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Voz dos Papas


Renovar todas as coisas em Cristo
 
AUTOR: REDAÇÃO
 
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Em nossas obras e palavras, sejam santamente honrados e respeitados o direito de Deus e seu poder de governar. E isto não só é exigido pelo dever imposto pela natureza, mas também pelo interesse comum do gênero humano.

No momento em que vos dirigimos pela primeira vez a palavra do alto desta cátedra apostólica, à qual, pela vontade imperscrutável de Deus, fomos elevados, não vem ao caso recordar com que lágrimas e ardentes orações tentamos afastar de nós este tremendo peso do Pontificado. […]

Entretanto, uma vez que aprouve a Deus elevar nossa humildade a esta plenitude de poder, dirigimos o espírito Àquele que nos conforta e, sustentados pela virtude divina enquanto colocamos mão à obra, declaramos que no exercício deste Pontificado temos um só propósito: “Renovar todas as coisas em Cristo” (Ef 1, 10), a fim de que Cristo seja “tudo em todos” (Col 3, 11).

São Pio X..jpg
Onde Deus está ausente, a justiça é banida;
e abandonada a justiça, em vão
se nutrem esperanças de paz

São Pio X em seu escritório

Haverá certamente alguns que, aplicando às coisas divinas uma medida humana, tentarão deturpar nossas intenções íntimas para transformá-las em fins terrenos e interesses de partido. Para tirar a estes toda vã esperança, afirmamos com grande determinação que outra coisa não queremos ser – e com a ajuda de Deus o seremos na sociedade humana – senão ministros de Deus, o qual nos investiu de sua autoridade. […]

Pretende-se suprimir a memória e a noção de Deus

De fato, as nações tumultuam e os povos tramam vãs conspirações contra o seu Criador (cf. Sl 2, 1), e quase unânime é o grito dos inimigos de Deus: “Afastai-Vos de nós” (Jó 21, 14).

Na maioria dos homens foi inteiramente extinta a reverência para com o Deus eterno, e na conduta de vida, tanto pública como privada, não se tem em nenhuma consideração o princípio da sua vontade suprema; pelo contrário, se tende a suprimir completamente, com todas as forças e com todo artifício, até mesmo a memória e a noção de Deus.

Quem considera isso deve também temer que esta perversão dos ânimos seja uma espécie de ensaio, quase uma antecipação, dos males que estão previstos para o fim dos tempos, quando o “filho da perdição” (II Tes 2, 3) de que fala o Apóstolo já pise estas terras.

Com suma audácia e fúria vem sendo atacada em todos os lugares a piedade religiosa, são contestados os dogmas da Fé revelada, e tenta-se obstinadamente eliminar e cancelar qualquer relação entre o homem e Deus! E na verdade, com uma atitude que, segundo o Apóstolo, é própria do Anticristo, o homem, com temeridade sem precedentes, usurpou o lugar do Criador, elevando-se acima de tudo o que traz o nome de Deus.

E isso a tal ponto que, embora não podendo extinguir completamente em si a noção de Deus, rejeita todavia o jugo da sua majestade, e dedica a si mesmo, como um templo, este mundo onde se oferece à adoração dos outros. “Senta-se no santuário de Deus, proclamando-se deus” (II Tes 2, 4).

É de Deus que depende sempre a vitória

Mas ninguém no seu perfeito ­juízo pode questionar o ­desenlace da batalha travada pelos mortais contra Deus. É de fato concedido ao homem, que abusa da própria liberdade, violar o direito e a autoridade do Criador do universo; no entanto, é de Deus que depende sempre a vitória, e ao homem rebelde está tanto mais próxima a derrota, quanto mais ele se insurge com audácia ambicionando seu triunfo.

Deus mesmo nos adverte nas Sagradas Escrituras que “fecha os olhos aos pecados dos homens” (Sb 11, 23), como que olvidado de seu poder e de sua majestade. Mas, logo depois deste aparente recuo, despertará “como de um sono, como se fosse um guerreiro dominado pelo vinho” (Sl 77, 65), e partirá “a cabeça de seus inimigos” (Sl 67, 22) de modo que todos compreendam “que Deus é o rei de toda a Terra” (Sl 46, 8), e “para que saibam que não passam de simples homens” (Sl 9, 21).

Há apenas um partido: o dos seguidores de Deus

Tudo isso, Veneráveis Irmãos, faz parte de nossa firme fé bem como de nossas expectativas. No entanto, essa confiança não nos dispensa, naquilo que de nós depende, de favorecer a realização da obra de Deus, e não só insistindo na oração: “Levantai-vos, Senhor, e não permitais que o homem prevaleça” (Sl 9, 20).

Na verdade, interessa sobretudo que nas obras e palavras, em plena luz, discutindo e reivindicando o supremo domínio de Deus sobre os homens e sobre todas as outras criaturas, sejam santamente honrados e respeitados por todos o seu direito e seu poder de governar. E isto não só é exigido pelo dever imposto pela natureza, mas também pelo interesse comum do gênero humano.

Quem, de fato, Veneráveis Irmãos, não se sentirá perturbado pelo temor e angústia ao ver que os homens – enquanto exaltam, com justa razão, os progressos humanos – lutam cruelmente entre si quase a figurar a existência de uma guerra de todos contra todos?

O desejo de paz é certamente um sentimento comum a todos, e não há ninguém que não a evoque ardentemente. Todavia, uma vez que se negue a Deus, a paz é absurdamente invocada: onde Deus está ausente, a justiça é banida; e abandonada a justiça, em vão se nutrem esperanças de paz. “A paz é obra da justiça” (Is 32, 17).

Sabemos com efeito que não são poucos aqueles que, movidos por amor à paz, e até mesmo à tranquilidade e à ordem, se agrupam em associações e facções que se definem em “partido da ordem”. Oh, que vãs esperanças e vãs fadigas! Dos partidos da ordem, que podem trazer a verdadeira paz às perturbações, há apenas um: o partido dos seguidores de Deus. […]

A piedade é útil a todas as coisas

Certamente, se nas cidades e em cada aldeia os ensinamentos divinos forem fielmente seguidos, se forem honradas as coisas sagradas, se os Sacramentos forem frequentados, se vierem a ser observados todos os princípios que amoldam a vida cristã, então nada mais faltará, Veneráveis Irmãos, para que contemplemos a restauração de todas as coisas em Cristo.

E não se creia que tudo ­isso se refere somente à aquisição dos bens eternos: o convívio social e os interesses temporais também aproveitarão muito felizmente disso. Na verdade, uma vez obtidos esses resultados, os nobres e os ricos, com senso de caridade e justiça, estarão junto aos mais pobres, e estes suportarão na tranquilidade e na paciência as angústias de sua desditosa condição; os cidadãos já não obedecerão às suas paixões, mas às leis; todos considerarão justo o respeitar e amar os príncipes e governantes, pois “não há autoridade que não venha de Deus” (Rm 13, 1).

O que dizer ainda? Então, por conseguinte, todos serão convencidos de que a Igreja, tal como foi fundada por Cristo, deve gozar de plena e inteira liberdade e não estar submetida a poderes estranhos; e nós, ao reivindicar esta mesma liberdade, não só protegemos os sacrossantos direitos da Religião, mas também atendemos ao bem comum e à segurança dos povos. “A piedade é útil a tudo” (I Tim 4, 8), e lá onde esta é íntegra e reina “o meu povo habitará em morada de paz” (Is 32, 18). (São Pio X. Excertos da Encíclica “E supremi”, 4/10/1903)

 
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