O que significa ser missionário?
O grande e sublime encargo que Nosso Senhor Jesus Cristo confiou aos seus discípulos ao dizer-lhes “ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15), não podia terminar com a morte dos Apóstolos, mas devia continuar, através dos seus sucessores, até o fim dos tempos.
Mesmo durante os três primeiros séculos do Cristianismo, quando a fúria das perseguições, desencadeadas pelos infernos, inundava de sangue a Igreja nascente, a voz do Evangelho foi proclamada em todo o Império Romano.
Quando posteriormente foi concedida a paz e a liberdade à Igreja, alcançaram-se ainda maiores progressos no apostolado em todo o mundo, sobretudo pela mão de pessoas que se distinguiam por seu zelo e santidade. […]
Alguns deles, desejando a salvação dos irmãos, a exemplo dos Apóstolos, alcançaram o máximo da perfeição. Muitos outros coroaram o seu apostolado com o martírio, tendo selado a sua fé com o sangue.
Na verdade, é motivo de grande preocupação constatar como, depois de tantos sofrimentos associados ao anúncio da Fé, depois de tantos trabalhos e exemplos de fortaleza, sejam ainda tantos os que permanecem nas trevas e nas sombras da morte […].
Nesse sentido, querendo por compaixão e dever apostólico fazê-los participantes da Redenção divina, vemos com grande alegria que, sob a orientação do Espírito de Deus, cada dia aumenta mais, em várias partes da Cristandade, o zelo dos bons na promoção e desenvolvimento das missões no meio dos povos. […]
Para aqueles que se preparam para o apostolado, é indispensável acima de tudo […] a santidade de vida. É necessário que seja um homem de Deus aquele que prega Deus; e odeie o pecado aquele que tal ódio ensina […].
Ainda que o missionário esteja provido dos melhores dotes de mente e coração, mesmo que seja repleto de doutrina e cultura, se estas qualidades não aparecerem associadas a uma vida santa, bem pouca ou mesmo nenhuma eficácia terão para a salvação dos povos; antes, causarão dano a ele e aos outros.
Seja o missionário exemplarmente humilde, obediente e casto; seja especialmente piedoso, dedicado à oração e viva em contínua união com Deus, intercedendo junto d’Ele pela causa das almas. Quanto mais unido estiver a Deus, tanto mais abundantemente lhe será concedida a graça do Senhor. […]
Afastados todos os obstáculos com a ajuda dessas virtudes, é fácil e espontâneo o acesso da verdade aos corações dos homens; não existe vontade tão obstinada que lhe possa resistir.
Por isso, o missionário que, à imitação do Senhor Jesus, arda de caridade, reconhecendo como filhos de Deus também os mais afastados, não se irrita pela sua rudeza, não os despreza nem desdenha, mas procura atraí-los com toda a ternura da bondade cristã, para conduzi-los um dia a Cristo, o Bom Pastor […].
Que adversidade, angústia ou perigosa contingência poderá desencorajar um tal mensageiro de Jesus Cristo? Nenhuma.
Reconhecido para com Deus que o chamou a uma missão tão sublime, está disposto a tudo, a tolerar generosamente as dificuldades, os insultos, a fome, as privações, até a morte mais cruel, para resgatar uma só alma.
Excertos de: BENTO XV. Maximum illud: AAS 11 (1919), 440-450
A maior obra de caridade
Não necessitamos insistir no quanto seria indigno da caridade, pela qual devemos abraçar a Deus e a todos os homens, que, contentes em pertencer ao rebanho de Cristo, não nos preocupássemos com os que andam errantes fora de seu redil.
Nosso dever de caridade em relação a Deus exige, sem dúvida, não só que procuremos aumentar o quanto possível o número daqueles que já O conhecem e adoram “em espírito e verdade” (Jo 4, 24).
Ele também consiste em que submetamos ao império de nosso amantíssimo Redentor quantos mais possamos, para que se obtenha cada vez melhor “proveito de seu Sangue” (Sl 29, 10) e nos tornemos mais agradáveis a Ele pois, acima de tudo, compraz-Lhe que os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (cf. I Tim 2, 4).
Se Cristo indicou como nota característica de seus discípulos o amor recíproco (cf. Jo 13, 35; 15, 12), poderemos nós mostrar maior ou mais perfeita caridade aos nossos irmãos do que procurar arrancá-los das trevas da superstição e iluminá-los com a verdadeira Fé de Jesus Cristo?
Este benefício, não duvideis, supera as demais obras e demonstrações de caridade tanto quanto avantaja-se a alma ao corpo, o Céu à terra e o eterno ao temporal.
Excerto de: PIO XI. Rerum Ecclesiæ: AAS 18 (1926), 68
Dois campos de batalha: por Cristo ou contra Cristo
Conheceis muito bem, veneráveis Irmãos, que o gênero humano quase todo tende hoje rapidamente a separar-se em dois opostos campos de batalha, por Cristo ou contra Cristo. Vê-se agora num momento decisivo, de que há de sair ou a salvação de Cristo ou tremenda ruína.
A veemente atividade e zelo dos pregoeiros do Evangelho procura, é certo, dilatar o Reino de Cristo; mas há outros pregoeiros que, reduzindo tudo à materialidade e rejeitando toda a esperança de eternidade feliz, procuram reduzir os homens à condição indigníssima.
Mais um motivo para a Igreja Católica, mãe extremosa de todos os homens, convocar os seus filhos sem exceção para ajudarem quanto puderem os semeadores da verdade evangélica com esmolas, orações e interesse pelas vocações missionárias.
Como mãe, insiste ainda para que revistam entranhas de misericórdia (cf. Col 3, 12), participem do trabalho apostólico – se não de fato, ao menos de coração – e, numa palavra, não consintam que fique inútil o desejo do benigníssimo Coração de Jesus que “veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10).
Igreja de Santo Inácio, Bogotá
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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