“Convinha, porém, fazermos festa, pois este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado” (Lc 15, 32).
[…] Caros Irmãos, quando refletirdes sobre os três personagens desta parábola [do “filho pródigo”] – o pai em sua abundante misericórdia, o filho mais jovem em sua alegria pelo perdão recebido, e o mais velho em seu trágico isolamento – solidificai vosso desejo de focalizar a perda do senso de pecado, ao qual vos referistes em vossos relatos.
Essa prioridade pastoral reflete a ávida esperança de que os fiéis experimentem o amor infinito de Deus como um chamado para aprofundar sua unidade eclesial e superar a divisão e fragmentação que com tanta frequência causam feridas nas famílias e comunidades de hoje.
Dessa perspectiva, a responsabilidade do Bispo de indicar a presença destrutiva do pecado é facilmente entendida como um serviço de esperança: dá força aos fiéis para evitar o mal e abraçar a perfeição do amor e a plenitude da vida cristã.
Desejo, portanto, recomendar a promoção do Sacramento da Penitência. Embora esse Sacramento seja tão frequentemente olhado com indiferença, ele realiza precisamente aquela plenitude de cura à qual aspiramos.
Uma renovada compreensão desse Sacramento confirmará que o tempo passado no confessionário tira o bem do mal, a vida da morte, e revela de novo a face misericordiosa do Pai.
Não se compreende o dom da reconciliação sem refletir cuidadosamente sobre os modos de despertar no homem a conversão e a penitência.
Enquanto abundam as manifestações de pecado – cobiça e vício, relações traídas e exploração das pessoas – diminuiu o reconhecimento da pecabilidade individual.
Por trás desse enfraquecimento do conceito de pecado, com a proporcional diminuição da necessidade de procurar o perdão, encontra-se, no fundo, um enfraquecimento de nosso relacionamento com Deus.
Não surpreende que esse fenômeno seja particularmente acentuado nas sociedades marcadas por uma ideologia secularista pós-iluminista.
Onde Deus é excluído da vida pública, desaparece o senso da ofensa contra Deus – o verdadeiro senso do pecado –, exatamente como, quando o valor absoluto das normas morais é relativizado, se evanescem as categorias de bem ou mal, junto com a responsabilidade individual.
Contudo, a necessidade humana de reconhecer e enfrentar o pecado nunca desaparece de fato, não importa quanto um indivíduo, como o irmão mais velho [da parábola], racionalize em sentido contrário.
Como nos diz São João: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (I Jo 1, 8). Faz parte integral da verdade a respeito da pessoa humana.
Quando a necessidade de procurar o perdão e a disposição de perdoar são esquecidas, emerge em seu lugar uma perturbadora cultura de acusação e de conflito.
Esse alarmante fenômeno, porém, pode ser dissipado. Seguir a luz da verdade regeneradora de Cristo é dizer com o pai: “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu” e devemos nos alegrar “pois este teu irmão […] tinha se perdido, e foi achado” (Lc 15, 31-32).