Voltastes a congregar-vos para aprofundar um argumento muito importante: a inspiração e a verdade da Bíblia.
Trata-se de um tema que diz respeito não só a cada um dos crentes, mas à Igreja inteira, uma vez que a vida e a missão da Igreja se alicerçam na Palavra de Deus, que é a alma da teologia e, ao mesmo tempo, a inspiradora de toda a existência cristã.
Unidade entre Sagrada Escritura e Tradição
Como bem sabemos, as Sagradas Escrituras constituem o testemunho escrito da Palavra divina, o memorial canônico que corrobora o acontecimento da Revelação.
Por conseguinte, a Palavra de Deus precede e excede a Bíblia. É por este motivo que a nossa Fé não tem no centro unicamente um livro, mas uma história de salvação e, sobretudo, uma Pessoa, Jesus Cristo, Palavra de Deus que Se fez carne.
Precisamente porque o horizonte da Palavra divina abrange e se estende para além da Escritura, para compreendê-la de maneira adequada é necessária a presença constante do Espírito Santo, que “ensina toda a verdade” (Jo 16, 13).
É preciso inserir-se na corrente da grandiosa Tradição que, com a assistência do Espírito Santo e a orientação do Magistério, reconheceu os escritos canônicos como Palavra dirigida por Deus ao seu povo e jamais cessou de os meditar e descobrir as suas riquezas inesgotáveis.
O Concílio Vaticano II reiterou-o com grande clarividência na Constituição dogmática Dei Verbum: “Tudo quanto diz respeito à interpretação da Escritura está sujeito ao juízo último da Igreja, que tem o mandato divino e o ministério de guardar e interpretar a Palavra de Deus”.[1]
Como nos recorda ainda a mencionada Constituição conciliar, existe uma unidade inseparável entre Sagrada Escritura e Tradição, porque ambas derivam de uma mesma fonte:
A Sagrada Tradição, portanto, e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, derivando ambas da mesma fonte divina, formam como que uma só realidade e tendem para o mesmo fim.
A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus, enquanto foi escrita por inspiração do Espírito Santo.
A Sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos, para que eles, com a luz do Espírito de verdade, a conservem, exponham e difundam fielmente na sua pregação.
Daqui resulta, assim, que a Igreja não haure só da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas. Por isso, ambas devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência.[2]
Insuficiência de qualquer interpretação subjetiva
Portanto, o exegeta deve estar atento a sentir a Palavra de Deus presente nos textos bíblicos, situando-os no interior da própria Fé da Igreja.
A interpretação das Sagradas Escrituras não pode ser unicamente um esforço científico individual, mas deve ser sempre confrontada, inserida e corroborada pela Tradição viva da Igreja.
Esta norma é decisiva para esclarecer a relação correta e recíproca entre a exegese e o Magistério da Igreja. Os textos inspirados por Deus foram confiados à Comunidade dos fiéis, à Igreja de Cristo, para alimentar a Fé e orientar a vida de caridade.
O respeito por esta natureza profunda das Escrituras condiciona a própria validade e a eficácia da hermenêutica bíblica.
Isto comporta a insuficiência de qualquer interpretação subjetiva ou simplesmente limitada a uma análise incapaz de abranger em si aquele sentido global que, ao longo dos séculos, constituiu a Tradição de todo o Povo de Deus, que “in credendo falli nequit”.[3]