Santo Adalardo ou Adelardo provinha de uma família de grandes e santas personagens, cujos descendentes ainda hoje ocupam vários tronos na Europa. O principal antepassado dessa família é Santo Arnulfo, prefeito do palácio de Austrásia, bispo de Metz, e anacoreta nas montanhas de Vosges. São seus bisnetos Carlos Martelo, o rei Pepino o Breve, o imperador Carlos Magno, do qual se gabam de descender mais ou menos diretamente quase todas as famílias soberanas.

Adalardo, cuja vida foi escrita por dois santos, Gérard e Pascase-Radbert, era neto de Carlos Martelo, filho de Bernardo, sobrinho do rei Pepino, e primo de Carlos Magno. Veio ao mundo pelo ano de 753, e foi criado na corte com os demais príncipes. Eginardo, por volta de 771, o colocou entre os condes e grandes que compunham a corte de Carlomano, rei da Austrásia. Com a idade de vinte anos, retirou-se para o mosteiro de Corbie, na França, e, após um ano de noviciado, professou. . Confiaram-lhe o cuidade do jardim, trabalho que servia de piedosa meditação. O primeiro jardineiro foi nosso primeiro pai, melhor, o próprio Deus, que plantou o jardim das delícias e nele colocou nossos antepassados. Era ao jardim das Oliveiras que o Salvador mais gostava de retirar-se com seus discípulos. Foi num jardim que o sepultaram. Foi num jardim que as santas mulheres procuraram morto, e o encontraram ressuscitado.

Em cada um de nós é a alma um jardim de Deus, que devemos cultivar e vigiar cuidadosamente. Assim meditava o irmão Adalardo. Mas, não logrando tolerar visitas dos parentes, os louvores que recebiSANTO ADALARDO.jpga e as questões mundanas de que lhe falavam, fugiu secretamente para a Itália, e se retirou ao monte Cassino, considerado fonte da vida religiosa. Esperava lá viver oculto, mas não ficou muito tempo sem ser reconhecido, e em breve exigiu Carlos Magno que regressasse.

Pouco depois da sua volta a Corbie, foi eleito, com o consentimento do abade, sucessor deste. Em seguida, Carlos Magno enviou à Itália, a fim de que assistisse, com os seus conselhos ao jovem Pepino, seu filho, coroado rei dos lombardos em 781. Adalardo para lá rumou e de tal modo se portou que diziam ser um anjo caído do céu. Inacessível aos presentes, era o terror dos grandes e o consolo dos pobres. Em primeiro lugar reprimiu a tirania dos poderosos, restabeleceu a justiça e reteve todos nos limites das suas respectivas funções. Conquistou de tal maneira a confiança do Papa São Leão II, que este Pontífice lhe dizia, rindo: "Sabei que, se um dia descobrir que sois outro que não o que vos julgo, nunca mais confiarei em nenhum dos francos." As cidades de Benevento e Espoleto empenhavam-se numa luta cruel; ele foi a Benevento, e entre as duas cidades estabeleceu uma paz sólida, de modo que a fama se lhe estendeu até os gregos e os habitantes das ilhas. Entre os seus amigos literatos, davam-lhe umas vezes o nome de Agostinho, outras de Antonio. Chamavam-lhe Agostinho, em virtude da eloquência e do amor aos trabalhos do santo doutor; Antonio porque se esforçava, como este santo, em, imitar as virtudes dos outros e em reuní-las em si.

Tendo Carlos Magno morrido em 814 e cabendo-lhe por sucessor o filho Luís o Piedoso, Santo Adalardo, após governar o reino da Itália com bastante sabedoria, voltou ao mosteiro de Corbie, na Françca. Luís era bom, mas meticuloso e desconfiado. Antes do fim do ano, privou dos seus favores Santo Adalardo e seus dois irmãos. Vala e Bernardo, além das irmãs deles, Gondrada e Teodrata. Adalardo foi exilado para a ilha e mosteiro de Moirmoutiers; Bernardo, monge em Corbie, foi relegado a Lérins; Gondrada a Poitiers, no mosterio da Santa Cruz, onde levou uma vida de edificação; Teodrata, já religiosa no mosteiro de Soissons, lá continuou tranquilamente. O conde Vala, privado dos favores como os outros, valeu-se disso para abandonar o mundo e fazer-se monge em Corbie.

Adalardo santificava-se com júbilo no exílio, quando foi chamado de volta em fins de 821. O imperador Luís testemunhou-lhe arrependimento pelo que se passara, e lhe devolveu toda a confiança. Adalardo quis renunciar à dignidade de abade, mas os seus religiosos recusaram-se a consentir em tal desejo. Visitava frequentemente as diferentes casas que dependiam de seu mosteiro. Em Saxe, concebeu o projeto de fundar um novo convento, no qual se formariam missionários para a conversão dos povos do norte. Recebeu o nome de nova Corbie. Santo Anscário, discípulo de Abalardo, de lá iria sair para divulgar a Fé cristã na Suécia, Noruega, Islândia e até Groelândia, que faz parte da América do Norte.

Tinha Adalardo a alma repleta de doçura e compaixão, não lhe conhecendo limites a caridade para com os pobres. Era tamanha a sua piedade que o canto da Igreja lhe fazia verter constantemente lágrimas. Adoeceu na velha Corbie três dias antes do Natal. Comungava todos os dias. Hildeman, seu discípulo, então bispo de Beauvais, lhe ministrou a extrema unção. Jesus Cristo apareceu-lhe, para chamá-lo à recompensa celeste. Finalmente, morreu em 2 de Janeiro de 827, algumas horas após receber o santo viático. Os seus dois santos biógrafos citam diversos milagres verificados no seu túmulo

(Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume I, p. 98 à 101)