Para um Estado soberano existir, necessita de um povo, território definido, governo organizado e leis que regulem o bem comum. Entretanto, um povo pode existir unido por laços culturais ou espirituais, mesmo desprovido de território próprio, como são os cristãos: “Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, e cada pátria é estrangeira”.1
Na Liturgia deste domingo, o Senhor promete a Moisés que seu povo será “um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19, 6). Ora, essa aliança paira também sobre nós, reconciliados pelo insondável amor de Cristo, que “morreu por nós, quando éramos ainda pecadores” (Rm 5, 8).
Atraiu Ele um povo numeroso (cf. Sl 99, 3), como Pastor às suas ovelhas (cf. Mt 9, 36). E quis multiplicar os seus ministros, pois “os trabalhadores são poucos” (Mt 9, 37). Sim! Seu número é reduzido quando comparado ao tamanho da messe; menor ainda quando se considera a santidade...
Os sacerdotes, em particular os santos sacerdotes, são os mais especialmente chamados para o trabalho na messe, mas os leigos também participam do sacerdócio de Cristo, são povo sacerdotal. Estes se encontram “na linha mais avançada da vida da Igreja: por eles, a Igreja é o princípio vital da sociedade”.2
De fato, em virtude do Batismo, “os leigos recebem a vocação admirável e os meios que permitem ao Espírito produzir neles frutos cada vez mais abundantes”, em toda e qualquer circunstância, desde que seja “vivido no Espírito de Deus”.3 Dessa forma,“assim como a alma está no corpo, assim os cristãos estão no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo”.4
Assim foi a Virgem Maria, que nunca Se cansou – nem fez cansar – aqueles dos quais cuidava como Pastora. Ao saber que Isabel precisava d’Ela, subiu apressada as montanhas para servi-la (cf. Lc 1, 39). Seguiu para Belém, prestes a dar à luz (cf. Lc 2, 4-5). Nascendo o Menino, fugiu com Ele para o Egito (cf. Mt 2, 14), retornou a Nazaré (cf. Mt 2, 21) e, mais tarde, O procurou no Templo, quando Lhe pareceu tê-Lo perdido (cf. Lc 2, 45-46).
Na falta de vinho, adiantou-Se em favor dos noivos e, ao saber que não era chegada a hora, mandou que todos obedecessem a Jesus (cf. Jo 2, 1-11). Quando os pastores de seu Divino Filho O abandonaram, Ela permaneceu de pé junto à Cruz (cf. Jo 19, 25-27) e os perdoou como Mãe. Por fim, com eles se reuniu, no Cenáculo, ensinando-os a rezar, à espera do Espírito Santo (cf. At 1, 14).
As ovelhas se entristecem pela falta de bons pastores, modelos do sacerdócio, do qual elas mesmas participam. Maria foi exemplo sublime de seguimento de Cristo e modelo de virtude para todo o povo sacerdotal. Quem A imita em sua generosidade, nunca se transviará da grei do Senhor!
Notas:
1 CARTA A DIOGNETO, c.V, n.5.
2 CCE 899.
3 CCE 901.
4 CARTA A DIOGNETO, c.VI, n.1-3.