Na procissão da Quinta-Feira Santa, a Igreja acompanha Jesus ao Monte das Oliveiras: a Igreja orante sente um desejo profundo de vigiar com Jesus, de não deixá-Lo sozinho na noite do mundo, na noite da traição, na noite da indiferença de muitos.
Na festa de Corpus Christi, retomamos esta procissão, mas na alegria da Ressurreição. O Senhor ressuscitou e precedeu-nos.
Nas narrações da Ressurreição há uma característica comum e fundamental; os Anjos dizem: o Senhor “vai à vossa frente para a Galileia. Lá O vereis” (Mt 28, 7).
A meta de nossa vida é a comunhão com Deus
Considerando isto mais de perto, podemos dizer que este “preceder” de Jesus implica em uma dupla direção. A primeira é, como ouvimos, a Galileia. Em Israel, a Galileia era considerada como a porta que se abre para o mundo dos pagãos.
E na realidade, precisamente na Galileia, no monte, os discípulos veem Jesus, o Senhor, que lhes diz: “Ide […] fazei discípulos de todos os povos” (Mt 28, 19).
A outra direção do preceder, por parte do Ressuscitado, aparece no Evangelho de São João, nas palavras de Jesus a Madalena: “Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai” (Jo 20, 17). Jesus precede-nos junto do Pai, eleva-se à altura de Deus e convida-nos a segui-Lo.
Estas duas direções do caminho do Ressuscitado não se contradizem, mas indicam em conjunto a via do seguimento de Cristo. A verdadeira meta do nosso caminho é a comunhão com Deus – o próprio Deus é a casa das muitas moradas (cf. Jo 14, 2s.).
Mas só podemos subir a esta morada andando “em direção à Galileia”, indo pelas estradas do mundo, levando o Evangelho a todas as nações, levando o dom do seu amor aos homens de todos os tempos.
Por isso o caminho dos Apóstolos prolongou-se até aos “confins da terra” (cf. At 1, 6s.); assim São Pedro e São Paulo foram até Roma, cidade que na época era o centro do mundo conhecido, verdadeira caput mundi.
A procissão da Quinta-Feira Santa acompanhou Jesus na sua solidão, rumo à via crucis.
A procissão de Corpus Christi, ao contrário, responde de maneira simbólica ao mandamento do Ressuscitado: precedo-vos na Galileia. Ide até aos confins do mundo, levai o Evangelho a todas as nações.
A Comunhão exige a vontade de seguir Cristo
Sem dúvida, para a Fé, a Eucaristia é um mistério de intimidade. O Senhor instituiu o Sacramento no Cenáculo, circundado pela sua nova família, pelos doze Apóstolos, prefiguração e antecipação da Igreja de todos os tempos.
Por isso, na liturgia da Igreja antiga, a distribuição da sagrada Comunhão era feita com as palavras: Sancta sanctis – o dom sagrado destina-se aos que são tornados santos.
Deste modo, respondia-se à admoestação dirigida por São Paulo aos Coríntios: “Portanto, examine-se cada um a si próprio e só então coma deste pão e beba deste vinho” (I Cor 11, 28).
Contudo, desta intimidade, que é dom muito pessoal do Senhor, a força do Sacramento da Eucaristia vai além das paredes das nossas igrejas. Neste Sacramento, o Senhor está sempre a caminho no mundo.
Este aspecto universal da presença eucarística sobressai na procissão da nossa festa. Nós levamos Cristo, presente na figura do pão, pelas ruas da nossa cidade. Nós confiamos estas ruas, estas casas – a nossa vida quotidiana – à sua bondade.
Que as nossas ruas sejam ruas de Jesus! Que as nossas casas sejam casas para Ele e com Ele! A nossa vida de todos os dias seja penetrada por sua presença.
Com este gesto, colocamos sob o seu olhar os sofrimentos dos doentes, a solidão dos jovens e dos idosos, as tentações, os receios – toda a nossa vida.
A procissão pretende ser uma grande e pública bênção para a nossa cidade: Cristo é, em pessoa, a bênção divina para o mundo – o raio da sua bênção se estenda sobre todos nós!
Na procissão de Corpus Christi, acompanhamos o Ressuscitado no seu caminho pelo mundo inteiro, como dissemos. E, precisamente fazendo isto, respondemos também ao seu mandamento: “Tomai e comei […] Bebei todos” (Mt 26, 26s.).
Não se pode “comer” o Ressuscitado, presente na figura do pão, como um simples bocado de pão. Comer este pão é comunicar, é entrar em comunhão com a pessoa do Senhor vivo.
Esta comunhão, este ato de “comer”, é realmente um encontro entre duas pessoas, é deixar-se penetrar pela vida d’Aquele que é o Senhor, d’Aquele que é o meu Criador e Redentor.
A finalidade desta comunhão, deste comer, é a assimilação da minha vida à sua, a minha transformação e conformação com Aquele que é Amor vivo.
Por isso, esta comunhão exige a adoração, requer a vontade de seguir Cristo, de seguir Aquele que nos precede. Portanto, a adoração e a procissão fazem parte de um único gesto de comunhão; respondem ao seu mandamento: “Tomai e comei”.
Que Maria nos ajude a segui-Lo fielmente
A nossa procissão termina diante da Basílica de Santa Maria Maior, no encontro com Nossa Senhora, chamada pelo querido Papa João Paulo II “Mulher eucarística”.
Verdadeiramente, Maria, a Mãe do Senhor, ensina-nos o que significa entrar em comunhão com Cristo: Maria ofereceu a própria carne, o próprio sangue a Jesus e tornou-se tenda viva do Verbo, deixando-se penetrar no corpo e no espírito pela sua presença.
Pedimos a Ela, nossa santa Mãe, que nos ajude a abrir, cada vez mais, todo o nosso ser à presença de Cristo; que nos ajude a segui-Lo fielmente, dia após dia, pelos caminhos da nossa vida.