O leitmotiv da Via-Sacra é evidenciado já na oração inicial. Trata-se da afirmação feita por Jesus no Domingo de Ramos: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12, 24).
Deste modo, Ele interpreta todo o seu caminho terreno como o percurso do grão de trigo, que, só através da morte, chega a produzir fruto.
Interpreta sua vida terrena, sua Morte e sua Ressurreição de maneira a desembocar na Santíssima Eucaristia, na qual está compendiado todo o seu mistério.
Ele, o Verbo encarnado, tornou-Se o nosso alimento, que conduz à verdadeira vida, à vida eterna.
Deste modo, a Via-Sacra torna-se um caminho que introduz dentro do mistério eucarístico: a piedade popular e a piedade sacramental da Igreja interligam-se e fundem-se.
A devoção da Via-Sacra pode ser vista como um caminho que leva à comunhão profunda, espiritual com Jesus, sem a qual ficaria vazia a comunhão sacramental.
Contraposta a esta visão, aparece a compreensão puramente sentimental da Via-Sacra, para cujo perigo o Senhor alerta as mulheres de Jerusalém que choram por Ele.
O mero sentimento não basta; ela deveria ser uma escola de Fé, daquela Fé que, por sua natureza, “atua pela caridade” (Gal 5, 6).
A Via-Sacra é o caminho da perda de nós mesmos, isto é, o caminho do amor verdadeiro. Ele precedeu-nos neste caminho.
E isto leva-nos mais uma vez ao grão de trigo, à Santíssima Eucaristia, na qual se torna continuamente presente entre nós o fruto da Morte e da Ressurreição de Jesus. Na Eucaristia, Ele caminha conosco, como outrora com os discípulos de Emaús.
A indecisão e o respeito humano dão força ao mal
Pilatos sabe que Jesus é inocente e procura um modo de O libertar. Mas seu coração está dividido. E, no fim, faz prevalecer a sua posição, a si mesmo, sobre o direito. Também os homens que gritam e pedem a morte de Jesus não são monstros de malvadez.
Muitos deles, no dia de Pentecostes, sentir-se-ão “emocionados até ao fundo do coração” (At 2, 37), quando Pedro lhes disser: A “Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós, […] matastes, cravando-O na Cruz pela mão de gente perversa” (At 2, 22-23).
Mas naquele momento sofrem a influência da multidão. Gritam porque os outros gritam e como gritam os outros.
E, assim, a justiça é espezinhada pela covardia, pela pusilanimidade, pelo medo do diktat da mentalidade predominante. A voz subtil da consciência fica sufocada pelos gritos da multidão.
A indecisão e o respeito humano dão força ao mal. Assim acontece que, ao longo da História, inocentes sejam maltratados, condenados e mortos.
Quantas vezes também nós preferimos o sucesso à verdade, a nossa reputação à justiça!
Os discípulos fugiram, Maria não
Na Via-Sacra aparece também Maria. Ela é a Mãe de Jesus não só no corpo, mas também no coração. Os discípulos fugiram; Ela não foge.
Ela está ali, com a coragem de mãe, com a fidelidade de mãe, com a bondade de mãe, e com a sua fé, que resiste na escuridão: “Feliz d’Aquela que acreditou” (Lc 1, 45).
E foi assim que, na hora da noite mais escura do mundo, Ela se tornou Mãe dos crentes, Mãe da Igreja. E nos ajuda para que, em nós também, a fé se torne coragem de servir e gesto de um amor que socorre e sabe partilhar o sofrimento.
Não se pode banalizar o mal
Como entender as palavras com que Jesus adverte as mulheres de Jerusalém que O seguem e choram por Ele? Não se trata porventura de uma advertência contra uma piedade puramente sentimental, que não se torna conversão e fé vivida?
De nada serve lamentar, por palavras e sentimentalmente, os sofrimentos deste mundo, se nossa vida continua sempre igual. Por isso, o Senhor nos adverte do perigo em que nós mesmos nos encontramos.
Mostra-nos a seriedade do pecado e a seriedade do Juízo. Apesar de todas as nossas palavras de horror à vista do mal e dos sofrimentos dos inocentes, não somos nós porventura demasiado inclinados a banalizar o mistério do mal?
Mas, fixando os sofrimentos do Filho, vemos toda a seriedade do pecado, vemos como tem de ser expiado até ao fim para poder ser superado. Não se pode continuar a banalizar o mal, quando vemos a imagem do Senhor que sofre.
Também a nós, diz Ele: “Não choreis por Mim, chorai por vós próprios”. Chama-nos a sair da banalização do mal que nos deixa tranquilos para podermos continuar a nossa vida de sempre.
Mostra-nos a seriedade da nossa responsabilidade, o perigo de, no Juízo, sermos encontrados culpados e estéreis.
Um novo paganismo, pior que o antigo
A tradição da tríplice queda de Jesus sob o peso da Cruz recorda a queda de Adão – o ser humano caído que somos nós – e o mistério da associação de Jesus à nossa queda.
Na História, a queda do homem assume sempre novas formas. Olhando a História mais recente, podemos também pensar como a Cristandade, cansada da fé, abandonou o Senhor.
As grandes ideologias – com a banalização do homem que já não crê em nada e se deixa simplesmente ir à deriva – construíram um novo paganismo, um paganismo pior que o antigo, o qual, desejoso de marginalizar definitivamente Deus, acabou por perder o homem.
Eis o homem que jaz no pó. O Senhor carrega este peso e cai para poder chegar até nós, para nos levantar. É o nosso peso que O faz cair.
E Lhe pedimos que destrua o poder das ideologias, para os homens poderem reconhecer que elas estão permeadas de mentiras, e não permita que o muro do materialismo se torne intransponível.
Mas não deveríamos pensar também no que sofre Cristo em sua própria Igreja? Quantas vezes se abusa do Sacramento de sua presença, no vazio e maldade do coração? Quantas vezes se deforma e se abusa de sua Palavra!
Que pouca Fé há em muitas teorias, quantas palavras vazias! Quanta impureza na Igreja e entre os que, por seu sacerdócio, deveriam estar completamente entregues a Ele!
Quão pouco respeitamos o Sacramento da Reconciliação, no qual Ele nos espera para levantar-nos de nossas quedas! Também isso está presente em sua Paixão.
A traição dos discípulos, a recepção indigna de seu Corpo e Sangue, é certamente a maior dor do Redentor.
Não nos resta mais que Lhe gritar do fundo da alma: “Kyrie, eleison – Senhor, salva-nos” (cf. Mt 8, 25). Senhor, frequentemente tua Igreja nos parece uma barca a ponto de afundar, que faz água por todas as partes. E também em teu campo vemos mais cinzas que trigo.
Tem piedade de tua Igreja: também nela Adão, o homem, cai uma e outra vez.
Ao cair, permanecemos em terra e Satanás se alegra, porque espera que já nunca poderemos levantar-nos; espera que Tu, sendo arrastado na queda de tua Igreja, fiques abatido para sempre. Mas Tu ressuscitaste e podes levantar-nos.
Salva e santifica a tua Igreja. Salva-nos e santifica-nos a todos.
Aos pés da Cruz começa a formar-se a Igreja
Jesus morre na Cruz. Seu coração é trespassado pela lança do soldado romano e dele brotam sangue e água: misteriosa imagem do rio dos Sacramentos, do Batismo e da Eucaristia, dos quais, em virtude do coração trespassado do Senhor, renasce incessantemente a Igreja.
E agora que tudo suportou, vemos que Ele, apesar de toda a confusão dos corações, apesar do poder do ódio e da covardia, não ficou sozinho. Os fiéis existem.
Junto da Cruz, estavam Maria, sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, Maria Madalena e o discípulo que Ele amava. Agora chega também um homem rico, José de Arimateia: o rico encontra modo de passar pelo buraco de uma agulha, porque Deus lhe dá a graça.
Sepulta Jesus no seu túmulo ainda intacto, num jardim: o cemitério onde fica sepultado Jesus transforma-se em jardim, no jardim donde fora expulso Adão quando se separara da plenitude da vida, do seu Criador.
E chega também um membro do Sinédrio, Nicodemos, a quem Jesus tinha anunciado o mistério do renascimento pela água e pelo Espírito. Sobre a hora do grande luto, da grande escuridão e do desespero, aparece misteriosamente a luz da esperança.
O Deus escondido permanece em todo caso o Deus vivo e próximo. A Igreja de Jesus Cristo, a sua nova família, começa a formar-se.
No momento da deposição no sepulcro, começa a realizar-se a palavra de Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12, 24).
Jesus é o grão de trigo que morre. Do grão de trigo morto começa a grande multiplicação do pão que dura até ao fim do mundo.
Ele é o pão de vida capaz de saciar em medida superabundante a humanidade inteira e dar-lhe o alimento vital: o Verbo eterno de Deus, que Se fez carne e também pão, para nós, através da Cruz e da Ressurreição.
Sobre a sepultura de Jesus resplandece o mistério da Eucaristia.