Existem diversos graus e tipos de medo causados por estímulos físicos, psicológicos, sociais e até mesmo religiosos.

Alguns deles estão narrados tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, para nos acautelar contra a falta de fé e a desconfiança em relação a Deus.

Por exemplo, logo após o primeiro pecado Adão respondeu ao Senhor, que lhe procurava: “Fiquei com medo, porque estava nu, por isso me escondi” (Gn 3, 10).

São Pedro, ao andar milagrosamente sobre as águas, “quando reparou o vento, ficou com medo” (Mt 14, 30).

Sob outro aspecto, as Escrituras Sagradas também tratam do medo enquanto fator para alcançar a virtude: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 9, 10).

Este temor reverencial ensina a confiar no poder de Deus, a desapegar-se das coisas terrenas e a enfrentar com coragem os perigos, pois está alicerçado na fé, na humildade e no amor a Deus.

Se os efeitos do medo natural são a perturbação, a agitação e o pavor, os do temor reverencial são a calma, a serenidade e a confiança.

Os que sofrem os primeiros creem pouco em Deus; os que experimentam os últimos se aproximam d’Ele e buscam a santidade.

Assim se entende melhor o Salmo responsorial desta Liturgia: “O Senhor pousa o olhar sobre os que o temem, e que confiam esperando em seu amor, para da morte libertar as suas vidas e alimentá-los quando é tempo de penúria” (32, 18-19).

O Evangelho, por sua vez, enfatiza aspectos novos do temor reverencial quando Jesus Cristo afirma: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino” (Lc 12, 32).

Essa exortação, cheia de dileção, de confiança e de certeza da vitória, encerra uma promessa de prêmio e de glória a quem for fiel, retomada em outro versículo: “O senhor lhe confiará a administração de todos os seus bens” (Lc 12, 44).

Os frágeis e tímidos discípulos são beneficiados pelo olhar comprazido do Pai, que lhes promete o Reino Eterno. Ora, quem O agradou mais do que a Santíssima Virgem?

As palavras de Jesus ­lembram a saudação angélica a Ela dirigida: “Não tenhas medo Maria, porque achastes graça diante de Deus” (Lc 1, 30).

O cântico do Magnificat também expressa esse maravilhamento do Onipotente e a promessa de glória feita a Nossa Senhora: “Pois Ele viu a pequenez de sua Serva, desde agora as gerações hão de chamar-Me de bendita” (Lc 1, 48).

A propósito deste Evangelho, Mons. João comenta:

Foi Maria quem, de dentro de nossa natureza, elevou sua alma virginal a engrandecer o Senhor e a fazer d’Ele seu tesouro. […]

Ela nos ensina a, desta terra, fazer uma escola preparatória para o Céu, pois os tesouros aqui perecem, são vis, frequentemente nos degradam, afligem e nos empobrecem. […]

O oposto se dá com os tesouros do Céu: eles nos enobrecem, consolam e nos asseguram uma eternidade feliz.1

Que nossos corações estejam ávidos por ingressar nessa escola preparatória para o Céu inaugurada por Nossa Senhora, cujo fundamento é a humildade, a submissão e a escravidão de amor a Deus. 

 


1 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Basta rezar? In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano-São Paulo. LEV; Lumen Sapientiæ, 2012, v. VI, p. 276-277.