Um dia dramático, o 13 de maio de 1981, no qual o Santo Padre João Paulo II sofreu na Praça de São Pedro o atentado que quase lhe tirou precocemente a vida.
Nessa oportunidade, ele trazia consigo o documento de ereção do Pontifício Conselho para a Família. “Assim, este Conselho nasceu batizado pelo sangue do Papa”, comenta Dom Karl Romer.
Arautos do Evangelho: Nasceu com uma importante função…
Dom Romer: Sua principal função é manter contato com os Bispos do mundo inteiro, especialmente com as Conferências Episcopais, visando estudar e procurar soluções para a problemática de cada país, no campo da família.
Naturalmente, existem alguns países que têm uma situação mais preocupante; então, acompanhamos com mais atenção. No Brasil, por exemplo, houve coisas trágicas, mas também coisas belas.
No ano passado, a CNBB preparou um Diretório sobre a Pastoral Familiar, muito bem feito. Apoiamos fortemente isso, com muita alegria, aqui no Pontifício Conselho.
AE: Pode mencionar alguma situação que requer atenção especial?
Dom Romer: Algumas Conferências Episcopais enfrentam dificuldades. Na Ásia há coisas que quase não temos a coragem de expor publicamente, como o aborto seletivo.
Em certas regiões da Índia e da China, muitas crianças não chegam a nascer, por serem do sexo feminino. Por razões culturais e econômicas, matam as meninas antes de nascerem. São atitudes que têm um certo lastro cultural e histórico.
Mas o fato é que dentro de alguns anos vão faltar na Índia em torno de 15 milhões de mulheres. E isso será um problema enorme para esse país.
Isso representa um problema que hoje ainda não tem toda sua dimensão, mas que dentro de alguns anos representará o colapso da sociedade.
AE: Qual a atualidade do trabalho do Pontifício Conselho?
Dom Romer: Naturalmente, havia já uma realidade antiga que sugeria a criação do Pontifício Conselho para a Família, mas nos últimos tempos se concentraram os fatores de maneira dramática.
Um desses fatores consiste em que de algumas décadas para cá se trabalha com um argumento falso, o argumento malthusianista.
Malthus, um pastor da Igreja Anglicana, defendia a tese de que o mundo não tinha mais comida suficiente para manter a população, pois esta crescia mais rapidamente do que as possibilidades de produzir alimentos.
Isso fez com que muitos países, para não falar todos os países do mundo, começassem a frear a natalidade.
Outro fator é a manipulação química, mecânica e de outros instrumentos para evitar a gravidez, as quais fizeram com que a natalidade se encontre numa situação dramática.
O grande chanceler da República da Alemanha, o católico Adenauer, dizia que o problema da natalidade não existe, porque a própria natureza humana assume isso.
Mas ele desconhecia a força dos anticoncepcionais, e hoje a Alemanha chegou quase ao ponto zero de crescimento demográfico.
De sorte que na Alemanha, mesmo recebendo 200.000 estrangeiros por ano, a população continua a diminuir. A Itália está um pouco pior e a Espanha também, ou seja, estão abaixo de zero.
AE: Há perspectiva de mudança dessa situação?
Dom Romer: Há sinais de conscientização. E o Papa João Paulo II teve o mérito de chamar a atenção para essa realidade, mostrando todas essas previsões errôneas, que são contra a natureza humana.
E de mostrar que não se pode recorrer a métodos que oprimem a mulher, com toda a influência que isso teve, e tem, sobre a saúde e equilíbrio psíquico femininos. E isso é uma coisa que não foi tomada em consideração.
Então o Papa sentiu tudo isso, analisou tudo isso e começou a clamar. Esse clamor são os seus documentos, a Familiaris consortio e outros magníficos documentos, onde ele recoloca este estupendo anúncio: a beleza da família.
Quando todos os elementos destrutivos se encontram evidentemente aliados à maldade e à preguiça humanas, sem pensar na dignidade da mulher e do homem e na beleza do matrimônio, apenas se propaga o que é mais fácil.
Estas últimas décadas são marcadas fortemente por algo que sempre houve na humanidade: o sexualismo acentuado.
Hoje, porém, tornou-se ele um tal pansexualismo que nas escolas primárias e secundárias de quase todos os países o Estado exige uma educação sexual, que na realidade é uma deseducação, onde já se instruiu como usar anticoncepcionais antes mesmo de ter aprendido qual o significado do seu próprio corpo.
Antes até de entender a grandeza da natureza humana, da família e do amor, e antes de compreender a beleza de assumir essa responsabilidade. Antes disso se ensina o abuso.
AE: Qual a maior dificuldade que enfrenta a família hoje?
Dom Romer: Muitos governos querem mostrar-se modernos e, para não perder votos, os seus parlamentos vão nas ondas movimentadas por pequenos grupos que sabem manipular a opinião pública, e votam leis contrárias ao bem da família.
Um exemplo disso são os homossexuais, que são um pequeno grupo, significativo, mas pequeno. Então, é uma argumentação mentirosa e falsa, que consegue vencer e convencer certos políticos pouco preparados.
Um exemplo desses argumentos falsos é o seguinte: todos têm os mesmos direitos; logo, não se pode fazer discriminação. Qual o político que tem coragem de falar contra esse argumento, aparentemente tão claro, mas só aparentemente?
Estou de acordo em que nunca se pode fazer discriminação. Mas pergunto: o que é discriminação? A resposta deve ser dupla. Discriminar é tratar de modo diferente duas coisas iguais; mas é, igualmente, tratar duas coisas diferentes como se fossem iguais.
Isto é, a família – na qual um homem e uma mulher se comprometem, pelo casamento, à fidelidade e são capazes de dar vida nova, de manter a sociedade pela procriação humana, criando ambiente para uma criança – está sendo equiparada à união de dois homossexuais.
Ou seja, de dois homens ou duas mulheres que não têm as mínimas condições de ser fonte de vida e fator construtivo para a sociedade humana.
Não se trata somente da Igreja, aqui, trata-se do futuro da sociedade humana.
Portanto, certos políticos, por ignorância ou – penso que não – intencionalmente, servem-se do falso argumento de não se poder discriminar e assim discriminam brutalmente o Matrimônio, a única instituição que pode ser fonte de vida para a sociedade.
AE: A propósito da discriminação…
Dom Romer: Com o que eu acabo de falar, não quero jamais discriminar os homossexuais. Há pessoas que falam mal de homossexuais, que querem maltratá-los, e não sei o que mais. Eu sou contra.
Como pessoa, como indivíduo, todo homossexual deve ser respeitado, desde que ele não faça da sua homossexualidade um perigo para as outras pessoas. Por exemplo, fazendo propaganda na internet para que outros jovens se tornem homossexuais.
Mas ele como pessoa, sendo um fator construtivo na sociedade, deve evidentemente ter respeitada sua dignidade de pessoa, imagem de Deus.
Não se pode discriminar o Matrimônio, pois não se pode igualar ao Matrimônio uma união homossexual. A união entre dois homossexuais não pode ser elevada jamais a um Matrimônio, nem a um nível de Matrimônio, nem aproximada de um Matrimônio.
Se eles têm amizade entre si – existe o direito da amizade – isso a lei civil pode proteger. Mas jamais elevá-la a um contrato com semelhança que se aproxime à dignidade do Matrimônio.
AE: E o que espera do novo Papa o Pontifício Conselho?
Dom Romer: Com Bento XVI, existe uma grande perspectiva para as atividades do Pontifício Conselho para a Família.
No início da década de 80, quando João Paulo II fez o Sínodo dos Bispos sobre o tema da família, o Cardeal Ratzinger recebeu a função de relator principal do Sínodo, isto é, o responsável de coordenar todos os trabalhos e de, no final, apresentar aos Bispos a grande síntese de todo o trabalho realizado.
E ele fez isso de maneira magistral. De modo que ele tem o coração preso pelo tema da família.
Além do fato de ele ser proveniente de uma bela família católica da Bavária. Em seus escritos ele se refere a isso, e se nota o amor que ele tem por esse dom de Deus que é a família.