Quantas vezes uma fisionomia agradável, simpática mesmo — ao menos à primeira vista — esconde um mau caráter, um mau gênio. O contrário também é verdadeiro: uma fisionomia feia pode ser de uma bela e virtuosa alma. Um exemplo real nos ajudará a ver bem esse problema.
É bem verdade que uma alma virtuosa tende a conformar o corpo, especialmente a fisionomia. Mas Deus pode por exceções a essa regra, no intuito de vermos a superioridade do espírito sobre a matéria, da graça sobre a natureza.
É o caso de Santa Joana de Valois, princesa, filha, irmã e esposa de reis.
Joana, segunda filha do rei Luís XI, veio ao mundo com feiura de rosto, sardenta e deformada de corpo. A tal ponto que o rei, seu pai mandou-a, ainda recém-nascida, morar bem longe da corte, sob os cuidados de monjas.
Joana, entretanto, foi ali educada num ambiente de serenidade e benquerença. As monjas viam nela, com em todos nós, uma alma remida pelo Sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo e, por esta razão, dispensavam-lhe todo afeto e desvelo; mais ainda: davam-lhe uma esmerada formação, tanto humana como religiosa. Educada assim, as virtudes desabrocharam precocemente em sua alma.
Joana, bem educada e instruída na religião, logo ao despertar da razão consagrou-se a Deus e a Nossa Senhora. A par de sua instrução e progresso na virtude, foi educada como aquilo que era: uma princesa real. A Providência divina incentivava assim, ao lado da santidade uma verdadeira princesa, que veio a ser… Rainha.
Aos 12 anos — as coisas eram precoces naquela época — o pai a fez contrair matrimônio com um contra-parente, futuro herdeiro do trono e que veio a ser, de fato, Rei da França.
No período anterior à sua ascensão ao trono, o esposo a humilhava frequentemente em público e dizia para quem quisesse ouvir, que a odiava. Apesar disso, pelo fato do esposo ter sido preso e condenado à morte por promover uma revolta contra o Rei, Joana defendeu-o valorosamente no julgamento.
Enquanto aguardava a execução, o Rei morreu e o esposo passou a ser o novo Rei. Consequentemente, Joana passou a ser a Rainha.
Como “agradecimento” pelo devotamento de Joana como esposa, com quem nunca conviveu (só estiveram juntos na cerimônia de casamento), obteve a declaração de nulidade do matrimônio e, jeitosamente, exilou-a, dando-lhe o Ducado de Berry.
Joana, agora Duquesa de Berry, foi exímia no governo e promoção do bem estar dos súditos, e amparo dos pobres. O ducado de Berry era soberano, tendo ela dito: “a Providência assim o permitiu, para que eu fizesse algum bem às almas. E agora, sem estar sujeita a homem nenhum, posso fazer o bem plenamente”.
Um dos bens que Joana fez à França e à Igreja foi fundar uma ordem religiosa, a Ordem da Anunciação, na qual, logo que deixou bem encaminhado os negócios do ducado, fez-se admitir, trocando as vestes de duquesa pelo simples hábito religioso, pois tornara-se esposa de Cristo, Rei dos Reis.
Depois de curto noviciado, pronunciou os votos perpétuos e passou a levar uma vida de oração, e caridade. Muitos de seus contemporâneos a tinham como santa já em vida.
Uma das principais intenções de suas orações e penitências era pelo seu pai, seu irmão e seu esposo.
Faleceu aos 40 anos, foi beatificada em 1742 e canonizada pelo Papa Pio XII, em 1950.
Como diz bem um escritor (*) “é preciso dar graças a Deus de que, pelo menos no campo da santidade, não se cometa a injustiça da supervalorização da beleza física; e de que ao menos Ele, não liga para corpos desajeitados, mas sim para almas luminosas”.
(*) José M. Descalzo em sua obra “Razões de viver”.


