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Plinio Corrêa de Oliveira


Alegria e dor junto ao Presépio
 
PUBLICADO POR ARAUTOS - 22/12/2019
 
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O cântico de Natal por excelência, o Stille Nacht, expressa em si o equilíbrio das almas santas na junção entre a alegria e a dor. Não seria esta a própria canção de Maria Santíssima a seu Divino Filho?

Nas vésperas da noite de Natal, da Stille Nacht, heilige Nacht – a noite de graça por excelência –, que meditação me vem ao espírito?

Os acontecimentos que nos circundam são tão tumultuosos, tudo quanto nos cerca é tão premente, meditamos de dentro de uma luta tão forte, que não é possível que as marcas de tormento, de sangue e de lágrimas não repercutam em nossa meditação. É desta maneira que apresento o que está em meu espírito.

Plano metafísico de Deus a respeito da Encarnação

Segundo uma corrente de teólogos, Nosso Senhor Jesus Cristo ter-Se-ia encarnado e vindo ao mundo ainda que não tivesse havido o pecado original e, com este, a necessidade da Redenção.

Por que teria Ele vindo ao mundo se o gênero humano não precisasse ser redimido? Por causa de um plano metafísico de Deus, de uma beleza incomparável, sem o qual creio que as festas do Santo Natal não podem ser adequadamente compreendidas e aquilatadas.

A ideia de que o Verbo de Deus Se faria carne e habitaria entre nós e que haveria de ser um Homem com plena natureza humana, unido por união hipostática à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, este plano divino existia em virtude do princípio metafísico da reductio ad unum.

Tendo Deus criado os homens, não era necessária a Encarnação, mas convinha, era excelente que o Filho de Deus se fizesse Homem. Por quê? Por causa de uma excelência que aos Anjos não foi dada, e sim aos homens, inferiores aos espíritos angélicos.

Explico-me. Quando existe uma pluralidade de seres congêneres, há a conveniência de que haja um ser mais excelente do que todos, o qual reúna em si em alto grau todas as qualidades que nenhum daqueles seres plurais possui individualmente.

Exemplificando o princípio da reductio ad unum

Imaginem uma praia de onde alguém tomasse um punhado de areia com grãos prateados e brilhantes como se fossem pequenas estrelas, e utilizando um microscópio potentíssimo fosse contemplando grão por grão. Essa pessoa veria que cada grão é diverso dos outros e tem, por algum lado, uma excelência própria.

Qual seria a operação do espírito humano analítico, inteligente, capaz de se encantar com a beleza própria de cada grão, como quem vê um só? Ele tenderia a formar uma imagem una e se perguntaria como seria um grão ideal, que tivesse uma beleza plena. Este é o princípio da reductio ad unum.

Os grãos de areia são de um mesmo gênero, mas plurais. São milhões numa praia. Como seres plurais que são, cada um deles tem um dos aspectos de beleza de que o  gênero “grão de areia” é capaz. Assim, depois de percorrer todos esses aspectos como quem lê as letras que formam palavras das quais nasce um livro, a alma humana, por ser una, pede uma figura também una e se pergunta, necessariamente, como seria o supergrão, o arquigrão, o grão perfeito que contivesse magnificamente todos os outros.

Poderíamos supor a existência de um homem que quando menino tivesse começado a analisar grãos de areia e ao chegar à senectude, quando a sua vista cansada já não pudesse mais ver novos grãos, começaria a excogitar, com o poder de sua inteligência alcandorada pela vida, como seria o arquigrão. Então realizaria a obra de arte de sua vida, deixando o grão arquetípico desenhado ou pintado num papel, evidentemente em dimensões maiores que a original, mas tão reduzidas quanto ele pudesse representá-lo, porque o homem não é capaz de acumular tantas perfeições em tão pequena superfície. Pode-se compreender que, no momento em que ele tivesse acabado de pintar o arquigrão, de sua mão envelhecida caísse o pincel e ele morresse cantando o Gloria in excelsis Deo – Glória no mais alto dos Céus a Deus, e paz na Terra aos homens de boa vontade. “O arquigrão eu concebi, a minha mente o desenhou!” Compreende-se que essa seria uma linda vida.

Alguém diria: “Vida de poeta!” Ou