Pode dizer-nos como Vossa Excelência sentiu-se chamado ao sacerdócio?
Nasci numa fazenda em Pouso Alto (MG), dentro de um ambiente profundamente religioso. Meu pai era homem piedoso, sobretudo mariano. Assim, desde pequeno aprendi a ter grande devoção a Nossa Senhora.
Em casa, um queria ser engenheiro, outro médico, mas eu admirava muito o nosso pároco – que não só falava, mas cantava bem – e pensava: “quero ser igual a ele”.
Havia na cidade uns missionários da Congregação dos Sagrados Corações que entronizavam nos lares os Sagrados Corações de Jesus e Maria, fazendo um trabalho de evangelização a partir da família.
No dia em que foram à minha casa, como eu era tímido, saí correndo. Tinha nove anos. Mas um missionário, sabendo que eu queria ser sacerdote, me procurou e convidou-me a viajar para São Paulo.
Algum tempo depois, estava junto com outros 130 meninos em Ferraz de Vasconcelos, no Seminário da Congregação.
Como se deu o desdobramento de querer ser padre para religioso da Congregação dos Sagrados Corações?
Isto se deu aos poucos, enquanto convivia com os religiosos e ia conhecendo sua espiritualidade.
O que a Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e Maria propõe sempre me entusiasmou: contemplar, viver e anunciar o amor redentor de Jesus Cristo, do Pai misericordioso, revelado em Jesus Cristo e vivido de maneira exemplar por nossa Mãe querida, Maria Santíssima.
Nossa vida deve consistir no anúncio do amor e da misericórdia de Deus. Este tem sido o eixo de toda a minha pregação, e o princípio que tem orientado minha vida de sacerdote e de Bispo.
Os dois corações, de Jesus e de Maria, estão unidos e são inseparáveis. O meu coração também precisa estar unido, e inseparável, com Maria em Jesus, por Jesus e com Jesus. Este é o núcleo teológico, místico e espiritual que tenho como ideal.
Vossa Excelência fala como quem sentiu experimentalmente esse amor…
Não se pode dizer que Deus é bom, sem experimentar sua bondade. Olhando para minha vida, vejo o quanto tem sido grande e extraordinário o carinho de Deus para comigo.
Perdi a mãe quando era criança, mas não senti nenhum tipo de revolta. Na minha adolescência e no seminário fui conduzido por Deus de maneira muito simples, caminhando.
Quando cheguei ao terceiro ano de Filosofia, tempo de fazer os votos perpétuos, sofria de hepatite. Todos achavam que eu não tinha cura, mas o padre superior me disse que a Congregação me aceitaria mesmo doente.
Quando estava para ser ordenado, em 1968, passei por um período muito difícil. Era um tempo muito questionador, de profunda crise, com seminários sendo fechados, padres abandonando o sacerdócio, etc.
Alguns desses ex-padres insistiram em que não levasse minha vocação para frente. Mas o meu Superior Geral, de origem belga, me deu segurança para lhes responder: “Fiquem tranquilos! Se eu errar, a culpa será minha, não de vocês”.
Em todos esses episódios, vejo o carinho de Deus na minha vida.
A Congregação dos Sagrados Corações nasceu também em um momento difícil…
Sem dúvida. Nossa Congregação surgiu em meio a grandes conflitos. Nossos fundadores são o Padre Pierre Coudrin e a Madre Henriette Aymer de la Chevalerie.
Durante a Revolução Francesa, ele recusou-se a acatar a Constituição Civil do Clero. Foi obrigado a esconder-se, viveu seis meses num galinheiro. Ali ele estudou a história da Igreja.
Quando leu a vida de São Caprásio, ficou envergonhado e pensou: “Se São Caprásio deu a vida, por que não posso fazer o mesmo?” Saiu do esconderijo e começou nova etapa de apostolado.
Usando engenhosos disfarces, para não ser pego pela polícia, exercia seu ministério sacerdotal em inúmeros lugares, inclusive nas prisões. Numa destas, encontrou uma senhora que estava encarcerada por ter escondido padres que fugiam da perseguição.
Com ela encontrava-se sua filha, Henriette Aymer. Ambas acabaram escapando da guilhotina, sendo postas em liberdade.
Henriette e o padre Coudrin – por quem ela sempre teve grande entusiasmo – fundaram uma congregação para reparar os pecados cometidos contra Deus na França. Depois, a pedido do Papa, se espalhou pelo mundo inteiro.
Pelo próprio carisma da Congregação, somos muitas vezes chamados a anunciar o amor em meio às tragédias e dificuldades. O amor no meio do ódio torna-se mais forte.
Como Vossa Excelência, sendo Bispo, mantém a vinculação com sua Congregação religiosa?
Sinto-me aqui, como Arcebispo de Vitória, um filho dos Sagrados Corações. O vínculo afetivo e de vocação permanece. Porém, sinto também que a Igreja me pede esta missão. E nossa família religiosa não existe para si, mas para a Igreja.
Para minha Congregação, sou um “irmão em missão”. Agora a minha missão é esta: ser Arcebispo de Vitória.
Neste mês será canonizado o Beato Damião de Molokai. O que mais chama a atenção de Vossa Excelência neste irmão de hábito?
A admiração que tenho por este grande missionário provém de que tudo quanto ele fez pela salvação das almas deve-se à Adoração Eucarística.
Esta era a fonte do seu dinamismo e do amor que ele cultivava e inspirava aos outros, para serem como ele, também missionários.
Outro ponto a destacar foi a plenitude de sua entrega, até chegar à imolação. Em nossa Congregação fala-se muito do espírito de vítima, de ser vítima junto com Cristo.
Damião é modelo de vítima que, como Jesus, se imola totalmente a serviço do Reino e dos irmãos.
Ele foi um sacerdote profundamente eucarístico e foi esse amor à Eucaristia que o levou a se imolar totalmente, como o Cordeiro Pascal.
Ao declará-lo Santo, a Igreja nos estimula a sermos santos também. O dia de sua canonização será um momento de muita gratidão a Deus, e uma oportunidade histórica para trabalhar pelas vocações, dar testemunho e assumir com alegria nosso carisma.
Mas dar testemunho mesmo, ser Santos de verdade!