Ao doar a vida e a liberdade, o Espírito Santo oferece também a unidade. Trata-se de três dons inseparáveis entre si. Já falei demasiado; no entanto, permiti-me dizer ainda uma breve palavra sobre a unidade.

Para a compreender, pode ser-nos útil uma frase que, num primeiro momento, parece contrariamente afastar-nos dela. A Nicodemos que, na sua busca da verdade, vai de noite ter com Jesus com as suas interrogações, Ele responde: “O Espírito sopra onde quer” (Jo 3, 8).

O sopro do Espírito Santo não dispersa, mas reúne

Mas a vontade do Espírito não é arbítrio. É a vontade da verdade e do bem. Por isso, Ele não sopra em toda a parte, virando uma vez aqui e a outra ali; o seu sopro não nos dispersa, mas reúne-nos, porque a verdade une como o amor une.

O Espírito Santo é o Espírito de Jesus Cristo, o Espírito que une o Pai ao Filho no Amor que, no único Deus, doa e recebe. Ele une-nos de tal modo, que certa vez São Paulo pôde dizer: “Todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gal 3, 28).

Com o seu sopro, o Espírito Santo impele-nos rumo a Cristo. O Espírito Santo age corporalmente, e não apenas sob os pontos de vista subjetivo, “espiritual”.

Aos discípulos que O consideravam somente um “espírito”, Cristo ressuscitado disse: “Sou Eu mesmo! Tocai-me e olhai; um simples espírito, um fantasma não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho” (cf. Lc 24, 39).

Isto é válido para Cristo ressuscitado, em todas as épocas da História. Cristo ressuscitado não é um fantasma, não é somente um pensamento, uma ideia. Ele permaneceu o Encarnado.

Ressuscitou Aquele que assumiu a nossa carne e continua sempre a edificar o seu Corpo, fazendo de nós o seu Corpo. O Espírito sopra onde quer, e a sua vontade é a unidade que se faz corpo, a unidade que encontra o mundo e o transforma.

As junturas da Igreja

Na Carta aos Efésios, São Paulo diz-nos que este Corpo de Cristo, que é a Igreja, contém junturas (cf. 4, 16), e chega a enumerá-las: são os Apóstolos, os Profetas, os Evangelistas, os Pastores e os Mestres (cf. 4, 11). Nos seus dons o Espírito é multiforme, como podemos ver aqui.

Se consideramos a História, se olhamos esta assembleia aqui na Praça de São Pedro, então compreendemos como Ele suscita sempre novas dádivas; observamos como são diferentes os órgãos que Ele cria; e como, sempre de novo, age corporalmente.

No entanto, n’Ele a multiplicidade e a unidade caminham juntas. Ele sopra onde quer.

E fá-lo de maneira inesperada, em lugares imprevistos e de maneiras precedentemente inimagináveis. E com que multiformidade e corporeidade o faz! É também precisamente aqui que a multiplicidade e a unidade são inseparáveis entre si.

Ele quer a vossa multiformidade, e deseja que sejais o seu único corpo, na união com as ordens duradouras – as junturas – da Igreja, com os sucessores dos Apóstolos e com o Sucessor de São Pedro.

Presença do Espírito Santo no impulso missionário

O Espírito Santo deseja a unidade, quer a totalidade. Por este motivo, a sua presença demonstra-se finalmente também no impulso missionário.

Quem encontrou algo de verdadeiro, de belo e de bom na sua própria vida – o único tesouro autêntico, a pérola inestimável! – corre para o compartilhar em toda a parte, na família e no trabalho, em todos os âmbitos da sua existência.

E fá-lo sem qualquer temor, porque sabe que recebeu a adoção de filho; sem qualquer presunção, porque tudo é dádiva; e sem desânimo, porque o Espírito de Deus precede a sua ação no “coração” dos homens e como semente nas mais diversificadas culturas e religiões.

Fá-lo sem fronteiras, porque é portador de uma boa notícia destinada a todos os homens e a todos os povos.

 

PAPA BENTO XVI. Excertos da homilia, na Vigília de Pentecstes.