É com alegria que vos recebo no final dos quatro dias de intenso trabalho promovidos pelo Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais e dedicadas à imprensa católica. […]
Estou feliz por poder dirigir-vos uma palavra de encorajamento a dar continuidade ao vosso trabalho, importante e qualificado, com motivações renovadas.
Risco de indiferença em relação à verdade
O mundo dos mass media atravessa uma profunda transformação, também no seu interior. O desenvolvimento das novas tecnologias e, de modo particular, a difundida multimedialidade parecem pôr em discussão o papel dos meios mais tradicionais e consolidados.
Oportunamente, o vosso Congresso considera o papel peculiar da imprensa católica.
Com efeito, uma reflexão atenta sobre este campo faz sobressair dois aspectos particulares: por um lado, a especificidade do instrumento, a imprensa, ou seja, a palavra escrita e a sua atualidade e eficácia, numa sociedade que viu multiplicarem-se antenas, parabólicas e satélites, que se tornaram praticamente os emblemas de um novo modo de comunicar na era da globalização.
Por outro lado, a conotação “católica”, com a responsabilidade que daqui deriva, de lhe ser fiel de maneira explícita e substancial, através do compromisso quotidiano de percorrer a via mestra da verdade.
A busca da verdade deve ser empreendida pelos jornalistas católicos com a mente e o coração apaixonados, mas também com a profissionalidade de agentes competentes e dotados de meios adequados e eficazes.
Isto é ainda mais importante neste momento histórico, que requer que a própria figura do jornalista, como mediador dos fluxos de informação, realize uma mudança profunda.
Hoje, por exemplo, na comunicação o mundo da imagem assume uma importância cada vez maior, com o desenvolvimento de tecnologias sempre novas; contudo, se por um lado tudo isto comporta aspectos indubitavelmente positivos, por outro, a imagem pode tornar-se também independente do real, pode dar vida a um mundo virtual com várias consequências, a primeira das quais é o risco da indiferença em relação à verdade.
Com efeito, as novas tecnologias, juntamente com os progressos que elas proporcionam, podem tornar o verdadeiro e o falso intercambiáveis, podem induzir a confundir o real com o virtual.
Além disso, a filmagem de um acontecimento feliz ou triste pode ser vista como espetáculo, e não como ocasião de reflexão. Então, a busca de caminhos para uma autêntica promoção do homem passa em segundo plano, porque o acontecimento é apresentado principalmente para suscitar emoções.
Estes aspectos soam sempre como um sinal de alarme: convidam a considerar o perigo que o virtual afaste da realidade e não estimule à busca do verdadeiro, da verdade.
O mundo necessita viver “como se Deus existisse”
Neste contexto, a imprensa católica é chamada de modo novo a manifestar até ao fundo as suas potencialidades e a explicar cada dia a sua missão irrenunciável.
A Igreja dispõe de um elemento simplificador, dado que a Fé Cristã tem em comum com a comunicação uma estrutura fundamental: o fato de que o meio e a mensagem coincidem.
Com efeito, o Filho de Deus, o Verbo encarnado é mensagem de salvação e ao mesmo tempo meio através do qual se alcança a salvação.
Não se trata de um simples conceito, mas de uma realidade acessível a todos, mesmo àqueles que, embora vivam como protagonistas na complexidade do mundo, são capazes de conservar a honestidade intelectual, que é própria dos “pequeninos” do Evangelho.
Além disso a Igreja, Corpo Místico de Cristo, presente contemporaneamente em toda a parte, alimenta a capacidade de relacionamentos mais fraternais e mais humanos, colocando-se como lugar de comunhão entre os crentes e ao mesmo tempo como sinal e instrumento da vocação de todos para a comunhão.
A sua força é Cristo, e em seu Nome ela “segue” o homem pelos caminhos do mundo para o salvar do mysterium iniquitatis, insidiosamente presente nele.
A imprensa evoca de maneira mais direta do que qualquer outro meio de comunicação, o valor da palavra escrita. A Palavra de Deus chegou aos homens e foi transmitida também a nós através de um livro, a Bíblia.
A palavra permanece o instrumento fundamental e, num certo sentido, constitutivo da comunicação: ela é utilizada hoje sob várias formas e inclusive na chamada “civilização da imagem” conserva todo o seu valor.
A partir destas breves considerações, parece evidente que o desafio comunicativo é, para a Igreja e para quantos compartilham a sua missão, deveras exigente.
Os cristãos não podem ignorar a crise de Fé que se abateu sobre a sociedade, ou simplesmente confiar que o patrimônio de valores transmitido ao longo dos séculos passados possa continuar a inspirar e plasmar o futuro da família humana.
A ideia de viver “como se Deus não existisse” demonstrou-se deletéria: o mundo tem necessidade, sobretudo, de viver “como se Deus existisse”, embora não tenha a força para crer, caso contrário produzirá apenas um “humanismo desumano”.
Ajudar o homem contemporâneo a orientar-se para Cristo
Caríssimos irmãos e irmãs, quem trabalha nos meios de comunicação, se não quiser ser apenas “um bronze que ressoa ou um címbalo que tine” (I Cor 13, 1) – como diria São Paulo –, deve manter forte em si a opção de fundo que o habilita a tratar as realidades do mundo, colocando Deus sempre no ápice da escala de valores.
A época em que vivemos, não obstante disponha de uma notável carga de positividade, porque a trama da História está nas mãos de Deus e o seu desígnio eterno se revela cada vez mais, permanece marcada também por numerosas sombras.
Estimados agentes da imprensa católica, a vossa tarefa consiste em ajudar o homem contemporâneo a orientar-se para Cristo, único Salvador, e a manter acesa no mundo a chama da esperança, para viver dignamente o hoje e construir o futuro de maneira adequada.
Por isso, exorto-vos a renovar constantemente a vossa opção pessoal por Cristo, haurindo daqueles recursos espirituais que a mentalidade mundana subestima, mas que são preciosos, aliás indispensáveis.
Caros amigos, encorajo-vos a continuar a desempenhar o vosso não fácil compromisso, enquanto vos acompanho com as minhas orações, a fim de que o Espírito Santo o torne profícuo.