No século XVIII, a vida dos missionários que partiam para evangelizar a Indochina estava longe de ser fácil. A viagem oceânica era cheia de riscos, não só de tempestades, mas também de assaltos dos piratas.

E ao chegarem ao seu destino, os sacerdotes se deparavam com culturas exóticas e turbulentas, não raro dominadas por lordes da guerra. Alguns destes se mostravam simpáticos, outros, porém, violentamente contrários ao Cristianismo.

Por mais de 45 anos esteve o padre Alonso palmilhando as terras do atual Vietnã, antes que a obediência o chamasse de volta à Europa.

Seus olhos negros brilhavam quando contava, com riqueza de pormenores, as aventuras pelas quais os sacerdotes da Companhia de Jesus passavam nessas longínquas terras de missão.

Entre as histórias que ele narrava, uma era especialmente enternecedora…

Não muito tempo depois de ter chegado ao Oriente, padre Alonso foi enviado, junto com um jovem clérigo, a visitar uma província afastada do litoral, zona ainda não catequizada.

Embora ali ainda não houvesse católicos, eles foram recebidos com afabilidade, pois os pagãos daquelas regiões ouviram falar bem dos sacerdotes cristãos e os tinham por homens íntegros e virtuosos.

Numa das primeiras noites que lá passaram, dois viajantes bateram à porta da casa onde estavam hospedados.

Por meio de um tradutor, os recém-chegados lhes explicaram o motivo de sua visita: vinham de uma aldeia distante, a pedido de uma senhora idosa e doente que, sentindo-se próxima da morte, implorava o auxílio espiritual de um sacerdote católico.

Os dois religiosos ficaram muito admirados, pois os enviados davam a entender claramente que ela queria receber a Unção dos Enfermos. 

Quem seria, em meio àquelas vastidões de paganismo, a alma cristã desejosa de receber os últimos Sacramentos?

Montados em mulas trazidas pelos forasteiros, partiram sem demora. Viajaram a noite inteira e chegaram ao raiar da aurora à morada da misteriosa anciã.

Encontraram-na deitada junto a uma janela pela qual penetrava a suave luz do Sol nascente. Estava de fato bem doente, mas sorriu com júbilo ao vê-los entrar.

E qual não foi sua surpresa quando ela – com voz fraca e sotaque bem carregado – os saudou em um idioma europeu: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!”

A seguir, contou-lhes sua história. Chamava-se Hong Linh, nome que significa Rosa da Primavera. Era a última filha de uma importante estirpe da costa sul do país, região na qual chegaram os primeiros missionários cristãos.

Naquela época, as conversões se contavam aos milhares, ergueram-se igrejas, e várias ordens religiosas lá se estabeleceram.

Tocada pela graça, toda a sua família se fez batizar, e ela, aos sete anos, fora estudar, como tantas outras meninas, em uma escola mantida por freiras.

As pequenas dedicavam uma grande afeição às boas e pacientes irmãs que, além de ensinar-lhes a verdadeira Fé, as instruíam nas letras e números.

O esplendor das cerimônias litúrgicas, a paz e o silêncio do convento, aliados à virtude e bondade de suas mestras, atraíam cada vez mais sua inocente alma.

Rosa da Primavera formulou, então, o sincero propósito de também fazer-se religiosa e dedicar sua vida à oração e à educação das crianças.

Ao completar dezesseis anos, revelou aos pais seu santo desejo. Estes se entristeceram profundamente. Bons cristãos, também eles admiravam as religiosas e concordariam de bom grado que sua filha se juntasse a elas.

No entanto, ainda pequena, ela havia sido prometida em casamento ao filho de um importante lorde da guerra das províncias do norte. De acordo com os costumes daqueles povos, esse Matrimônio selaria um acordo de paz.

De nada adiantaram suas lágrimas. Passados alguns meses, teve de despedir-se de seus familiares, das boas freiras e de sua terra natal.

Acompanhada pela comitiva enviada pelo seu prometido, empreendeu uma longa viagem às distantes montanhas de Lao Cai, no extremo norte do país.

Realizaram-se as suntuosas núpcias, e ela não teve outro recurso senão resignar-se à nova vida. Sua maior dor, no entanto, foi a de ser obrigada a morar numa região pagã, privada de todo e qualquer auxílio espiritual da Santa Igreja.

Escoaram-se os anos, e Hong Linh trouxe ao mundo uma numerosa prole, à qual dedicou todo o carinho de seu coração. O destino, porém, continuava a mostrar-lhe uma face sombria.

As constantes guerras regionais arrancaram-lhe, um a um, todos os seus filhos, e por fim o próprio esposo.

Nada mais restando do antigo feudo de seu marido, viu-se obrigada a retirar-se naquela pequena aldeia, onde, velha e enferma, aguardava o fim de seus dias. 

Justamente quando seu estado de saúde começava a agravar-se, alguns viajantes trouxeram-lhe a notícia da proximidade dos sacerdotes cristãos. E ela os mandou chamar sem demora.

Após reconfortá-la com a Unção dos Enfermos, padre Alonso perguntou à venerável anciã:

Estando privada de qualquer Sacramento, e mesmo do consolo que é o convívio com outros cristãos, como pôde a senhora manter a fé e a confiança por tantos anos?

Com um leve sorriso, Hong Linh retirou mansamente a mão de sob os lençóis, mostrou-lhe um rosário bem gasto e disse:

Eis aqui, padre, os pequeninos, mas fortes elos que mantiveram minha alma ligada ao Céu por mais de sessenta anos. Quando menina, minhas mestras me ensinaram que a Virgem Maria jamais abandona quem a Ela reza com fervor. E é verdade. Ela sempre esteve ao meu lado, fortalecendo e amparando minha pobre alma nas agruras da vida…

Pouco tempo depois, Rosa da Primavera entregava sua alma a Deus. Desceu à sepultura tendo nas mãos seu inseparável rosário. Os mesmos elos que a mantiveram fiel durante a vida, agora a levariam até o Paraíso.