Irmãs e irmãos muito amados, também eu vim como peregrino a Fátima, a esta “casa” que Maria escolheu para nos falar nos tempos modernos.
Vim a Fátima para rejubilar com a presença de Maria e sua materna proteção. Vim a Fátima, porque hoje converge para aqui a Igreja peregrina, querida pelo seu Filho como instrumento de evangelização e sacramento de salvação.
Vim a Fátima para rezar, com Maria e tantos peregrinos, pela nossa humanidade acabrunhada por misérias e sofrimentos. […]
Filha excelsa deste povo é a Virgem Mãe de Nazaré, a qual, revestida de graça e docemente surpreendida com a gestação de Deus que se estava operando no seu seio, faz igualmente sua esta alegria e esta esperança no cântico do Magnificat: “O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”.
Entretanto não Se vê como privilegiada no meio de um povo estéril, antes profetiza-lhe as doces alegrias duma prodigiosa maternidade de Deus, porque “a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem” (Lc 1, 47.50).
Prova disto mesmo é este lugar bendito.
Mais sete anos e voltareis aqui para celebrar o centenário da primeira visita feita pela Senhora “vinda do Céu”, como Mestra que introduz os pequenos videntes no conhecimento íntimo do Amor Trinitário e os leva a saborear o próprio Deus como o mais belo fato da existência humana.
Uma experiência de graça que os tornou enamorados de Deus em Jesus, a ponto de a Jacinta exclamar: “Gosto tanto de dizer a Jesus que O amo. Quando Lho digo muitas vezes, parece que tenho um lume no peito, mas não me queimo”.
E o Francisco dizia: “Do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus!” (Memórias da Irmã Lúcia, I, 40 e 127).
As Escrituras convidam-nos a crer
Irmãos, ao ouvir estes inocentes e profundos desabafos místicos dos pastorinhos, poderia alguém olhar para eles com um pouco de inveja por terem visto ou com a desiludida resignação de quem não teve essa sorte, mas insiste em ver.
A tais pessoas, o Papa diz como Jesus: “Não andareis vós enganadas, ignorando as Escrituras e o poder de Deus?” (Mc 12, 24).
As Escrituras convidam-nos a crer: “Felizes os que acreditam sem terem visto” (Jo 20, 29), mas Deus – mais íntimo a mim mesmo de quanto o seja eu próprio (cf. Santo Agostinho. Confissões, III, 6, 11) – tem o poder de chegar até nós nomeadamente através dos sentidos interiores.
De modo que a alma recebe o toque suave de algo real que está para além do sensível, tornando-a capaz de alcançar o não-sensível, o não-visível aos sentidos.
Para isso exige-se uma vigilância interior do coração que, na maior parte do tempo, não possuímos por causa da forte pressão das realidades externas e das imagens e preocupações que enchem a alma. Sim! Deus pode alcançar-nos, oferecendo-Se à nossa visão interior.
Mais ainda, aquela Luz no íntimo dos pastorinhos, que provém do futuro de Deus, é a mesma que se manifestou na plenitude dos tempos e veio para todos: o Filho de Deus feito Homem.
Que Ele tem poder para incendiar os corações mais frios e tristes, vemo-lo nos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 32). Por isso a nossa esperança tem fundamento real, apoia-se num acontecimento que se coloca na História e ao mesmo tempo excede-a: é Jesus de Nazaré.
E o entusiasmo que a sua sabedoria e poder salvífico suscitavam nas pessoas de então era tal que uma mulher do meio da multidão – como ouvimos no Evangelho – exclama: “Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito”.
Contudo Jesus observou: “Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11, 27.28). Mas quem tem tempo para escutar a sua palavra e deixar-se fascinar pelo seu amor?
Quem vela, na noite da dúvida e da incerteza, com o coração acordado em oração? Quem espera a aurora do dia novo, tendo acesa a chama da fé?
A fé em Deus abre ao homem o horizonte de uma esperança certa que não desilude; indica um sólido fundamento sobre o qual apoiar, sem medo, a própria vida; pede o abandono, cheio de confiança, nas mãos do Amor que sustenta o mundo.
Missão profética ainda não concluída
“A linhagem do povo de Deus será conhecida […] como linhagem que o Senhor abençoou” (Is 61, 9) com uma esperança inabalável e que frutifica num amor que se sacrifica pelos outros, mas não sacrifica os outros; antes – como ouvimos na segunda leitura – “tudo desculpa, tudo acredita, tudo espera, tudo suporta” (I Cor 13, 7).
Exemplo e estímulo são os pastorinhos, que fizeram da sua vida uma doação a Deus e uma partilha com os outros por amor de Deus. Nossa Senhora ajudou-os a abrir o coração à universalidade do amor.
De modo particular, a Beata Jacinta mostrava-se incansável na partilha com os pobres e no sacrifício pela conversão dos pecadores. Só com este amor de fraternidade e partilha construiremos a civilização do amor e da paz.
Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída. Aqui revive aquele desígnio de Deus que interpela a humanidade desde os seus primórdios: “Onde está Abel, teu irmão? […] A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim” (Gn 4, 9).
O homem pôde desencadear um ciclo de morte e terror, mas não consegue interrompê-lo…
Na Sagrada Escritura, é frequente aparecer Deus à procura de justos para salvar a cidade humana e o mesmo faz aqui, em Fátima, quando Nossa Senhora pergunta: “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele mesmo é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?” (Memórias da Irmã Lúcia, I, 162).
Com a família humana pronta a sacrificar os seus laços mais sagrados no altar de mesquinhos egoísmos de nação, raça, ideologia, grupo, indivíduo, veio do Céu a nossa bendita Mãe oferecendo-Se para transplantar no coração de quantos se Lhe entregam o amor de Deus que arde no seu.
Então eram só três, mas o exemplo de suas vidas irradiou e se multiplicou em grupos sem conta por toda a superfície da terra, nomeadamente à passagem da Virgem Peregrina, que se votaram à causa da solidariedade fraterna.
Possam os sete anos que nos separam do centenário das aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima Trindade.
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 296, Agosto 2026
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