O duplo mandamento do amor
A palavra do Senhor, que acaba de ser proclamada na leitura do Evangelho, recordou-nos que a Lei divina se resume toda no amor. O duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo encerra os dois aspectos de um único dinamismo do coração e da vida.
Jesus cumpre, assim, a revelação antiga, sem acrescentar um preceito inédito, mas realizando em Si mesmo e em sua ação salvífica a síntese viva dos dois grandes mandamentos da Antiga Aliança: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração […] Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (cf. Dt 6, 5; Lv 19, 18).
Na Eucaristia, contemplamos o Sacramento desta síntese viva da lei: Cristo nos entrega em Si mesmo a plena realização do amor a Deus e do amor aos irmãos. Comunica-nos esse seu amor quando nos alimentamos de seu Corpo e de seu Sangue.
Pode, então, realizar-se em nós aquilo que São Paulo escreve aos Tessalonicenses, na segunda leitura de hoje: “Abandonastes os ídolos e vos convertestes, para servir o Deus vivo e verdadeiro” (I Tes 1, 9).
Essa conversão é o início do caminho de santidade que o cristão está chamado a realizar em sua existência.
O Santo é aquele que está fascinado pela beleza de Deus e por sua verdade perfeita, a ponto de ser progressivamente transformado. Por essa beleza e essa verdade, ele está disposto a renunciar a tudo, inclusive a si mesmo.
Basta-lhe o amor de Deus, o qual ele experimenta no serviço humilde e desinteressado ao próximo, de modo especial a quem não está em condições de lhe retribuir.
Nessa perspectiva, como é providencial que hoje a Igreja indique a todos os seus filhos cinco novos Santos que, alimentados de Cristo, Pão Vivo, converteram-se ao amor e nele centraram toda a sua existência!
Em situações diferentes e com diversos carismas, amaram o Senhor com todo o seu coração e ao próximo como a si mesmos, e assim “tornaram-se modelo para todos os fiéis” (I Tes 1, 6-7).
A Eucaristia deve impulsionar todos os membros da Igreja
Caros e venerados Padres Sinodais, durante três semanas vivemos juntos um clima de renovado fervor eucarístico.
Os trabalhos sinodais nos permitiram aprofundar os aspectos mais importantes desse mistério dado à Igreja desde o início.
A contemplação da Eucaristia deve impulsionar todos os membros da Igreja – em primeiro lugar os sacerdotes, ministros deste Sacramento – a renovar seu compromisso de fidelidade.
No mistério eucarístico, celebrado e adorado, se fundamenta o celibato, que os presbíteros receberam como dom valioso e símbolo do amor indivisível a Deus e ao próximo.
Também para os leigos a espiritualidade eucarística deve ser o motor interno de toda atividade, e não se pode admitir dicotomia alguma entre a Fé e a vida em sua missão de animação cristã do mundo.
Ao encerrarmos o Ano da Eucaristia, como não dar graças a Deus pelos numerosos dons concedidos à Igreja nesse tempo! E como não atender ao convite do amado Papa João Paulo II a “recomeçar a partir de Cristo”!
Como os discípulos de Emaús que – com o coração ardendo pela palavra do Ressuscitado e iluminados por sua presença viva, reconhecida ao partir do pão – voltaram imediatamente a Jerusalém e se converteram em anunciadores da ressurreição de Cristo, retomemos também nós nosso caminho.
Retornemos animados pelo vivo desejo de testemunhar o mistério desse amor que dá esperança ao mundo.
A Eucaristia move os missionários a dar testemunho do Evangelho
Nessa perspectiva eucarística situa-se bem a Jornada Mundial das Missões, que celebramos hoje, e à qual o venerado Servo de Deus João Paulo II deu como tema de reflexão: Missão: Pão partido para a vida do mundo.
Quando a comunidade eclesial celebra a Eucaristia, especialmente no dia do Senhor, toma cada vez maior consciência de que o sacrifício de Cristo é “por todos” (Mt 26, 28), e de que a Eucaristia move o cristão a ser “pão partido” para os demais, a trabalhar por um mundo mais justo e fraterno.
Hoje também, ante as multidões, Cristo exorta seus discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14, 16), e em seu Nome os missionários anunciam e dão testemunho do Evangelho, às vezes inclusive com o sacrifício da própria vida.
Queridos amigos, todos devemos recomeçar a partir da Eucaristia. Que Maria, Mulher eucarística, nos ajude a estarmos enamorados d’Ela e a permanecermos no amor de Cristo, para que ele nos renove intimamente.
Assim, dócil à ação do Espírito e atenta às necessidades dos homens, a Igreja será cada vez mais o farol de luz, de verdadeira alegria e de esperança, realizando plenamente sua missão de ser “sinal e instrumento de unidade de todo o gênero humano”.1