Como e quando surgiu a ideia de propor a via pulchritudinis como tema para uma Assembleia Plenária?
Esse assunto já havia aflorado em diversas reuniões do Pontifício Conselho para a Cultura, mas foi na penúltima Assembleia, em 2004, cujo tema foi A Igreja ante o desafio da não-crença e da indiferença religiosa, que se viu a necessidade de tratar da via pulchritudinis, quer dizer, da beleza como caminho de aproximação de Deus e de evangelização.
A Assembleia Plenária alcançou sua finalidade?
O primeiro objetivo, de tratar do tema, foi alcançado, e com a presença de muitos consultores do Pontifício Conselho, que tinham vindo a Roma para participar do Consistório.
Não existem receitas fáceis, nem nesse campo nem em outros, mas creio que se conseguiu chamar a atenção dos Bispos e dos pastores para a importância dessa matéria, mesmo porque ela despertou grande interesse nos meios de comunicação.
Sobre resultados concretos, o tempo o dirá.
O objetivo principal da Plenária era colocar esse tema em foco…
E oferecer propostas concretas do tipo pastoral. Não se tratava apenas de refletir sobre esse tema – já existem muitos estudos –, mas de oferecer pistas às conferências episcopais, aos Bispos, aos religiosos, aos sacerdotes que trabalham nas paróquias.
Surgiram propostas concretas?
O Cardeal Poupard, nas conclusões, sintetizou as principais propostas.
Em primeiro lugar, é preciso haver uma união mais estreita entre liturgia, teologia e pastoral. O que quer dizer isso? Para a maioria dos fiéis, o contato com a vida da Igreja se dá através da celebração dos Sacramentos, especialmente da Missa dominical.
Portanto, tal celebração precisa se destacar pelo cuidado na liturgia: deve transmitir algo da beleza de Deus, da grandeza e da beleza da vida cristã. Isso só se consegue caminhando-se junto com a teologia e a pastoral.
Muitas vezes se faz um trabalho de pastoral desligado da Eucaristia, e houve lugares onde se procurou dar ênfase apenas ao rito, sem uma conexão forte com a teologia.
Temos um importante patrimônio cultural, especialmente nos países de maior tradição católica da Europa e da América Latina. Devemos colocá-lo a serviço do Evangelho.
Como dizia o Cardeal Poupard, esse tesouro foi reunido em função do culto e da transmissão do Evangelho, e tem de ser testemunha, não pode ficar sequestrado nas mãos dos guias turísticos, reduzido a simples museu.
Devemos criar novos meios e propostas; por exemplo, dar formação aos guias turísticos, que muitas vezes transmitem uma mensagem diferente da nossa. Abrimos a casa para que eles desfaçam nosso trabalho.
Isso acontece também, infelizmente, em algumas escolas: temos uma estupenda rede de colégios e universidades, mas, se não formarmos os professores, estaremos colocando essa estrutura a serviço da difusão de modelos de vida contrários ao Evangelho.
Um tema frequentemente tratado na plenária foi o dos jovens: como educá-los para a beleza. Requer-se um esforço e uma pedagogia. Falou-se muito em recuperar a catequese mistagógica.
Na práxis da Igreja antiga havia uma catequese anterior ao Batismo, visando à conversão da vida e à mudança de costumes, e depois a catequese mistagógica, que introduzia o neobatizado na compreensão dos mistérios celebrados.
É preciso fazer compreender a beleza da liturgia e dos Sacramentos.
Alguns podem pensar que esse tema está restrito à esfera religiosa, sem conexão com a manifestação da beleza em âmbitos estritamente civis, culturais. Foi também um ponto de análise?
Sim, foi. O Instrumentum laboris estava articulado em três grandes blocos: a beleza na Criação, a beleza na Liturgia e a beleza da Vida Cristã. O que se propôs foi uma reflexão acerca da beleza enquanto tal, não apenas reduzida a uma perspectiva.
Como aproveitar o desejo inato de beleza que há no homem, para aproximá-lo de Deus. É um caminho de ida e volta: Deus fala aos homens pela beleza, e a beleza permite-lhes aproximar-se de Deus. Esse tema ultrapassa o âmbito puramente religioso.
O senhor mencionou o desejo inato da beleza. O fato de a cultura dominante relegar a beleza a um segundo plano é resultado de alguma ideologia?
Santo Agostinho foi um dos grandes protagonistas de nossa Assembleia, pois ele demonstra a força do desejo da beleza. Nas Confissões, ele escreve: “Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova; tu estavas dentro de mim e eu não te escutava”.
Se esse desejo é inato em todos os homens, como também é o desejo de felicidade, por que vivemos numa cultura que privilegia os aspectos banais, superficiais, vulgares das coisas?
Porque a beleza está permanentemente ameaçada. Ela é obscurecida pelo pecado. Ela é exigente, e o pecado propõe soluções fáceis.
Vivemos marcados pela experiência ideológica do marxismo, a doutrina que põe no centro a práxis do homem, ou seja, aquilo que o homem faz.
Ora, a beleza exige uma atitude que não é a de fazer, mas a de contemplar, mesmo no caso da criação artística. O artista cria a beleza, mas ela tem de ser contemplada e saboreada. Isso não condiz com o ritmo de vida do nosso tempo.
Esse materialismo do marxismo seria uma causa dessa concepção…
Não apenas o marxismo, mas a ideologia da práxis, com suas diversas modalidades, tanto no mundo politicamente dominado pelo comunismo – que se converteu numa pseudorreligião –, como também no Ocidente, dominado pelo fazer, pelo produzir cada vez mais rápido.
A revolução de maio de 68, eminentemente cultural e moral, teria também um papel no desaparecimento da beleza?
Creio que sim, por uma razão que parece contrária ao que eu disse antes: a procura do individualismo hedonista a todo custo, e portanto a renúncia ao esforço de crescimento interior.
Tomemos um concerto de música clássica: se eu não estiver habituado, ele não me diz nada. Isso acontece com muitos jovens que só estão acostumados com música pop, música muito pobre, e acham aborrecida a música clássica.
Ou que entram em uma igreja e não sabem “ler”, entender, o que veem. A beleza se entrega a nós, mas exige uma purificação interior, uma ascese, um esforço inicial que depois é compensado.
A revolução de 68, em suas diversas modalidades, em Woodstock, na Sorbonne e em outros lugares – ela em parte foi orquestrada, não podemos ser ingênuos –, prega um individualismo desenfreado, uma ruptura radical com o passado, a imaginação no poder, a abolição das normas…
A beleza exige um esforço de purificação.
O Papa recentemente se referiu à “hermenêutica da descontinuidade”, sobre a aplicação errônea dos princípios do Concílio Vaticano II. Pode-se ver também aí uma causa do abandono da beleza no campo eclesial?
Sim, especialmente no terreno da arte sacra e da liturgia. Creio que se confundiu beleza com luxo, e luxo com valor econômico. São conceitos diferentes. Podem-se fazer coisas muito belas com meios muito simples. E pode haver coisas muito caras que não são belas.
Esses conceitos equivocados foram aplicados, por exemplo, na construção de igrejas. O Cardeal de Santiago do Chile conta algo que ilustra isso: “Os pobres também têm direito à beleza”, diz ele.
“Pensava-se que construir uma bela igreja em um bairro pobre podia constituir uma ofensa. É o contrário! Erguê-la equivale a dizer aos pobres: ‘Como filhos de Deus, vocês merecem isso’”. É um modo de lhes devolver a dignidade.
Ele cita este exemplo: num bairro da periferia de Santiago havia uma igreja-garagem com capacidade para 100 pessoas, que nunca se enchia aos domingos.
Quando construíram uma igreja linda, com capacidade para 500 pessoas, não houve mais espaço para todos… Uma igreja assim se torna um pólo gerador de transformação.
Isso aconteceu aqui em Roma: a edificação de uma igreja numa área da periferia requalificou totalmente o bairro.
A questão é ter as prioridades claras, como destacaram os Bispos da América Latina. O escândalo não está em ter uma igreja formosa, mas em haver casas muito ricas que não se incomodam em ajudar os irmãos que estão morrendo ao redor.
A igreja é a casa dos filhos de Deus, é uma imagem da Jerusalém celeste, precisa manifestar algo da casa de Deus.
De outro lado, a novidade do Concílio foi interpretada como uma ruptura radical com o passado. Por isso, especialmente na Europa, o patrimônio artístico da Igreja foi vendido por preço irrisório.
Paramentos e ornamentos foram substituídos por material de pouco valor. Ora, aqueles objetos sagrados tinham sido criados e doados pelos fiéis, fruto de sua devoção e amor.
Por exemplo, custódias para a exposição do Santíssimo, feitos com as doações de pessoas muito simples, que foram parar em antiquários, sendo fundidas… Essa ruptura radical não pode conduzir a nada de bom.
Uma via concreta a se propor aos fiéis seria a da beleza da liturgia, da ornamentação?
A beleza da liturgia, o cuidado na celebração. Contudo, é preciso lembrar que a principal beleza nasce de dentro, quando o sacerdote vive intensamente o mistério que celebra e o transmite, ainda que seja numa igreja muito pobre.
Os funerais de João Paulo II conquistaram muita gente, porque viu-se a liturgia latina em seu esplendor e em sua sobriedade. O diretor Franco Zefirelli disse: “Confesso que senti inveja, pois eu, como diretor de cinema, não teria sabido fazer uma cenografia melhor”.
Embora tenha havido uma preparação muito grande, aquilo saiu naturalmente, pela beleza da liturgia, que precisa de pouca explicação, com seus gestos, cantos, o movimento em torno do altar.
O Espírito Santo contribuiu, agitando as folhas do livro em cima do ataúde de João Paulo II e agitando as casulas dos Cardeais. Foi uma liturgia bela e, ao mesmo tempo, acessível ao povo.
Beleza nos ornamentos. Nessas igrejas ou ermidas que há pelo centro da Itália, as paredes estão decoradas com afrescos simples e encantadores, um catecismo, que antes transmitia o Evangelho e a vida dos Santos.
O retábulo da Catedral de Toledo é uma esplêndida catequese da vida de Cristo.
Há pouco li uma reflexão sobre novas igrejas construídas em Roma, projetadas por arquitetos famosos. Sobre uma das igrejas, um deles disse: “É magnífica por fora, mas dentro as paredes estão vazias”.
Ora, uma das notas distintivas do templo católico é fazer o fiel sentir-se envolvido pela Comunhão dos Santos, manifestada nas imagens. Paredes brancas numa igreja desnuda não facilitam o encontro com Deus.
Elas não me falam, mas um vitral me coloca numa atitude diferente. Além disso, como muitas vezes as pessoas se distraem, que ao menos se distraiam contemplando a vida de um Santo.
Quantas vezes, olhando um mosaico, descobrimos um chamado de Deus, uma insinuação da graça! Quantos homens e Santos se converteram contemplando uma imagem sagrada, como Paul Claudel, na noite de Natal, ante a imagem da Virgem na Catedral de Notre-Dame!
Claro que o gosto de nosso tempo não é o barroco. É mais sóbrio, mas tem de arrebatar, de atrair, de falar.
Existem valores absolutos que se referem à beleza, ao “pulchrum”?
Sim. Quando dizem que sobre gostos não há nada escrito, eu respondo: “O pouco que foi escrito, você não leu”… (risos). Nem tudo é opinável.
Naturalmente, a percepção estética muda, é influenciada pelo contexto cultural, tempo, idade e muitas outras coisas, mas o pulchrum é uma das propriedades transcendentais do ser.
O belo não pode ser separado do bom, nem o bom do verdadeiro. E assim como a verdade é a verdade, independentemente da época e da cultura, a beleza também o é.
É como na moral: se você não é capaz de ver que matar um inocente é um ato mau, isso não significa que seja matéria opinável, mas que você está cego.
Então, se alguém diz: “Você não gosta de música pop, mas eu sim, acho bela”, não é por ser uma questão de opinião, mas pela dificuldade de reconhecer o belo.
Que conselho dar aos batizados para colaborarem nessa tarefa?
O terceiro aspecto do pulchrum considerado no Instrumentum laboris era o mais importante: a beleza da vida cristã, da santidade.
Nem todos estão chamados a ser artistas, críticos literários, críticos de arte ou críticos musicais, mas estão chamados a transmitir a beleza da vida cristã, a contagiar a alegria da fé.
Sempre se disse que os grandes argumentos a favor da verdade do Cristianismo foram dois: a arte cristã e a vida dos Santos. E a vida dos Santos é o exemplo que arrasta. Olhando os cristãos, os pagãos diziam: “Vejam como se amam!”
Esta é a contribuição que cada um pode dar: traçar uma filigrana na sua vida, como num vitral ou num afresco, no qual a luz da graça incide, golpeia o coração e tira dali uma maravilha de cores.
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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