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Plinio Corrêa de Oliveira


Grandeza régia de Nosso Senhor Jesus Cristo
 
PUBLICADO POR ARAUTOS - 08/11/2019
 
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Até o fim dos séculos, Nosso Senhor será odiado com o maior ódio da História. E a sua vitória contra esse ódio, personificado no Anticristo, manifestará mais uma vez a sua incomparável
grandeza: Ele o liquidará com um sopro de sua boca…

Todas as coisas acontecem dentro da providência geral com que Deus rege o universo ou, em certos casos, segundo uma providência especial. Mas o que diz respeito a Nosso Senhor Jesus Cristo é regulado por uma providência especialíssima, em função da qual merece toda atenção e análise o fato de Ele ser membro da casa real de Davi.

“Jesus Nazareno, Rei dos judeus”

Para demostrar o alcance dessa circunstância, se necessário fosse, bastaria alegar o seguinte motivo: a Providência quis que no letreiro que encimava a Santa Cruz estivesse escrito “Jesus Nazareno, Rei dos judeus”, e isso molestou os sumos sacerdotes ao ponto de eles pedirem a Pilatos que retirasse essa inscrição.

Ele, entretanto, respondeu: “O que eu escrevi, escrevi” (Jo 19, 22). Era o senso dominador dos romanos sendo inteiramente aplicado ao caso concreto: “Está escrito. Não o tiro mais. E se
vocês não gostarem, engulam com farinha”.

Sempre interpretei essa resposta de Pilatos – tão bonacheirão, tão moleirão, tão indecente no que diz respeito ao seu dever de proclamar a inocência de Nosso Senhor – como um sinal do seu agastamento. Tinham-no obrigado, sob ameaça de denunciá-lo como inimigo de César, a lavrar uma sentença injusta e, quando vieram pedir-lhe para retirar esse letreiro, respondeu-lhes irritado: “Não, o que eu fiz, fiz, está acabado! Pelo menos agora me deixem ser homem”.

Seja como for, o INRI ficou para sempre eternizado na Cruz imortal, proclamando: Nosso Senhor Jesus Cristo é o Rei dos judeus.

A Transfiguração no Tabor

Em Cristo deveria refulgir uma majestade temporal dotada de todas as formas de grandeza próprias aos reis da terra. Contudo, como ver no Salvador essas qualidades, se Ele não andou pela terra como Rei?

Mesmo no Domingo de Ramos, ao ser objeto de tão grande homenagem do povo de Jerusalém, foi aclamado como Filho de Davi. Contudo, não O proclamaram Rei de Israel, nem houve nenhuma tentativa para tirar Herodes do cargo. Nosso Senhor era visto como um Homem santo e eminente, que possuía, entre outras glórias, a de descender de Davi, sem que isso levasse a querer restaurar nele a monarquia.

Como ver, então, em Nosso Senhor a majestade e os atributos de um Rei? Em algum momento devem ter transparecido, pois Ele veio para Se manifestar por inteiro a todos os homens.

Essa grandeza real reluziu, com efeito, em mais de um episódio da vida d’Ele, mas brilhou de um modo todo especial, intencional, na Transfiguração no Monte Tabor. Ali Ele apareceu em toda sua majestade como Rei e, sobretudo, como Deus. E o fez de modo tão esplendoroso que os Apóstolos por Ele convocados para o alto do monte não queriam ir embora: São Pedro propôs que ficassem ali em cima, arranjassem tendas e não saíssem mais (cf. Mt 17, 4).

Não se conhece na História um só caso de rei que tenha sido objeto desta aclamação: “Vamos permanecer aqui, junto de vós. Não precisamos de mais nada no mundo. Basta-nos ficar olhando para vós!”

O que costuma acontecer é justamente o contrário. Os súditos julgam o rei muito admirável, mas gostariam de dizer-lhe: “Senhor, dai-me cargo, dinheiro, honra… Desejo vos servir, mas quero que também vós me sirvais. Nada de ficar aqui parado só para vos olhar. Quero ser fiel, sede fiel vós também. Aliás, antes mesmo de vos ter prestado serviço, já tenho a lista dos benefícios que quero de vós. E quando os receber, mostrá-los-ei ao povo, nas ruas da capital, para que eu também seja apreciado e admirado. Isso de viver só para vos admirar não basta…”

Assim sucede com as monarquias terrenas; não, porém, com Nosso Senhor. Quando Ele quis manifestar sua majestade, a reação foi: “Fiquemos aqui, não precisamos de mais nada fora de Vós!”

Coração de infinita majestade

Além dessa esplendorosa manifestação de realeza no Tabor, houve também a do Domingo de Ramos, à qual aludi há pouco.

Embora não tenha sido saudado nesse episódio como Rei, é evidente que o povo aclamava n’Ele a majestade pessoal que a Ladainha do Sagrado Coração de Jesus exprime com esta invocação magnífica: Cor Iesu, maiestatis infinitæ, miserere nobis.

O que significa aqui a palavra coração? Ela nos leva a prestar culto ao Coração de carne d’Ele enquanto símbolo de sua alma, espírito, mentalidade, desejos e propósitos, os quais eram de uma majestade infinita. Tudo quanto Nosso Senhor Jesus Cristo queria era de uma grandeza ilimitada; o que Ele inteligia possuía um descortínio sem fim; nos desígnios d’Ele, a bondade era de uma majestade infinita, como o era também a justiça.

Nosso Senhor, porém, deixou claro que a manifestação dessa justiça estava reservada para o momento de sua Morte e para o dia em que Ele vier, com a majestade de Deus e de Rei, julgar no fim dos tempos os vivos e os mortos.

Majestade na Morte…

Jesus Cristo morreu sob o desprezo geral, compensado pela adoração indizivelmente preciosa de Nossa Senhora e, num grau respeitável, mas enormemente menor – porque tudo quanto existe, exceto Nosso Senhor, é incomparavelmente menor do que Maria Santíssima – pela adoração de São João, das Santas Mulheres e do bom ladrão. No momento em que o Filho de Deus entregou
seu espírito, iniciou-se aquilo que o grande Bossuet – Bispo de Meaux e pregador sacro dos mais eminentes – chama de “os funerais do Filho de Deus”.

Que rei teve ou terá semelhantes exéquias? A terra treme, obscurece-se o sol, o véu do Templo se rasga. As sepulturas dos justos do Antigo Testamento se abrem e eles saem pelas ruas (cf. Mt 27, 52), exprobrando a todos os homens maus, com uma majestade suprema, os pecados que tinham cometido. De modo especial o deicídio, pois era o pecado da nação inteira, consumado quando o povo disse diante de Pilatos: “Que o Sangue d’Ele caia sobre nós e sobre nossos filhos” (Mt 27, 25).

…na Ressurreição…

Porém, a majestade de Jesus Cristo se mostra também quando Ele, ressurrecto, aparece a Nossa Senhora. Porque, embora isto não esteja dito na Sagrada Escritura, eu tenho como certo que Ele, ao ressurgir dos mortos, esteve com Ela antes de Se revelar a qualquer outra criatura. Rompeu-se a sepultura, os Anjos atiraram ao chão a pedra funerária e Ele saiu (cf. Mt 28, 1-3), com todas as cicatrizes da Paixão refulgindo como sóis! E todas as manifestações d’Ele após a Ressurreição se revestiram dessa nota de majestade.

Por exemplo: Jesus entra, ninguém sabe por onde, no local em que se encontravam reunidos os discípulos (cf. Jo 20, 19). As portas e janelas fechadas não adiantavam de nada, pois Ele estava com seu Corpo glorioso e as atravessava. Que majestade entrar através de um muro ninguém derrubou! Muitos reis na História derrubaram muralhas… Transpô-las sem as ter derrubado, só o Rei Jesus Cristo!

Ele aparece tão bondoso, tão amoroso, mas incutindo tanto medo, que suas palavras são: “A paz esteja convosco! Vede minhas mãos e meus pés, sou Eu mesmo” (Lc 24, 36.39). Como que dizendo: “Não temais, sou Eu, a grandeza!”

…e na Ascensão

Também na Ascensão é indescritível o quanto deve ter transparecido a grandeza d’Ele! Enquanto falava, ia Se elevando lentamente. À medida que Se aproximava do céu por sua própria força, e não levado por Anjos, ia ficando mais reluzente, mais majestoso!

Em certo momento, desaparece. Pode-se imaginar a alegria de Maria Santíssima por ver glorificado o Filho que Ela vira tão humilhado! De outro lado, entretanto, o que estava se passando n’Ela,  de tristeza por causa da separação…

Dr. Plinio dando uma reunião para cooperadores da TFP, em fevereiro de 1986

Havia, porém, mais um consolo para Nossa Senhora. Tenho a muito forte e vincada impressão de que Deus não recusou a Ela uma graça concedida a numerosos Santos: eles amaram tanto o Santíssimo Sacramento que, a partir de determinado momento de suas vidas, a Sagrada Eucaristia jamais deixou de estar neles presente. Comungavam e as Sagradas Espécies permaneciam no seu
interior até a Comunhão seguinte.

Foi o caso, por exemplo, de Santo Antônio Maria Claret, fundador da Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria, que viveu no século XIX. Ele foi um tabernáculo vivo de Jesus Eucarístico. Ora, se no período de gestação Nossa Senhora foi tabernáculo vivo do Verbo Encarnado, será que ao partir para o Céu Ele não terá mantido esse privilégio? Pelo menos desde a primeira Missa, creio que jamais Nosso Senhor deixou de estar presente em Maria.

Após a Ascensão, certamente Ela pensava: “Ele está no Céu, e está também aqui!” Os Apóstolos, por sua vez, com certeza cogitavam em celebrar já no dia seguinte e recebê-Lo, por tempo maior ou menor, em seus corações. A Presença Eucarística começava, assim, a consolar a Igreja dessa longa separação de muitos mil anos, que cessará quando Ele vier no dia do Juízo Final.

Pode-se imaginar grandeza régia comparável a essa? Pois bem, há mais.

Grandeza nas piores humilhações

Que Nosso Senhor fosse adorado no seu esplendor, está explicado. Mas não é só isso.

Os inimigos d’Ele, querendo achincalhá-Lo, sujeitaram-No às humilhações da Paixão. Ele bebeu inteira a taça de todas as dores e vexações possíveis, de ponta a ponta. Os algozes não supunham que, ao longo dos séculos, cada ultraje sofrido por Ele seria venerado e que, diante de imagens representando-O sentado com a coroa de espinhos, revestido do manto de irrisão e tendo a vara de cretino na mão, os maiores sábios se ajoelhariam e chorariam de emoção.

Os reis mais poderosos tomariam por elogio exagerado o serem comparados, de longe, a esse Rei sentado no trono dos bobos. Ele dignificaria de tal maneira a Cruz na qual fora cravado que, no alto de todas as coroas das nações católicas, ela seria o sinal da glória.

Quer dizer, ninguém foi, nem de longe, tão grande quanto Nosso Senhor, tanto nas horas de glória como nos momentos de pior humilhação. E mesmo nestas ocasiões Ele deu incríveis sinais de poder, como, por exemplo, ao bom ladrão. Ele o canonizou no alto do Calvário, prometendo-lhe, enquanto Rei do Céu e da terra: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43).

Notem que a promessa não é a seguinte: “Hoje estarás no Paraíso”. Jesus sabia que se não dissesse “estarás comigo”, a promessa não seria completa, pois um Paraíso sem Nosso Senhor não seria Paraíso. Que realeza!

Se Ele não foi grande, quem o foi?

Certa ocasião, um historiador  francês cético fez este comentário: os historiadores costumam passar por cima da figura de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ora, eu pergunto a eles: qual é o homem que, ao longo de todos os tempos, conseguiu que tantos outros se ajoelhassem com tanta humildade diante de sua imagem, considerando-se honrados por isso? Se tal Homem não é digno de entrar na História, o que faz a História? 

Os compêndios usados em colégios e universidades tratam de toda espécie de coisas, mas não de Jesus Cristo. Contudo, Nosso Senhor é o centro da História. Se Ele não foi grande, quem o foi?

Alguém poderia objetar: “Dr. Plinio, é simples. O senhor, levado pelo seu entusiasmo, está ladeando a seguinte dificuldade: há provas da existência de César, Carlos Magno e Napoleão. Quem prova, porém, que Jesus existiu?”

Ora, é a existência histórica mais certa que há! Todas as razões pelas quais nós acreditamos que César existiu nos levam a crer que Jesus Cristo existiu também!

Um cretino, certa vez, me perguntou: “Onde estão os originais dos Evangelhos?” Poderia ter-lhe dado esta resposta: “A Causa Católica estaria muito mal servida se o fosse por você! Porque, se houvesse em algum lugar uma pilha de pergaminhos contendo, supostamente, os originais dos quatro Evangelhos, quem nos garantiria serem, de fato, autênticos?” Eles poderiam ser objeto de culto, ou de investigação histórica como qualquer outro documento antigo, mas não uma prova da nossa Fé. Para isso, seria preciso provar que aquelas provas eram provas.

De outro lado, eu pergunto: onde estão os originais das Catilinárias de Cícero? Não obstante, quem põe em dúvida que Cícero existiu e que é o autor daquelas Catilinárias? Ninguém, por uma série de argumentos históricos, superabundantes no caso de Nosso Senhor.

O maior ódio da História

Os medíocres não despertam ódio. Há uma forma de grandeza régia em ser odiado como Jesus Cristo o foi, inclusive depois de morto. Até nisso Ele foi e é incomparavelmente grande.

Nosso Senhor será odiado com o maior ódio da História até o fim dos séculos e, quando o Anticristo vier, será uma espécie de personificação dessa sanha contra Nosso Senhor. Entretanto, a vitória final sobre o Anticristo será alcançada de um modo inédito para qualquer rei: “O Senhor Jesus o destruirá com o sopro de sua boca e o aniquilará com o resplendor da sua vinda” (cf. II Tes 2, 8).

Nem sequer precisa dar-lhe um peteleco; basta-Lhe um sopro! Reduzido o inimigo a pó, acaba a História e começa o julgamento! ² (Revista Arautos do Evangelho, Novembro/2019, n. 215, p. 26 a 29).

Extraído, com adaptações, de: Dr. Plinio. São Paulo. Ano XX. N.236 (nov., 2017); p.12-17
1 Do latim: “Coração de Jesus, de majestade infinita, tende piedade de nós”

 
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