Os diferentes fenômenos de degradação ambiental e as calamidades naturais que infelizmente, não raro, a crônica registra, evocam-nos a urgência do respeito devido à natureza, recuperando e valorizando, na vida de todos os dias, uma relação correta com o meio ambiente.
No que se refere a estes temas, que suscitam a justa preocupação das autoridades e da opinião pública, vai-se desenvolvendo uma nova sensibilidade, que se exprime na multiplicação de encontros, também no plano internacional.
O mau uso da Criação começa onde Deus é marginalizado ou se nega sua existência
A Terra é um dom precioso do Criador, que delineou os ordenamentos intrínsecos, indicando-nos assim os sinais orientativos que devemos respeitar como administradores da sua criação.
É precisamente a partir desta consciência que a Igreja considera as questões ligadas ao meio ambiente e à sua salvaguarda intimamente vinculadas ao tema do desenvolvimento humano integral.
Referi-me várias vezes a estas questões na minha última Encíclica, Caritas in veritate, evocando a “urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade”.1
Não apenas nas relações entre os países, mas também entre os homens individualmente, porque o ambiente natural é oferecido por Deus a todos, e o seu uso comporta uma nossa responsabilidade pessoal por toda a humanidade, de modo particular pelos pobres e as gerações futuras.2
Sentindo a comum responsabilidade pela criação,3 a Igreja não apenas está comprometida em promover a defesa da terra, da água e do ar, oferecidos pelo Criador a todos, mas sobretudo compromete-se em proteger o homem contra a destruição de si mesmo.
Com efeito, “quando a ‘ecologia humana’ é respeitada dentro da sociedade, beneficia também a ecologia ambiental”.4
Não é porventura verdade que o uso desconsiderado da criação começa lá onde Deus é marginalizado ou onde se chega a negar até a sua existência?
Se vier a faltar a relação da criatura humana com o Criador, a matéria fica reduzida a uma posse egoísta, o homem torna-se “a última instância”, e a finalidade da existência reduz-se a ser uma corrida ofegante para possuir quanto mais possível.
O homem é chamado a conservar, fazer frutificar e cultivar a natureza
Portanto, a criação, matéria estruturada de modo inteligente por Deus, está confiada à responsabilidade do homem, que é capaz de a interpretar e de a voltar a modelar ativamente, sem se considerar seu senhor absoluto.
Ao contrário, o homem é chamado a exercer um governo responsável para a conservar, fazer frutificar e cultivar, encontrando os recursos necessários para uma existência digna de todos.
Com a ajuda da própria natureza e com o empenho do seu trabalho e da sua inventiva, a humanidade é verdadeiramente capaz de cumprir o grave dever de transmitir às novas gerações uma terra que, também elas por sua vez, poderão habitar de maneira digna e cultivar ulteriormente.5
Para que isto se realize, é indispensável o desenvolvimento “daquela aliança entre ser humano e ambiente, que deve ser espelho do amor criador de Deus”,6 reconhecendo que todos nós derivamos de Deus e rumo a Ele estamos todos a caminho.
A salvaguarda do meio ambiente exige ação conjunta
Então, como é importante que a comunidade internacional e os governos individualmente saibam oferecer os sinais justos aos próprios cidadãos, para contrastar de modo eficaz as modalidades de utilização do meio ambiente que lhe sejam prejudiciais!
Os custos econômicos e sociais, derivados do uso dos recursos ambientais comuns, reconhecidos de maneira transparente, devem ser assumidos por aqueles que os usufruem, e não por outras populações, nem pelas gerações futuras.
A salvaguarda do meio ambiente, a tutela dos recursos e do clima exigem que os responsáveis internacionais ajam de forma conjunta, no respeito pela lei e pela solidariedade, principalmente em relação às regiões mais débeis da terra.7
Em conjunto, podemos construir um desenvolvimento humano integral, em benefício dos povos, presentes e futuros, um desenvolvimento inspirado nos valores da caridade na verdade.
A fim de que isto se verifique, é indispensável transformar o atual modelo de desenvolvimento global numa tomada de responsabilidade, maior e mais compartilhada em relação à criação: exigem-no não só as emergências ambientais, mas inclusive o escândalo da fome e da miséria.
Estimados irmãos e irmãs, demos graças ao Senhor e façamos nossas as palavras de São Francisco, no Cântico das criaturas: “Senhor altíssimo, onipotente e bom, teus são os louvores, a glória, a honra e todas as bênçãos… Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas”.
Assim rezava São Francisco. Também nós queremos orar e viver no espírito destas palavras.
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