Numa bela e ensolarada manhã do ano 750, os sinos tocaram alegres, chamando os habitantes da pequena cidade de Lanciano para a Missa na igreja dedicada a São Longino, o oficial romano que transpassou o coração de Jesus com a lança.

O celebrante, porém, um monge da ordem de São Basílio, não participava da alegria geral. Havia já algum tempo, sentia-se assaltado por uma forte dúvida: estaria Nosso Senhor Jesus Cristo real e substancialmente presente na Eucaristia?

Apesar de ele orar com persistência, suplicando a Deus que reavivasse sua Fé, esse terrível pensamento o atormentava sem cessar.

Assim, a celebração do Santo Sacrifício da Missa constituía para ele motivo de sofrimento, pois era o momento em que a tentação se tornava mais intensa.

Eis a Carne e o Sangue de nosso amantíssimo Salvador!

Naquele dia o pobre monge, enquanto vestia os paramentos sagrados, sentia mais do que nunca seu coração mergulhado na escuridão da dúvida. Entretanto, como o dever o chamava, ele subiu os degraus do altar e começou a celebração.

Na hora da Consagração, pronunciou claramente, como sempre, as solenes palavras: “Isto é o meu Corpo que será entregue por vós… Este é o cálice do meu Sangue”…

Em seguida, deteve-se, assaltado pela violenta incerteza: será mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo presente sob a aparência desse minúsculo pedaço de pão e dessas poucas gotas de vinho?

Nesse instante, viu com admiração a branca hóstia transformar-se em um pedaço de carne e o vinho em sangue real que se coagulou e dividiu-se em cinco fragmentos de forma irregular e de tamanhos diferentes.

Muito assustado de início, depois cheio de alegria, o feliz monge permaneceu durante certo tempo como que em êxtase e depois, derramando lágrimas de gratidão, voltou-se para os fiéis e exclamou: 

Bendito seja Deus que, para destruir minha incredulidade, quis manifestar-Se neste Santíssimo Sacramento e tornar-Se visível a nossos olhos! Vinde, irmãos, e contemplai! Eis a Carne e o Sangue de nosso amantíssimo Salvador!

Os incrédulos recuperam a Fé; os tíbios, o fervor

Ao constatar o milagre, todos se ajoelharam cheios de respeito e adoração, clamando por perdão e misericórdia, julgando-se indignos de presenciar tão emocionante manifestação sobrenatural.

Desde o início, as autoridades religiosas reconheceram a autenticidade do milagre. A notícia espalhou-se por toda a cidade e pelos povoados vizinhos.

De todas as partes acorreram peregrinos desejosos de contemplar com seus próprios olhos e de adorar a Carne e o Sangue de Cristo.

Em pouco tempo, Lanciano tornou-se o lugar onde muitos incrédulos renasciam para a Fé e cristãos entibiados se afervoravam na devoção à Sagrada Eucaristia.

Situações de perigo e incerteza

Os monges que celebravam na igreja de São Longino deixaram Lanciano no século XII, passando o convento para os beneditinos.

Estes, em 1253, foram sucedidos pelos frades franciscanos conventuais que, em 1258, reconstruíram a igreja e a dedicaram a São Francisco de Assis. 

Até hoje as sagradas relíquias se conservam nessa igreja. A Carne está exposta em um artístico ostensório de prata finamente cinzelada. E o Sangue, coagulado e dividido em cinco fragmentos, está posto em uma espécie de cálice de cristal de rocha.

Diversos documentos atestam a veneração a elas prestada, e o costume que havia de levá-las em procissão nos momentos de graves e urgentes necessidades.

Ao longo dos séculos, porém, passaram elas por situações de perigos e incertezas. Uma delas ocorreu em agosto de 1566, por ocasião das incursões turcas naquela região da Itália.

Vendo o iminente risco em que se encontrava esse precioso tesouro, um frade franciscano chamado Giovanni Antonio di Mastro Renzo tomou o relicário e partiu para lugar mais seguro.

Mas depois de ter caminhado durante toda a noite, verificou, com grande surpresa, que se encontrava ainda às portas de Lanciano! Compreendeu então que ele e seus irmãos de hábito deveriam permanecer na cidade para custodiar as relíquias.

A Ciência não consegue explicar o prodigioso fato

Rigorosos testes científicos realizados por dois peritos italianos em 1970 demonstram de maneira inequívoca que se trata de carne e sangue tirados de um ser humano vivo, não de um cadáver.

O pedaço de carne é de um coração, e o sangue pertence ao grupo AB, o mesmo do homem do Santo Sudário de Turim.

Em 1973, uma comissão científica nomeada pela Organização Mundial da Saúde, da ONU, confirmou as conclusões dos especialistas italianos.

E em 1976, foi publicado um resumo dos trabalhos dessa Comissão, em cuja conclusão se declara que a Ciência, conhecedora de seus limites, se detém diante da impossibilidade de dar uma explicação para o prodigioso fato.

Trata-se sem dúvida de relíquias do próprio Coração de Jesus que Longino atravessou com sua lança!

A nós é concedida graça ainda maior

Tocante manifestação de amor divino!

A história deste portentoso milagre deve encher-nos de confiança em relação ao misericordioso Coração de um Deus feito Homem que Se deixa esconder sob as espécies do pão e do vinho e dá-Se a nós como alimento a cada dia.

Quer prisioneiro no tabernáculo, quer exposto num rico ostensório, tanto em humildes capelas rurais quanto em grandiosas catedrais, Ele está ali à nossa espera, desejoso de ouvir, de consolar, de perdoar…

Jesus pode, num instante, transformar nossas pobres e frágeis almas como o fez com a alma daquele atormentado monge, cujas súplicas cheias de aflição foram atendidas com superabundância de graças.

A nós, porém, Nosso Senhor quer conceder uma graça ainda maior. Nós não vemos nem tocamos a Carne e o Sangue, contemplamos apenas o pão e o vinho.

Mas, se crermos com Fé robusta e ardente nesse inefável Mistério, Ele próprio nos promete uma imensa recompensa: “Bem-aventurados os que acreditaram sem terem visto” (Jo 20, 29).