Pedro e Paulo: por que festejá-los numa mesma solenidade? Se é verdade que esses Apóstolos conheceram o Divino Mestre em situações diversas, pregaram o Evangelho a povos tão diferentes e foram martirizados de modos distintos, não pareceria mais razoável que a Liturgia, por exemplo, unisse em uma só celebração São Paulo e São Barnabé, os quais palmilharam as mesmas terras anunciando a Boa-Nova, ou São Pedro e Santo André, irmãos de sangue que sofreram na cruz o martírio?
Tratar-se-ia, na verdade, de um grande equívoco. Circunstâncias externas e naturais, ainda se muito respeitáveis, são secundárias quando se trata de explicar os vínculos estabelecidos por desígnios providenciais.
Ao santificar o pescador de Betsaida e o fariseu de Tarso, quis Nosso Senhor uni-los numa única e altíssima missão: foram constituídos colunas da Igreja e pastores universais de seu rebanho. Como lemos no Evangelho da Missa do dia, a Pedro coube o primado no Colégio Apostólico. Ser a rocha sobre a qual a Igreja se edifica: eis a missão recebida diretamente do Mestre (cf. Mt 16, 18). Quanto a Paulo, deveria anunciar o Evangelho integralmente a todas as nações (cf. II Tm 4, 17), com ardor e dinamismo inigualáveis.
Ao celebrar, pois, na mesma solenidade esses dois varões, recordamos uma das notas distintivas do Catolicismo: sua universalidade.
Católico é um termo grego que significa universal. Já no século II, essa universalidade era conhecida e aceita pelos cristãos, como testemunha Santo Irineu de Lyon:
“A Igreja, mesmo espalhada por todo o mundo, guarda com cuidado [essa pregação e essa fé], como se morasse numa só casa, e crê do mesmo modo, como se possuísse uma só alma e um só coração; unanimemente as prega, ensina e entrega, como se possuísse uma só boca […]. Como o Sol, criatura de Deus, é em todo o mundo um só e o mesmo, assim a luz da pregação da verdade brilha em todo lugar e ilumina todos os homens que querem chegar ao conhecimento da verdade”.1
Aqui reside um dos ensinamentos mais importantes desta Liturgia: a Fé Católica, rocha inabalável, só é ela mesma quando anunciada na íntegra, independentemente das circunstâncias ou dos tempos. Excluamos apenas um dos elementos que a compõem, e deixará de ser católica.
Ora, se essa Fé chegou a nossos ouvidos e por ela fomos santificados nas águas do Batismo, é porque houve pastores e fiéis que, a exemplo dos Apóstolos, difundiram-na, em sua totalidade, no decorrer dos séculos.
Nos dias atuais, a responsabilidade pesa sobre nossos ombros. Caberá, pois, a cada um de nós, unidos à Cátedra de Pedro, ser outros tantos “Paulos” na pregação da Fé verdadeira. Por palavras? Sim, mas sobretudo pelo exemplo de uma vida íntegra, consoante aos Mandamentos e à moral católica. Só assim poderemos, ao cerrar os olhos para esta vida, entoar com o Apóstolo o cântico da vitória: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça” (II Tm 4, 7-8).
Notas
1 SANTO IRINEU DE LYON. Contra as heresias. L.I, c.10, n.2.