O governo italiano sofreu grande derrota no referendo convocado para autorizar a pesquisa com embriões humanos e liberar a fecundação assistida, realizado dias 12 e 13 de junho.
Apenas 25,9% dos eleitores compareceram, quando seria necessária a participação de pelo menos 50% para validar a consulta.
Segundo a imprensa italiana, a grande vencedora foi a Igreja Católica, que havia proposto a abstenção como um duplo “não”: à proposta desse referendo e ao uso da consulta popular para decidir sobre questões relativas à vida.
“Hoje tivemos três vítimas: o secularismo do Estado, a autoridade política e a instituição do referendo”, afirmou uma das principais defensoras da consulta popular, Emma Bonino.
E Fábio Mussini, vice-presidente do Movimento para a Vida, declarou à agência Zenit:
Houve uma campanha como nunca se tinha visto. Toda a “intelligentsia” cultural, desde os grandes jornais até as revistas para as donas de casa, desde os prêmios Nobel até os artistas, promoveram o “sim” por todos os meios.
Todas as pesquisas atribuíam ao “sim” uma porcentagem crescente, desde 40% até 50% nos últimos dias. As mesmas pesquisas atribuíam à Igreja Católica um peso de 5% nas intenções de voto.
E, contudo, eles perderam. Como é possível que o uso de tanta potência tenha dado resultado tão baixo? Parece que existe uma ruptura profunda entre os homens de cultura e o povo.
O Papa Bento XVI havia recomendado a abstenção na votação, a qual era vista como um teste da influência da Igreja Católica na Itália.
Através do plebiscito se pretendia revogar quatro pontos da controvertida Lei nº 40, aprovada pelo Parlamento no ano passado, que regula a denominada “fecundação medicamente assistida”.
Assinalou o Cardeal Camillo Ruini, Presidente da Conferência Episcopal Italiana e Vigário do Papa para a Diocese de Roma:
Essa lei, que sob diversos e importantes aspectos não corresponde ao ensinamento ético da Igreja, tem, contudo, o mérito de salvaguardar alguns princípios e critérios essenciais, numa matéria em que estão em jogo a dignidade específica e alguns direitos e interesses fundamentais da pessoa humana.
Entre esses “princípios e critérios essenciais” resguardados pela Lei nº 40, e que os promotores do referendo pretendiam revogar, está o dispositivo que equipara os direitos do embrião humano aos de uma pessoa já nascida.
Outro é a proibição de usar células-tronco embrionárias para pesquisas científicas.
Se, pois, saísse vitorioso o “sim” no plebiscito, seria negado a incontáveis seres humanos já existentes, porque já concebidos, o mais fundamental dos direitos: o de nascer.
A tomada de posição da Igreja Católica tinha um objetivo preciso: a defesa da dignidade humana desde o seu início, a tutela da família e o direito dos filhos de conhecerem os próprios genitores.
Acrescentou Dom Camillo Ruini:
Faremos isto com aquele mesmo amor e solicitude pelo homem que se exprime no cuidado da Igreja pelos pobres e por outras pessoas em dificuldade, na educação dos meninos e das meninas, na assistência aos enfermos e aos anciãos.
O resultado do plebiscito deixou aturdidos alguns dos mais destacados promotores do referendo, como Daniele Capezzone, secretário do partido que coletou as assinaturas necessárias para convocá-lo.
“Perdemos, e perdemos de forma muito dura”, reconheceu ele, acrescentando: “Trata-se de uma votação que ficará na História por várias décadas”.