Em primeiro lugar – iniciou o Santo Padre – desejo expressar meu profundo apreço pela contribuição preeminente que os leigos ofereceram, e continuam a oferecer, para o crescimento e a expansão da Igreja em vosso país.

Dado que “a renovação da Igreja na América não será possível sem a presença ativa dos leigos”,[1] estou persuadido de que uma parte essencial de vosso governo pastoral deve consistir em orientá-los e ajudá-los nos seus esforços por ser fermento do Evangelho no mundo.

Uma clara prioridade pastoral

Como afirmou claramente o Concílio Vaticano II, o exercício do munus regendi episcopal exige, por sua própria natureza, o reconhecimento da contribuição e dos carismas dos fiéis leigos e do papel que lhes é próprio na edificação da unidade da Igreja e no cumprimento de sua missão no mundo.

Cada Bispo é chamado a reconhecer o papel essencial e insubstituível dos leigos na missão da Igreja e a torná-los capazes de cumprir seu próprio apostolado, “guiados pela luz do Evangelho e pelo pensamento da Igreja, e impelidos pela caridade cristã”.[2]

Em vosso ministério de governo, devíeis considerar como uma clara prioridade pastoral ajudar os fiéis leigos a compreender e aceitar o munus regale que receberam através da sua incorporação batismal em Cristo. […]

Contudo, os fiéis leigos exercem este ofício real de um modo específico, pelos seus esforços para difundir o Reino de Deus mediante as suas atividades seculares, de tal forma que “o mundo se impregne do espírito de Cristo e atinja mais eficazmente seu fim na justiça, na caridade e na paz”.[3]

Elemento essencial do ministério episcopal

De onde se segue que é preciso estimular os leigos, homens e mulheres, mediante uma catequese oportuna e uma formação permanente, a reconhecer a dignidade e a missão específicas que receberam no Batismo, e a assumir nas suas atividades quotidianas um enfoque integral da vida, o qual se inspire no Evangelho e nele encontre sua força.

Isto significa que é necessário ensinar os leigos a distinguir claramente entre seus direitos e deveres como membros da Igreja, e os direitos e deveres que têm como membros da sociedade humana.

Deve-se estimulá-los a unir ambos de maneira harmoniosa, reconhecendo que “em toda questão temporal devem orientar-se sempre pela consciência cristã, pois nenhuma atividade humana, nem sequer na ordem temporal, pode subtrair-se ao império de Deus”.[4] 

Uma clara e autorizada reafirmação desses princípios fundamentais do apostolado dos leigos ajudará a superar os graves problemas pastorais causados pela crescente falta de compreensão de que a Igreja tem obrigação de recordar aos fiéis seu dever de consciência de agir em conformidade com o ensinamento autorizado dela.

Há uma urgente necessidade de uma catequese exaustiva a respeito do apostolado dos leigos, que saliente a importância de uma consciência bem formada, a relação intrínseca existente entre a liberdade e a verdade moral, e o grave dever que tem todo cristão de trabalhar para renovar e aperfeiçoar a ordem temporal, em conformidade com os valores do Reino de Deus.

Respeitando plenamente a legítima separação entre a Igreja e o Estado na vida norte-americana, essa catequese deve esclarecer também que para os cristãos não pode existir qualquer separação entre a fé e o compromisso de participar de forma plena e responsável na vida profissional, política e cultural. 

Considerando a importância de tais questões para a vida e a missão da Igreja em vosso país, gostaria de encorajar-vos a considerar como elemento essencial de vosso ministério de mestres e pastores da Igreja nos Estados Unidos ensinar os princípios doutrinais e morais inerentes ao apostolado secular.

Convido-vos também a discernir – consultando os membros do laicato que se sobressaem por sua fidelidade, conhecimento e prudência – os modos mais eficazes de promover a catequese e uma reflexão profunda sobre esse importante campo do ensinamento social da Igreja. 

Colaboração fecunda entre os Pastores e os fiéis leigos 

O apreço pelos diferentes dons e pelo apostolado dos leigos levará naturalmente a reforçar o compromisso de promover entre os leigos um sentido de responsabilidade compartilhada referente à vida e à missão da Igreja.

Insistindo na necessidade de uma teologia e de uma espiritualidade de comunhão e missão para renovar a vida eclesial, evidenciei a importância de “fazer nossa a antiga sabedoria que, sem prejudicar em nada o papel hierárquico dos Pastores, sabia incentivá-los a escutar atentamente todo o povo de Deus”.[5] 

Sem dúvida, isto implicará um esforço consciente da parte de cada Bispo para desenvolver em sua Igreja particular estruturas de comunhão e de participação que – sem detrimento da responsabilidade pessoal relativa às decisões que está chamado a tomar em virtude de sua autoridade apostólica – lhe permitam “ouvir o Espírito que fala e vive nos fiéis”.[6]

Ainda mais importante é que isto exige, em todos os aspectos da vida eclesial, o cultivo de um espírito de comunhão fundado no sensus fidei sobrenatural e na rica variedade de carismas e missões que o Espírito Santo derrama sobre todo o conjunto dos batizados para os edificar na unidade e na fidelidade à Palavra de Deus.

A compreensão da cooperação e da responsabilidade comum, firmemente arraigada nos princípios de uma sadia eclesiologia, garantirá uma colaboração autêntica e fecunda entre os Pastores e os fiéis leigos, sem perigo de que essa relação se deforme pela aceitação, sem sentido crítico, de categorias e estruturas tomadas da vida secular.

 

Discurso aos Bispos de Luisville, Mobile e Nova Orleans, Estados Unidos, 04/12/2004.

[1] Ecclesia in America, 44.
[2] Apostolicam actuositatem, 7.
[3] Lumen gentium, 36.
[4] Lumen gentium, 36.
[5] Novo millennio ineunte, 45.
[6] Cf. Pastores gregis, 44.