O Prof. Guzmán Carriquiry Lecour, habituado a resolver questões por vezes delicadas e complexas, responde às nossas perguntas com precisão e segurança.
Mas, ao mesmo tempo, deixa transparecer uma alma profundamente sensível no seu entranhado amor pela família e na forma de considerar suas funções no serviço direto do Papa.
Arautos do Evangelho: Qual é a missão específica do Pontifício Conselho para os Leigos?
Prof. Carriquiry: Ele é um dicastério da Cúria Romana que ajuda o Sumo Pontífice no exercício de seu supremo ofício pastoral para bem e serviço da Igreja universal e das Igrejas particulares, no que toca à promoção e à coordenação do apostolado dos leigos e, em geral, à vida cristã dos leigos enquanto tais.
Sua competência genérica e específica está estabelecida pela Constituição Apostólica Pastor Bonus sobre a Cúria Romana.
Eu diria que sua ministerialidade, ou seja, seu serviço, está baseado numa dupla e inseparável atitude de escuta: escuta daquilo que o Espírito Santo diz, ensina, orienta e exorta por meio do Magistério do Sucessor de Pedro e dos Bispos que estão em comunhão com ele.
E escuta daquilo que o mesmo Espírito suscita, por meio de seus dons sacramentais e carismáticos, como novidade de vida entre os fiéis leigos.
É claro que nosso Dicastério, desde suas origens, tem sido fruto e sinal, canal e elemento propulsor da grande corrente contemporânea chamada de “promoção do laicato”, que o Concílio Ecumênico Vaticano II retomou, aprofundou e iluminou.
Sobretudo a partir da admirável eclesiologia da Constituição Lumen Gentium, entrelaçada com a Constituição Gaudium et Spes, junto com seu complemento no Decreto Apostolicam Actuositatem.
A consciência e experiência da vocação cristã e dignidade batismal, da pertença eclesial, da responsabilidade evangelizadora e da novidade de vida chamada a desenvolver-se no seio das realidades temporais, caracterizam primordialmente essa corrente de renovada presença e participação dos fiéis leigos na vida e missão da Igreja.
AE: O Santo Padre deu um grande impulso aos novos movimentos eclesiais. Que consequências acarretaram tal impulso para esse Pontifício Conselho?
Prof. Carriquiry: O Santo Padre soube reconhecer e estimular desde o começo de seu pontificado o que depois chamaria “nova fase associativa dos fiéis leigos”, na qual, “junto ao associativismo tradicional, e às vezes desde suas próprias raízes, germinaram movimentos e associações novas, com fisionomias e finalidades específicas”.[1]
Nelas o Papa percebeu “um dos frutos mais significativos daquela primavera da Igreja já prenunciada pelo Concílio Vaticano II” (27/05/1998).
Em seu paradigmático encontro com 50 movimentos e novas comunidades eclesiais na Praça de São Pedro, em 30 de maio de 1998, chamou-os de “providenciais”, quer dizer, autênticos dons do Espírito Santo para nosso tempo.
Foi confiado a nosso Dicastério coadjuvar o Papa numa intensa tarefa de conhecimento, acompanhamento e diálogo, de discernimento segundo os critérios de eclesialidade estabelecidos na Exortação Apostólica Christifideles Laici,[2] de reconhecimento canônico e aprovação estatutária dos diversos movimentos, ajudando-os no caminho de uma maturidade eclesial.
Isso significou grande perseverança e variedade de aproximações pastorais, cuidando do enxerto de seus respectivos carismas na grande tradição católica e favorecendo sua humilde inserção e colaboração no seio das mais diversas Igrejas locais, em comunhão afetiva e efetiva com seus Pastores.
Tem sido fundamental valorizar e incentivar seus ímpetos de santidade, suas pedagogias de formação cristã, seu dinamismo missionário em todos os ambientes e culturas, o desdobramento multifacetado de obras e serviços para atender às diversas necessidades humanas.
Nos últimos 20 anos, este Pontifício Conselho deu reconhecimento canônico, como associações internacionais de fiéis de direito pontifício, a muito numerosas dessas novas (ou relativamente novas) realidades. Entre elas, a dos Arautos do Evangelho.
AE: Como o senhor começou a trabalhar no Pontifício Conselho?
Prof. Carriquiry: Em fins de 1971 fui surpreendentemente convidado a fazer uma experiência de um ano de trabalho no Consilium de Laicis, organismo criado a título experimental em 1967 como resposta a uma solicitação expressa dos Padres do Concílio.
Algo inimaginável e totalmente imprevisível para um leigo de 26 anos que havia apenas concluído os estudos universitários, era casado e tinha um filho muito novo, e pertencia ao país mais secularizado da América do Sul.
Contava, é verdade, com uma educação cristã, uma discreta formação teológica, e tinha participado em movimentos apostólicos e responsabilidades de serviço ao nível da arquidiocese de Montevidéu.
Seria muito longo narrar como se juntaram as circunstâncias para que um dia me “chovesse do céu” essa surpreendente proposta.
AE: Como se sente um leigo trabalhando em Roma, em estreita colaboração com Cardeais e Bispos?
Prof. Carriquiry: Estou extremamente consciente de que trabalhar a serviço do Sucessor de Pedro e Pastor universal, na Cúria Romana, é um dom desproporcionado e superabundante para mim.
Coube-me servir a três grandes Papas: Paulo VI, João Paulo I (em seu curtíssimo, mas luminoso pontificado) e agora João Paulo II.
Chegando a Roma, alguém me disse uma coisa importante que trago no coração e me é sempre motivo de exame de consciência: “Quem trabalha na Cúria Romana só tem duas alternativas… ou serve ao Papa ou se serve a si mesmo”.
Quanto à estreita relação com Cardeais e Bispos, basta o respeito por sua condição e ministério de Sucessores dos Apóstolos, a obediência aos Superiores Hierárquicos, o afeto filial e fraternal, a seriedade e responsabilidade na colaboração no âmbito da própria competência.
Faço a experiência de que quanto mais comunhão, mais liberdade. Detesto arrogâncias e lisonjas. Por outro lado, de nada servem os yes men.
O que se pede de mim é um serviço leal e inteligente, que sabe dar boas razões das próprias convicções, juízos e pareceres. Ademais, tenho, graças a Deus, uma esposa extraordinária e uma preciosa família que me salvam de todo abraço “eclesiástico” sufocante.
AE: Poderia contar-nos algum momento especialmente difícil ou gratificante de seu trabalho?
Prof. Carriquiry: Há sempre muitas dificuldades num ambiente internacional, complexo, de muito peso clerical, e com funções muito variadas e delicadas, mas me ensinaram que sempre se constrói, não a partir da queixa ou do protesto, mas sim a partir da positividade de uma experiência.
Foram muitos – e muito maiores! – os motivos de gratidão, alegria e esperança. São inumeráveis os momentos e gestos gratificantes que vivi.
Um dos maiores foi o de ter sido convidado a fazer parte da comitiva da viagem apostólica do Santo Padre em sua primeira passagem por Montevidéu, em meu país: no aeroporto estavam minha mãe – santa mulher –, meus queridos irmãos e muitos amigos…
AE: Seu último livro teve grande repercussão entre os Arautos do Evangelho. Poderia sintetizar para nossos leitores a tese principal dessa obra?
Prof. Carriquiry: Neste início do terceiro milênio, 50% dos católicos estão na América Latina. Isso quer dizer que, em grande medida, o destino da catolicidade está em jogo no destino dos povos latino-americanos.
É um milagre que a Fé Católica continue a ser alma e sabedoria da grande maioria de nossas populações. É também uma enorme responsabilidade. Não se vive mais do rendimento desse precioso patrimônio.
Ou ele frutifica, como renovado florescimento, no coração das pessoas, das famílias e das nações, ou vai-se erodindo ou dilapidando.
E quando juntamos o destino da catolicidade com o de nossos povos, enfrentamos o desafio de dilatar a novidade de vida suscitada pela Fé em todos os âmbitos da existência pessoal e social, econômica, política e cultural.
Esta é a “aposta” que eu quis fazer com meu livro: reler a História, considerar o presente e apontar para um futuro de nossos povos a partir de uma clave cristã, católica.
Nesse intento, é óbvio que me arrisco a muitos juízos “prudenciais” que podem admitir, mesmo entre irmãos na Fé, diversidade de leituras.
Parece-me claro, contudo, que se não se vive um ressurgimento da tradição cristã e esta não é chave de inteligência de toda a realidade, e não gera novas formas de vida mais dignas de todo o homem e de todos os homens, então nossos povos sofrerão e a catolicidade sofrerá.
AE: Uma mensagem final para nossos leitores, especialmente para os leigos.
Prof. Carriquiry: Não sou bom para mensagens, mas o que me parece importante com todos os amigos que são “Arautos de Cristo” é compartilhar a gratidão e alegria de todo o bem, a verdade e a beleza do que nos foi dado viver.
Isso é o que comunicamos como arautos: o dom de nosso encontro com o Senhor.
Sempre recomeçando a partir de Cristo, com o deslumbramento agradecido por haver sido regenerados como “criaturas novas”, membros de seu Corpo, confiados a sua Mãe Santíssima, prontos ao Fiat à vontade de Deus, rico de misericórdia ante nossas misérias, para que a graça do Espírito Santo vá convertendo nossa vida em testemunho do único Senhor e Salvador.
“Somos Cristo!” – chegava a exclamar Santo Agostinho.
É este o nosso único tesouro, nossa vocação e missão, nossa felicidade e esperança, o maior bem para todos os homens.