Meus irmãos, quando digo que Deus não inclina os seus ouvidos para o rico, não deduzais que Ele não atende os que possuem ouro e prata, criados e patrimônios.

Se eles nasceram nessas condições e ocupam esse lugar na sociedade, que se lembrem desta palavra do apóstolo Paulo: “Recomendo aos ricos deste mundo que não sejam orgulhosos” (I Tm. 6, 17). 

Aqueles que não são orgulhosos, são pobres diante de Deus, o qual inclina os seus ouvidos para os pobres e os necessitados (Sl 85, 1). Com efeito, eles sabem que a sua esperança não está no ouro ou na prata, nem nas coisas das quais gozam por algum tempo.

Basta que as riquezas não os levem à perdição; se elas nada podem para os salvar, que ao menos não lhes sirvam de obstáculo.

Quando um homem despreza tudo quanto alimenta o seu orgulho, então é um pobre de Deus; e Deus inclina-se para ele, porque conhece o tormento do seu coração.

Sem dúvida, irmãos, o pobre Lázaro coberto de chagas, que permanecia à porta do rico, foi levado pelos Anjos ao seio de Abraão; isto lemos, nisto acreditamos.

Quanto ao rico, que se vestia de púrpura e de linho fino e se banqueteava cada dia esplendidamente, foi precipitado nos tormentos do inferno. Terá sido, realmente, o mérito da sua indigência que valeu ao pobre ter sido levado pelos Anjos?

E o rico terá sido entregue aos tormentos do inferno por causa da sua opulência? É preciso reconhecer que, ao pobre, foi a humildade que o dignificou e, ao rico, foi o orgulho que o condenou.

 

Santo Agostinho, Narrações, Salmo 85, §3.