São Fidélis, capuchinho e mártir, nasceu no ano de 1577, em Sigmaringa, pequena cidade da Alemanha, na Suábia.
Seu pai chamava-se João Rey.
Fez os primeiros estudos na universidade de Friburgo, na Suíça.
Aplicou-se extraordinariamente à jurisprudência e formou-se doutor em direito.
Levou uma vida mortificada, não bebendo vinho e trazendo sempre o cilício.
As virtudes que praticou, entre outras a modéstia e a doçura, valeram-lhe a estima e a veneração de todos os que o conheceram.
Em 1604, partiu com três jovens gentis-homens, que foram enviados a viajar pelas diferentes partes da Europa.
Fidélis procurou principalmente inspirar-lhes os mais vivos sentimentos de religião.
Sem cessar, dava-lhes exemplo da piedade mais terna.
Não deixava passar nenhuma grande festa sem se aproximar da Santa Comunhão.
Em todas as cidades que se encontravam no caminho a ser por ele percorrido, visitava as igrejas e os hospitais e ajudava os pobres, segundo as possibilidades.
Chegou até, algumas vezes, a se despojar das próprias roupas, para vestir os indigentes.
Advogado dos pobres
Após essas viagens, obteve em Colmar, na Alsácia, um lugar na magistratura, cargo que exerceu com muito êxito.
A justiça e a religião eram a regra invariável de todo o seu modo de agir.
Interessava-se vivamente pelos indigentes, fato que lhe valeu o cognome de advogado dos pobres.
Algumas injustiças que não pode impedir lhe inspiraram desgosto pelo cargo que ocupava.
Temendo não ter forças para resistir às ocasiões de pecados, resolveu abandonar o mundo e retirar-se para o convento dos capuchinhos de Friburgo.
Vestiu o hábito no ano de 1612 e recebeu do superior o nome de Fidélis.
Deu os bens que possuía à biblioteca e ao seminário do Bispo, a fim de poder ajudar os jovens clérigos, que não eram suficientemente favorecidos pela fortuna.
Todos os outros bens foram distribuídos entre os pobres.
Entrada na vida religiosa e conversão dos calvinistas
Desde o momento em que se fez religioso, não sentiu ardor senão pelas humilhações e austeridades da penitência.
Renunciou à própria vontade, para fazer apenas o que os superiores lhe ordenassem.
As tentações que o assaltaram não conseguiram desencorajá-lo.
Venceu-as, confiando-se ao diretor espiritual, cujos conselhos seguia com docilidade.
As mortificações prescritas pela regra não eram suficientes ao fervor que o dominava.
No advento, na quaresma e nas vigílias das festas, comia apenas pão, frutas secas e tomava água.
Nada era capaz de interromper-lhe o recolhimento da alma.
Nas orações, pedia sobretudo a graça de não cair nem no pecado nem na tibieza.
Não havia ainda terminado o curso de Teologia, e o encarregaram de pregar a palavra de Deus e de ouvir as confissões dos fiéis.
Desempenhou ambos os encargos com grande êxito.
Superior do convento de Weltkirch, operou prodígios de conversão nessa cidade e nos lugares vizinhos, descerrando o véu que cobria os olhos aos calvinistas.
A notícia dos frutos que acompanhavam seus trabalhos apostólicos chegou até Roma.
A congregação da Propaganda, então, o nomeou para ir pregar aos grisões.
Foi o primeiro missionário a ser enviado a esse povo, desde que abraçara o calvinismo.
Associaram-lhe oito religiosos de sua ordem, os quais deviam trabalhar sob sua direção. Não se deixou bater nem pelas fadigas nem pelas ameaças que lhe fizeram de lhe tirar a vida.
Converteu dois gentis-homens calvinistas, nas primeiras conferências.
Um homem que não temia a morte
Em 1622, penetrou no cantão de Prétigout e converteu muitos hereges, fato que se atribui menos à palavra que pregou do que ao fervor e à continuidade das orações.
Tantas conversões fizeram com que os calvinistas entrassem em estranho furor, chegando a tomar armas contra o imperador.
Resolveram acabar com elas, desfazendo-se daquele que lhes era o principal causador.
O santo missionário, informado das decisões, preparou-se para o que desse e viesse.
No dia 24 de abril de 1622, confessou-se a um dos companheiros, rezou Missa e pregou na aldeia de Gruch.
O sermão desse dia foi mais ardente do que os anteriores.
Predisse sua morte a várias pessoas e, desde então, passou a assinar as cartas da seguinte forma:
"Irmão Fidélis, que deve, em breve, ser pasto dos vermes".
De Gruch foi pregar em Sevis, onde exortou com veemência os católicos a permanecerem firmemente presos à fé.
Um calvinista procurou alvejá-lo na igreja.
Inutilmente os fiéis lhe rogaram que se retirasse.
Respondeu que não temia a morte, que estava pronto a sacrificar a vida pela causa de Deus.
Martírio de São Fidélis
Enquanto o santo retornava a Gruch, caiu nas mãos de uma tropa de soldados calvinistas, que estavam sendo chefiados por um ministro.
Trataram-no de sedutor e quiseram forçá-lo a abraçar o calvinismo.
— Que me propondes? – disse Fidélis.
E acrescentou:
— Vim ao vosso meio para refutar erros e não para adotá-los.
A Doutrina Católica é a fé de todos os séculos e não vejo por que renunciá-la.
De resto, sabei que não temo em absoluto a morte.
Um do grupo o atirou por terra.
Levantando-se, pôs-se, de joelhos e fez a seguinte oração:
"Senhor, perdoai meus inimigos. Cegos pela paixão, não sabem o que fazem.
Senhor Jesus, tende piedade de mim!
Santa Maria, Mãe de Jesus, assisti-me!"
Terminada essa oração, recebeu a segunda pancada que o atirou ao chão banhado em sangue.
O furor dos soldados não se satisfez com isso.
Furaram-lhe o corpo com punhaladas e cortaram-lhe a perna esquerda.
A bem-aventurada morte aconteceu-lhe em 1622. Estava com quarenta e quatro anos de idade e dez de profissão.
Os católicos o enterraram no dia seguinte.
Algum tempo depois, os imperiais desfizeram os calvinistas, de acordo com uma profecia do santo.
O ministro que se colocara à frente dos soldados ficou tão comovido com o fato, que se converteu e abjurou publicamente a heresia.
Restos mortais
O corpo do santo missionário se encontra na igreja dos capuchinhos de Weltkirch.
A perna esquerda e a cabeça, que tinham sido separadas do tronco, estão na catedral de Coire.
A transladação delas se fez com muita solenidade.
Grande número de milagres foi operado por intercessão do servidor de Deus.
Foi beatificado por Bento XIII, em 1729, e canonizado por Bento XIV, em 1746.
Seu nome foi inscrito no Martirológio Romano, para ser celebrado no dia 24 de abril.