O tempo da Quaresma nos prepara para a Semana Santa e as solenidades pascais, purificando nossos corações na prática perfeita da vida cristã.
Trata-se de religar-nos espiritualmente, de mudar, de melhorar, de conquistar o que chamamos “metanoia”, quer dizer, uma mudança de mentalidade, uma mudança de coração, rumo – evidentemente – ao bem.
Para que este percurso quaresmal seja um caminhar para uma conversão interior, dispomo-nos a nos aproximar do Sacramento da Reconciliação, da Confissão.
Começa na Quarta-feira de Cinzas, e, através de quarenta dias, chega até a Missa da Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa.
Ruptura entre a vida social e a vida religiosa
Importa ressaltar que notamos, com o passar do tempo, um divórcio entre o que se pensa e o agir diário na vida dos homens.
São Paulo exortava aos romanos (12,1) para que não se conformassem com o mundo: “Não vos conformeis com este século”. Ele os convida a viverem o Evangelho de maneira coerente, e que estendam à vida cotidiana, às suas formas de ser e de atuar, os ensinamentos que recebem.
Que não haja uma separação, mas, pelo contrário, uma simbiose, um prolongar-se – por exemplo – do que se sente em uma Celebração Eucarística até a vida diária.
Que esses momentos, esses “depois”, sejam como que uma prolongação do que viveram e sentiram.
A diferença entre o que celebram e o que vivem
Essa ruptura ocorre nos dias de hoje em muitos cristãos que não refletem, em suas maneiras, gestos e atitudes, tudo o que seus próprios lábios afirmam.
Em sua forma de vida, em geral, há uma discordância entre os ensinamentos do Evangelho, os Mandamentos da Lei de Deus e os preceitos da Santa Igreja e suas atitudes diárias.
Podem participar habitualmente das Missas dominicais, mas, ao sair, encontrando-se com o mundo secularizado que os rodeia, suas vidas se distanciam desta santa realidade que viveram apenas um pequeno período de tempo durante a semana.
Na vida familiar, profissional, cultural e social, tudo como que se esqueceu… Não se produziu uma osmose entre o que acreditam e celebram e o que posteriormente vivem; não há uma ligação.
Vida litúrgica e vida cristã
Em uma das formas de despedida, terminada a Missa, antes do “Ide em paz”, momento em que os fiéis partirão para suas vidas cotidianas, o sacerdote diz: “Glorificai com vossas vidas ao Senhor!”
Esta aclamação convida para que cada um faça de sua vida um testemunho missionário contínuo, para que a santidade e a dignidade do que se vive sejam como um insustentável manancial que atrai aos outros.
Vida litúrgica e vida cristã estão intimamente unidas, como causa e efeito; são realidades indissociáveis.
Bem afirmava São João Paulo II: “Uma Liturgia que não tivesse um reflexo na vida se tornaria vazia e certamente não agradável a Deus” (26/9/2001).
Este Papa preocupou-se seriamente com a avalanche de mudanças culturais que se viviam.
Dizia ele que urgia religar o corpo cristão da sociedade humana, e que somente se conseguiria isso com a presença de testemunhas da Fé Cristã.
Estas testemunhas precisariam superar, nelas mesmas, “a fratura entre o Evangelho e a vida, recompondo em sua vida familiar, no trabalho e na sociedade, essa unidade de vida, que no Evangelho encontra inspiração e força para realizar-se em plenitude” (Mane Nobiscum Domine, 34).
Para restaurar a vida cristã na sociedade, se faz necessária uma coerência de vida que supere a “fratura” que sofrem os homens de hoje.
É tempo de religação, de conversão, de metanoia
Aproveitemos este percurso quaresmal para que nossa vida seja de acordo com o que cremos e defendemos.
Que demos testemunho de nossa Fé, não somente com nossos lábios ou palavras, mas também com nossa conduta diária.
O escritor francês Paul Bourget, em sua obra Le Démon du Midi (1914), afirmava que “é necessário viver como se pensa, sob pena, de cedo ou tarde, acabar pensando como se vive”.
A integridade é viver como se pensa, de acordo com os princípios que se defendem, sem mancha alguma que a estrague; manter a consonância entre os princípios ou doutrinas que se defendem ou se pregam, fazer esta religação com a vida concreta de todos os dias.
Bem afirmava o Apóstolo São João em sua carta:
O que diz “eu o conheço”, mas não cumpre seus Mandamentos, é um mentiroso e a verdade não está com ele. Mas, naquele que cumpre sua palavra, o amor de Deus chegou à sua plenitude. Nisto conhecemos que estamos unidos a Ele: o que afirma que permanece em Cristo deve viver como Ele viveu (I Jo 2, 3-6).
Que nesta Quaresma preparemos nossos corações, mudemos de mentalidade, tenhamos uma “metanoia”, mas com a decisão firme de sermos coerentes, e “vivamos como pensamos”.
Tudo que fizermos de “sacrifícios e oferendas” não será nada, não terá efeito, se não for acompanhado de uma entrega íntima de nossos corações aos preceitos da Igreja e aos Mandamentos da Lei de Deus, que são a expressão da vontade do próprio Deus.
Que a Santíssima Virgem, Mãe Dolorosa, opere este religar, que nos leve sempre a Jesus, Nosso Senhor. Amém.