O tempo litúrgico que celebramos ao longo do ano torna presente nas almas dos fiéis as graças específicas dos diversos acontecimentos da História da salvação nele rememorados.

Portanto, não se trata apenas, nem principalmente, da evocação de fatos pretéritos, mas sim da representação – no sentido de tornar de novo presente – de algo antes latente.

Como sabemos, o Advento aponta para o evento natalino, bem como para a segunda vinda do Senhor, grande expectativa da Igreja. É um tempo entranhadamente mariano, pois foi por meio de Maria que Jesus veio ao mundo, a este mundo cujos dias acabarão no fim dos tempos, quando o Filho da Virgem vier encerrar a História e julgar os vivos e os mortos.

A incerteza é uma nota saliente do acontecer neste vale de lágrimas: imprevistos, desilusões, desmentidos, esperas infindáveis ou surpresas pouco agradáveis… todo tipo de contingências.

Contudo, temos em nossa vida cotidiana uma certeza ineludível: a eternidade nos espera e acabará abraçando-nos definitivamente.

Com efeito, seremos colocados à direita ou à esquerda do Supremo Juiz (cf. Mt 25, 31-46), o que significa apenas duas opções: a elevação ao Céu, para gozarmos da visão beatífica por toda a eternidade, ou a fatal queda no inferno. Tertium non datur: não há uma terceira possibilidade.

Portanto, é de absoluta necessidade que não fracassemos em nosso empenho de alcançar a glória, porque senão teremos vivido inutilmente, ofendendo a Deus e arruinando seu projeto.

O dilema se revela da maior importância. Por isso o Evangelho deste domingo é tão claro, conciso e insistente em nos estimular a vigiar sem tréguas, pondo-nos em estado de contínua atenção.

Engana-se quem pensa que basta a oração para alcançar de Deus as graças das quais precisamos. Em outro trecho do Evangelho, o mesmo São Marcos compila estas palavras do Senhor: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação! O espírito está pronto, mas a carne é fraca” (14, 38).

Lição semelhante nos dá a tão conhecida parábola das virgens prudentes e das néscias (cf. Mt 25, 1-13). Sim, a vigilância precede o exercício da oração, e este último requer necessariamente a cautela em predispor o espírito para que ela seja fecunda, e não algo ocasional ou de mera rotina.

A falta de vigilância na espera do senhor – ou, como narra outra parábola, o descuido para não sucumbir ante a chegada do ladrão (cf. Mt 24, 43) – é o que se põe em realce no Evangelho de hoje:

“Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer. Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo” (Mc 13, 35-36).

Este “dormindo” se refere ao sono orgânico do corpo, mas principalmente a um certo torpor que debilita as potências do espírito. É um “sono” que costuma associar-se ao relativismo, ditadura que desmobiliza a beligerância e predispõe a todos os compromissos com o mal.

“Vigiai!” Conselho de grande valia para cada fiel, para cada família, para cada comunidade. O Evangelho deste I Domingo do Advento conclui: “O que vos digo, digo a todos: Vigiai!” (Mc 13, 37).

“A todos”. Portanto, também a você, prezado leitor destas reflexões.