“Quem não viveu no século XVIII, antes da Revolução, não conheceu a doçura de viver e não pode imaginar quanto é possível ter felicidade na vida”!1
Famosa se tornou esta frase de Talleyrand, referindo-se à Revolução Francesa, que deitou por terra, entre muitas outras coisas, o respeito e a afabilidade predominantes no relacionamento humano até então.
De maneira análoga, também se poderia dizer que não conheceu a serenidade quem não viveu antes que a sociedade fosse marcada a fundo pelos desenvolvimentos tecnológicos decorrentes da Revolução Industrial, que mudou a fisionomia do mundo.
De fato, em épocas anteriores tinha-se tempo para conversar e pensar, para longos períodos de distensão e despreocupação.
Quando, porém, a produção econômica, a máquina e a técnica se sobrepuseram aos valores do espírito, o mundo se tornou ansioso por ter, fazer, comprar, consumir, correr… As lentidões que permitiam experimentar os deleites de uma existência calma e equilibrada deram lugar a uma incessante sofreguidão.
Num mundo agora transformado em imensa “aldeia global”, a enxurrada de informações imediatas e transmitidas de forma fragmentária, como em relâmpago, excita e provoca agitação.
O ritmo dos acontecimentos torna-se frenético. Já não se tem tempo para nada e o lema é ser fast: na comida, no relacionamento, na locomoção.
O retorno a uma vida mais “slow”
No entanto, quando a vitória da velocidade e do frenesi parecia ter atingido todos os aspectos do nosso cotidiano, levantam-se aqui e ali brados de revanche do bom senso, visando restabelecer a cidadania do mundo slow…
Assim, no ocaso do acelerado século XX, em 1999, surge em Orvieto uma associação internacional denominada Cittaslow,
Esta pretende recuperar a identidade própria e as especificidades de cada território, a fim de promover para seus habitantes uma melhor qualidade de vida, com uma particular atenção à cultura da alimentação e do bom viver.
Apesar de reconhecer que a globalização pode ser útil para a difusão do comércio e da cultura, Cittaslow afirma que tal fenômeno tende a achatar as diferenças e a esquecer as características peculiares de cada realidade singular, propondo modelos medianos que não pertencem a ninguém e geram, inevitavelmente, a mediocridade.
Na Itália, Alemanha, Polônia, Noruega, Inglaterra e Brasil já existe uma rede própria do movimento, mas cidades de outros países, como França, Espanha, Austrália e Japão, também aderiram à iniciativa.
Para ser uma Cittaslow, a cidade deve possuir até 50 mil habitantes e precisa atender a, pelo menos, 50% dos critérios de uma lista com 60 itens.
Cittaslow nasceu inspirada em outro movimento, a Slow Food, associação surgida em oposição ao conceito de Fast Food e ao estilo de vida rápido, e pretende defender a legítima gastronomia e o prazer de um agradável e sossegado convívio à mesa.
Ela estende sua atividade desde o campo agrícola à cozinha, propondo um modelo de desenvolvimento sustentável, onde prevalece o respeito pela biosfera e pela sociosfera, com base no uso responsável dos recursos naturais e dos valores culturais.
Tal modo de vida slow – fala-se também em Slow Schools, Slow Tourism, Slow Aging… – se caracteriza pelo desejo de um retorno aos ritmos mais lentos e humanos, que permitam combater o stress, a pressão para alcançar objetivos concretos e artificiais, e a pressa generalizada que marca o nosso dia a dia.
Este regresso à mentalidade de uma vida mais lenta e orgânica nos recorda um velho adágio francês: “Chassez le naturel, il revient au galop – Retirai o que é natural, ele retorna a galope”!
Composto de matéria e espírito, necessita o homem de um ritmo de vida mais tranquilo para desfrutar de certos prazeres da alma que as velocidades desordenadas não permitem sequer vislumbrar.
A boa conversa ou a contemplação, por exemplo, só são viáveis em um contexto desprovido de agitação. O silêncio, tantas vezes tão eloquente, é irmão da serenidade e do recolhimento, e nele Deus costuma Se encontrar com os homens.
O exemplo de Jesus
Em vários episódios narrados pelos Evangelhos, Jesus Se retirava para rezar, fugindo das turbas e do bulício: “E despedido que foi o povo, retirou-Se ao monte para orar” (Mc 6, 46); “Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus” (Lc 6, 12).
Diz São João Crisóstomo que o Divino Mestre assim fazia
para nos ensinar a descansar, a todo o momento, do alvoroço e do barulho, pois a solidão é conveniente para a meditação. […] quem se aproxima de Deus necessita afastar-se do ruído e buscar tempo e lugar distante do tumulto.2
Jesus, no Evangelho” – afirma Cantalamessa –
nunca dá a impressão de estar asfixiado pela pressa. Às vezes, até perde tempo: todos O procuram e Ele não Se deixa encontrar, tão absorto está na oração. […]
Se a lentidão tem conotações evangélicas, é importante dar valor às ocasiões de descanso ou de demora que estão distribuídas ao longo da sucessão dos dias.
O domingo, as festas, se bem utilizados, permitem cortar o ritmo de vida demasiado excitado e estabelecer uma relação mais harmônica com as coisas, as pessoas e, sobretudo, consigo mesmo e com Deus.3
Quantos benefícios pode nos trazer a lentidão, e em quantas circunstâncias! Quão salutar pode ser ela para o bom relacionamento entre os homens, e o destes para com Deus!
Oxalá possa o mundo contemporâneo reconquistar uma vida mais slow, na certeza de que não adianta se desgastar e correr tanto para obter bens materiais sem conta, relegando ao esquecimento princípios e virtudes.
Tudo isso passa e o que realmente tem valor são as riquezas do espírito que perduram na vida eterna, onde, aliás, não há relógio!…
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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