O Evangelho deste domingo é parte do sermão proferido por Nosso Senhor no Monte das Oliveiras, pouco antes da Paixão, após ter saído do Templo e profetizado que dele não sobraria pedra sobre pedra.
Trata-se de uma resposta cheia de parábolas, dirigida aos discípulos, que Lhe haviam perguntado: “Qual será o sinal da tua vinda e do fim do mundo?” (Mt 24, 3).
A nota tônica do sermão é a exortação à vigilância no dia a dia, aguardando o fim de um mundo – a morte de cada um de nós e o comparecimento diante de Deus – e o fim do mundo terreno, quando o próprio Senhor “há de vir a julgar os vivos e os mortos”, como proclamamos no Credo.
É o que encontramos na parábola das cinco virgens previdentes e cinco virgens imprevidentes ou, como versa o latim, fatuæ – loucas, néscias, insensatas. A narração se circunscreve a uma das etapas do matrimônio celebrado entre os judeus.
Após acordos legais entre as famílias dos nubentes, cabia ao noivo preparar o novo lar. Concluídos todos os trâmites, ele se dirigia até a residência da noiva para conduzi-la à casa recém-formada em um cortejo noturno, durante o qual as damas de honra – as virgens – portavam lâmpadas para iluminar o trajeto.
Chegando ao local, diante de dez testemunhas pronunciavam-se as bênçãos próprias e se efetivava a união matrimonial. Nos sete dias seguintes ocorriam as bodas.
Ora, na parábola de Nosso Senhor, onde está a noiva?
Não é identificada apenas por uma pessoa porque a representam as dez virgens em conjunto, indicando toda a Igreja militante, como argumenta Santo Agostinho,1 a qual caminha para o desponsório eterno, ainda não consumado.
Toda alma cristã recebe o título de virgem – como enuncia São Paulo: “Eu vos apresentei a Cristo como virgem pura” (II Cor 11, 2) –, porque deve conservar a integridade da fé e a pureza do coração, que a levam a abster-se do mau uso dos sentidos, afastando-se da iniquidade e praticando as boas obras, simbolizadas pelas lamparinas.
Mas não basta que essas lamparinas brilhem “diante dos homens” (Mt 5, 16a); é necessário que sua luz leve os demais a glorificar o “Pai que está nos Céus” (Mt 5, 16b).
Em outras palavras, nossas ações precisam remontar ao fim último, ou seja, ao próprio Deus. Portanto, as obras que perduram além do sono da morte – momento em que todos nós, sejamos virgens previdentes ou imprevidentes, “cochilamos” e “dormimos” – são aquelas que brotam de um coração cheio de piedade, que sempre porta óleo da caridade consigo.
Aproveitemos enquanto estamos despertos para estocar esse óleo e, assim, entrar com o Noivo nas núpcias eternas, onde, findas as inseguranças e aflições deste vale de lágrimas, cumprir-se-á o que canta o Salmo: “A minha alma será saciada, como em grande banquete de festa” (62, 6).
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