Deus desce e se torna escravo, lava-nos os pés para que possamos estar à sua mesa. (…)

Ele é continuamente esse amor que nos lava; nos Sacramentos da purificação – o Batismo e Confissão – Ele está continuamente ajoelhado diante de nossos pés e nos presta o serviço do escravo, o serviço da purificação, faz-nos capazes de Deus.

Seu amor é inexaurível, vai de fato até o extremo. 

“Vós estais puros, mas nem todos”, disse o Senhor (Jo 13, 10). Nesta frase se revela o grande dom da purificação que Ele nos faz, porque tem o desejo de estar à mesa junto conosco, de se tornar nosso alimento.

“Mas não todos” – existe o obscuro mistério da recusa, que com o episódio de Judas se faz presente, e exatamente na Quinta-Feira Santa, no dia em que Jesus faz dom de Si, deve nos fazer refletir.

O amor do Senhor não conhece limites, mas o homem pode pôr-lhe um limite. 

“Vós estais puros, mas não todos”. O que torna o homem impuro? É a recusa do amor, não querer ser amado, não amar. É a soberba que acredita não ter necessidade de alguma purificação, que se fecha à bondade salvadora de Deus.

É a soberba que não quer confessar e reconhecer que temos necessidade de purificação. Em Judas vemos a natureza dessa recusa ainda mais claramente.

Ele avalia Jesus segundo as categorias do poder e do sucesso: para ele só o poder e o sucesso são realidades, o amor não conta. E ele é ambicioso: o dinheiro é mais importante que a comunhão com Jesus, mais importante que Deus e seu amor.

E assim se torna um falso, que faz duplo jogo e rompe com a verdade; alguém que vive na mentira e perde assim o senso da verdade suprema, o senso de Deus.

Desse modo ele se endurece, torna-se incapaz de conversão, do confiante retorno do filho pródigo, e põe fim à sua vida destruída. 

“Vós estais puros, mas não todos”. O Senhor hoje nos alerta contra a auto-suficiência que põe um limite a seu amor ilimitado. Convida-nos a imitar sua humildade, a nos entregarmos a ela, a nos deixarmos “contagiar” por ela.

Convida-nos – por mais extraviados que nos possamos sentir – a retornar à casa e a permitir que sua bondade purificadora nos reerga e nos faça entrar na comunhão da mesa com Ele, com o próprio Deus. 

Toda obra de caridade é um serviço de lavar os pés

Acrescentemos uma última palavra dessa inesgotável passagem do Evangelho: “Dei-vos o exemplo…” (Jo 13, 15); “também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13, 14). No que consiste “lavar os pés uns dos outros”? Que significa em concreto?

Toda obra de bondade para com outrem – especialmente pelos que sofrem e pelos que são pouco estimados – é um serviço de lavar os pés.

O Senhor nos chama a isto: abaixar-se, aprender a humildade e a coragem da bondade e também a disponibilidade para aceitar a recusa e, apesar disso, confiar na bondade e perseverar nela. Mas há ainda uma dimensão mais profunda.

O Senhor remove nossa sujeira com a força purificadora de sua bondade. Lavar os pés uns dos outros significa sobretudo perdoar-nos incessantemente uns aos outros, sempre de novo recomeçar juntos, por mais que possa parecer inútil.

Significa purificar-nos uns aos outros suportando-nos mutuamente e aceitando ser suportados pelos outros; purificar-nos uns aos outros, dando-nos mutuamente a força santificante da Palavra de Deus e nos introduzindo no Sacramento do amor divino. (…)

 

Excertos da Homilia da Missa de Quinta-Feira Santa, 13/04/2006.