giardini Vaticani un mosaico della Madonna del Buon Consiglio. In: www.madredelbuonconsiglio.it.