Jo 10, 11-18Naquele tempo, disse Jesus: 11“Eu sou o Bom Pastor. O Bom Pastor dá a vida por suas ovelhas. 12O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa. 13Pois ele é apenas um mercenário e não se importa com as ovelhas. 14Eu sou o Bom Pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas Me conhecem, 15assim como o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas. 16Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só Pastor. 17É por isso que o Pai Me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente. 18Ninguém tira a minha vida, Eu a dou por Mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; esta é a ordem que recebi do meu Pai”.
I – Jesus, o Rei bondoso
A Liturgia deste domingo põe em evidência a figura do pastor, criada pelo Divino Artífice para, em certo momento, simbolizar a Si mesmo.
Pelos lábios do profeta Ezequiel, o Altíssimo havia denunciado os maus pastores de Israel, aqueles que procuravam suas vantagens pessoais em detrimento do rebanho a eles confiado: “Vós não fortaleceis as ovelhas fracas; a doente, não a tratais; a ferida, não a curais; a transviada, não a reconduzis; a perdida, não a procurais; a todas tratais com violência e dureza” (34, 4).
Em consequência, ameaçou castigá-los e, como santa e reparadora vingança, prometeu: “Pois eis o que diz o Senhor Javé: vou tomar Eu próprio o cuidado com minhas ovelhas, velarei sobre elas” (34, 11).
Essa bela profecia realizou-se plenamente, mas de modo inesperado, superando todas as expectativas.
Com efeito, a casa de Judá perdeu o poder régio a partir do exílio babilônico, tempo em que ressoaram com força os oráculos de Ezequiel; os maus pastores foram depostos pelo Senhor dos senhores até a chegada do verdadeiro Filho de Davi, o libertador de Israel.
Este futuro Pastor se distinguiria por sua bondade, ou seja, por seu Coração transbordante de benquerença para com as ovelhas. E assim o foi!
Quem poderia imaginar que a Segunda Pessoa da Trindade assumiria nossa natureza no seio virginal de Maria Santíssima para trazer a salvação ao gênero humano transviado pelo pecado?
Sim, o Verbo Eterno feito carne Se constituiria Pastor de Israel, como anunciara Ezequiel: “Sou Eu que apascentarei minhas ovelhas, sou Eu que as farei repousar – oráculo do Senhor Javé” (34, 15).
Narram os Santos Evangelhos que, ao percorrer as cidades e aldeias, Jesus tomou-Se de compaixão pela multidão que O seguia, “porque estava enfraquecida e abatida como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36).
Então, como Pastor cheio de suavidade, delicadeza e amor, ensinou-lhes muitas coisas. Esse afeto dadivoso de Nosso Senhor manifestou-se inúmeras vezes ao longo da vida pública, culminando com o perdão outorgado aos seus algozes na Cruz.
Eis o Monarca terníssimo, forte e insuperável enviado pelo Pai a fim de nos redimir e de conceder repouso aos que combatem pela própria santificação: “Vinde a Mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e Eu vos aliviarei” (Mt 11, 28).
A esse Rei, que nos amou até o fim, o Evangelho do 4º Domingo da Páscoa nos apresenta em todo o seu fulgor, graça e encanto.
II – “Eu sou o Bom Pastor”
São João narra no capítulo 9 de seu Evangelho a cura do cego de nascença, episódio éclatant e não desprovido de certas notas de ironia, que levaram a humilhação dos fariseus ao extremo. No capítulo seguinte, vemos Nosso Senhor explicar a seu auditório o porquê de tais prodígios operados em favor das ovelhas mais necessitadas.
Agindo assim, dava ao público que O acompanhava elementos suficientes para considerar as colossais diferenças existentes entre Ele, o Bom Pastor, e os mercenários, ou seja, os membros do Sinédrio.
O Bom Pastor e o mercenário
Naquele tempo, disse Jesus: 11“Eu sou o Bom Pastor. O Bom Pastor dá a vida por suas ovelhas. 12O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa. 13Pois ele é apenas um mercenário e não se importa com as ovelhas”.
Ao chamar-Se Bom Pastor, Nosso Senhor Se compara aos cuidadores dos rebanhos, cuja missão consistia em encontrar pastagens vicejantes e organizar a defesa contra os assaltos dos predadores.
Tratava-se, sem dúvida, de pessoas habituadas ao sacrifício e à vigilância; todavia, nenhum deles, por mais zeloso que fosse, estaria disposto a morrer pelas ovelhas! Jesus é, portanto, um pastor nunca antes visto, sui generis, que leva seu amor pela grei até o extremo de dar a vida para protegê-la.
O mercenário, porém, busca tão só o próprio interesse. Assim, apenas intui o perigo no horizonte abandona suas custodiadas, que acabam por ser mortas e dispersas.
Cabe ainda compreender a quem faz referência o Divino Salvador quando menciona os lobos. Por lobo pode-se entender, em primeiro lugar, o demônio, comparado por São Pedro “ao leão que ruge, buscando a quem devorar” (I Pd 5, 8).
Os hereges ou os falsos profetas também são equiparados a tais feras, pois dilaceram a grei com suas mentiras e seduções. E a eles se somam os tiranos que, perseguindo de modo cruento ou psicológico os fiéis, procuram levá-los à apostasia.
A todas essas espécies de lobos Nosso Senhor opôs resistência e, para vencê-los definitivamente, entregou sua vida como Cordeiro Imaculado.
Um amor divino, que excede todos os limites
14Eu sou o Bom Pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas Me conhecem, 15assim como o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas.
Jesus alegra-Se em repetir um estribilho que ressoa com toda a força e doçura da palavra divina: “Eu sou o Bom Pastor”. Nos versículos anteriores O era pelo prisma do contraste com o mercenário.
Agora, porém, apresenta-Se como tal pelo fato de ter para com as ovelhas um relacionamento semelhante ao que existe entre Ele e o Pai.
Com efeito, Nosso Senhor conhece o Pai enquanto Verbo de Deus e enquanto Homem verdadeiro. No primeiro caso, Ele é a imagem perfeita do Pai, O abarca e compreende por inteiro, amando-O com laços de caridade infinita.
Considerado em sua humanidade, unida substancialmente à divindade, a afeição de Jesus Cristo pelo Pai é a maior de toda a História.
Nenhum ser humano pôde conhecer e amar a Primeira Pessoa da Santíssima Trindade com tanto ardor, dedicação e ternura como Ele. E foi em virtude desse amor que o Filho, tendo-Se encarnado no seio virginal de Maria, quis Se imolar no Calvário.
De modo análogo, o Bom Pastor conhece suas ovelhas e elas O conhecem. Mediante o dom da graça, concedido à criatura racional pela Redenção, estabelece-se um imbricamento todo divino entre o Filho Unigênito e seus irmãos.
Ele nos conhece à luz do amor que o Pai possui por cada um de seus filhos de adoção, e nós O conhecemos em função de sua divindade e entrega na Cruz.
Tal relacionamento supera em muito o convívio existente entre simples homens, por mais perfeitos ou inteligentes que sejam. Trata-se de um verdadeiro comércio celestial, que se inicia nesta terra e chegará à plenitude quando O virmos face a face.
Ora, semelhante amor deve traduzir-se em obras e, por esse motivo, Jesus volta a declarar: “Eu dou minha vida pelas ovelhas”.
Gerado desde toda a eternidade pelo Pai, o Filho foi enviado ao mundo a fim de resgatar os homens da escravidão ao pecado e da morte.
O preço a pagar era alto: derramar seu Sangue na Cruz, até a última gota. Obedientíssimo em sua humanidade, Ele Se fez carne e levou seu amor à mais extrema manifestação, entregando-Se por nós como vítima de propiciação.
Consideremos a afeição desmedida que o Bom Pastor nos tributa, compreendamos a radicalidade de seu sacrifício em nosso favor e percebamos com clareza que amor com amor se paga, como explica São João na sua primeira epístola: “Nisto temos conhecido o amor: Jesus deu sua vida por nós. Também nós devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos” (3, 16).
Eis o horizonte que nos desvelam esses versículos: o de corresponder à infinita caridade de Nosso Senhor, dispondo-nos a procurar o bem de nosso próximo até dar a vida por ele.
Só quem possui tais disposições de espírito pode dizer que conhece o Bom Pastor, pois participa do amor que O caracteriza, o qual ultrapassa todos os limites concebíveis.
As ovelhas escutarão a voz de seu Pastor
16Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só Pastor
Nosso Senhor profetiza a futura conversão dos pagãos ao anunciar a existência de outras ovelhas que, no futuro, também seriam conduzidas por Ele, constituindo um só rebanho sob a égide de um único Pastor.
Trata-se de uma grei enorme, descrita pelo Apocalipse nestes termos:
Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão, e bradavam em alta voz: “A salvação é obra de nosso Deus, que está assentado no trono, e do Cordeiro” (7, 9-10).
Estaremos nós em meio a essa multidão? Teremos a alegria de festejar o nosso triunfo junto a Nosso Senhor e os Bem-Aventurados? Para obter tal graça – a maior entre todas! – há apenas uma condição: ouvir a voz do Pastor.
Mas o que isso significa? Trata-se de prestar atenção nos ensinamentos divinos do Redentor e pô-los em prática com fidelidade e perfeição.
Desse modo, nossa filiação divina atingirá o auge na eternidade e gozaremos de uma alegria sem fim, que não pode ser expressa com nosso pobre vocabulário humano. São João assim o anuncia:
Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato. […] Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser.
Sabemos que, quando isso se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto O veremos como Ele é. E todo aquele que n’Ele tem essa esperança torna-se puro, como Ele é puro (I Jo 3, 1-3).
Vivamos com nosso olhar interior fixo na glória do Bom Pastor no Céu. Então receberemos a força para sermos fiéis nesta vida e, unidos à imensa grei de Cristo, cantaremos por todo o sempre a glória de suas vitórias e conquistas.
Brou, Bourg-en-Bresse (França)
O amor e a obediência do Bom Pastor
17É por isso que o Pai Me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente. 18Ninguém tira a minha vida, Eu a dou por Mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; esta é a ordem que recebi do meu Pai.
Nosso Senhor prossegue anunciando sua Ressurreição: “Dou a minha vida, para depois recebê-la novamente”. Ninguém seria capaz de infligir a morte a Jesus sem o seu consentimento.
Por isso, embora o sacrifício da Cruz tenha sido fruto de uma urdidura dos agentes do mal, ele jamais haveria se realizado se não fosse um desígnio divino, como revela o Salvador: “Ninguém tira a minha vida, Eu a dou por Mim mesmo”.
Essa determinação voluntária de enfrentar as dores da Paixão e o drama da morte por amor ao Pai e aos homens nos põe, uma vez mais, diante do incomensurável afeto do Bom Pastor.
Jesus faz questão de repetir as ideias numa cadência quase poética, a fim de nos compenetrar das verdades enunciadas.
Trata-se de um mistério de entrega e de benquerença tão alto que temos dificuldade de compreendê-lo e, por isso, torna-se necessário insistir, favorecendo que o coração humano se abra sempre mais à dileção divina.
Entretanto, assim como a morte é voluntária em sua aceitação, a ressurreição é igualmente querida: “Tenho poder de entregá-la [a vida] e tenho poder de recebê-la novamente”. E assim aconteceu na aurora radiante do Domingo de Páscoa.
Na Ressurreição de Jesus está anunciada nossa própria ressurreição, caso nos determinemos a dar a vida por nossos irmãos, como afirma São Paulo: “Se morremos com Cristo, cremos que viveremos também com Ele” (Rm 6, 8).
Por último, Nosso Senhor declara categoricamente: “Esta é a ordem que recebi do meu Pai”.
A vida do Cordeiro Divino, imolado sobre o altar da Cruz, esteve toda feita de obediência. Pelo fato de conhecer o Pai como ninguém, Ele sabia medir até que ponto o pecado O injuriava; de outra parte, compreendia o tesouro extraordinário que os homens haviam perdido com sua revolta.
Pois bem, seu amor pelo Pai e total união de vontade com Ele moveram-No a Se entregar, a fim de reparar a glória de Deus ultrajada e resgatar os filhos de Adão das garras do demônio.
A obediência tornou-se a medida de seu amor, e também o será para suas ovelhas: “Aquele que tem os meus Mandamentos e os guarda, esse é que Me ama. E aquele que Me ama será amado por meu Pai, e Eu o amarei e Me manifestarei a ele” (Jo 14, 21).
São Bento, São Paulo
III – Receptáculos da caridade infinita de Jesus
O Evangelho deste 4º Domingo da Páscoa nos apresenta, à maneira de feéricos fogos de artifício, a bondade sem limites de Nosso Senhor Jesus Cristo, que supera qualquer capacidade imaginativa. No Bom Pastor vemos o suprassumo da entrega e do zelo pelas ovelhas levados até a morte, e morte de Cruz.
Contudo, uma dúvida poderia em algo empanar esse horizonte tão grandioso e benfazejo para nossas almas: a ideia de que Nosso Senhor morreu por uma imensa multidão, da qual constituímos apenas uma ínfima parcela. Nada mais falso.
A desmentir tal objeção está a parábola da ovelha perdida (cf. Lc 15, 4-6), em que fica patente o amor de Jesus por cada um de nós individualmente considerado.
Nela o Bom Pastor deixa seu rebanho no aprisco e parte à procura da ovelha tresmalhada. Quando a encontra, carrega-a sobre os ombros até o redil e, em seguida, chama seus amigos para comemorar o fato de tê-la recuperado.
Na realidade, se é certo que Nosso Senhor morreu por todos os homens, seria ainda mais preciso afirmar que Ele deu sua vida especificamente por cada um.
Assim o expressa Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, mestre espiritual do Autor destas linhas, numa oração composta na conclusão de um retiro espiritual:
Ó Senhor Bom Jesus! Do alto da Cruz deitais sobre mim o vosso olhar de misericórdia, parecendo desejar que, de meu lado, também eu levante o meu para Vos considerar!
Sim, para Vos considerar em vossa infinita perfeição e no insondável abismo das dores que padeceis… por mim. Pois bem sei que todas essas dores, Senhor, Vós as sofreríeis só por mim ou por outro homem qualquer, se este fosse o único a depender de tais padecimentos para se salvar.
E São Paulo, com sua contundência habitual, o afirma de modo peremptório: “A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e Se entregou por mim” (Gal 2, 20).
Essa íntima convicção de ter sido objeto direto e pessoal do amor redentor de Jesus deve marcar nossos corações a fundo, a ponto de nos transformar por inteiro.
Assim compenetrados seremos capazes de todos os sacrifícios e de todas as renúncias para corresponder às torrentes de sua caridade infinita!
A melhor maneira de compreender até que ponto essa afeição se dirige a cada alma em particular é a contemplação do mistério da Eucaristia.
Após a consagração das espécies do pão e do vinho, nelas já não se encontra a substância destes alimentos, mas sim o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus, nosso Senhor.
E no divino banquete Ele Se dá por inteiro, num incêndio de amor, estabelecendo uma relação exclusiva com aquele que comunga. É na recepção do Pão dos Anjos que se evidencia em nossas vidas o desvelo do Bom Pastor por suas ovelhas.
Acorramos à Sagrada Mesa com fé acesa e ânimo bem disposto, a fim de adorar nosso Redentor pelo afeto incomensurável com que nos cumula.
Tornar-nos-emos assim dignas ovelhas do redil do único e verdadeiro Pastor de nossas almas, conscientes de sermos amados por Ele, cada um, com uma dileção sem limites.
Maris, Ubatuba (SP)
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 296, Agosto 2026
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 295, Julho 2026
Quem são os Arautos do Evangelho?
Auxílio dos Cristãos
Músicas Natalinas