Fugir do mundo para seguir o autêntico chamado de Deus nunca significou desinteressar-se da sorte daqueles que vivem no mundo.

Pelo contrário, anacoretas e cenobitas, fiéis à doutrina de seus mais autorizados mestres espirituais, sentiam-se em plena comunhão tanto com a Igreja quanto com a sociedade humana e criam firmemente que sua vida consagrada inteiramente a Deus e às coisas divinas não era nem podia ser inútil aos seus semelhantes.

E tinham razão. O monaquismo antigo prestou, espontânea ou deliberadamente, numerosos e assinalados serviços não só aos seus contemporâneos, mas também às gerações posteriores. […]

Com demasiada frequência foi o monaquismo cristão considerado como uma retirada, como uma deserção mais ou menos covarde à vista dos combates e perigos da vida.

Tem-se insistido amiúde também que a única preocupação do monge solitário era a de seu próprio aperfeiçoamento espiritual, de sua salvação eterna, que era um egoísta. Nada disso corresponde à realidade, como nos adverte H.I. Bell.

Os ascetas do deserto – escreveu esse autorizado erudito – não empreendiam suas grandes renúncias e austeridades

num isolamento egoísta, meramente para salvar suas próprias almas; eles oravam pelos demais; poder-se-ia dizer que eram as tropas de choque da Igreja Militante, cujas orações constituíam uma arma eficaz no longo combate contra o poder das trevas.

 

COLOMBÁS, OSB, García M. El monacato primitivo. 2.ed. Madrid: BAC, 2004, p.351-354.