Reunistes-vos de novo para aprofundar um tema muito importante: a inspiração e a verdade da Bíblia.
Trata-se de um tema que diz respeito não só à Teologia, mas à própria Igreja, dado que a vida e a missão da Igreja se fundam necessariamente na Palavra de Deus, a qual é a alma da Teologia e, juntas, inspiradoras de toda a existência cristã.
O tema que tratastes responde, ainda, a uma preocupação que me interessa de modo particular, porque a interpretação da Sagrada Escritura é de fundamental importância para a Fé Cristã e para a vida da Igreja.
A Sagrada Escritura tem Deus por Autor
Como Vossa Eminência recordou, Senhor Presidente, na Encíclica Providentissimus Deus o Papa Leão XIII oferecia aos exegetas católicos novos encorajamentos e diretrizes em tema de inspiração, verdade e hermenêutica bíblica.
Mais tarde Pio XII na sua Encíclica Divino afflante Spiritu recolhia e completava o precedente ensinamento, exortando os exegetas católicos a encontrar soluções em plena sintonia com a doutrina da Igreja, tendo devidamente em consideração as contribuições positivas dos novos métodos de interpretação que entretanto se desenvolveram.
O impulso concreto dado por estes dois Pontífices aos estudos bíblicos, como Vossa Eminência também recordou, encontrou plena confirmação e foi ulteriormente desenvolvido no Concílio Vaticano II, de modo que toda a Igreja dele tirou e continua a tirar benefício.
Em particular, a Constituição Conciliar Dei Verbum ilumina ainda hoje a obra dos exegetas católicos e convida os Pastores e os fiéis a alimentar-se mais assiduamente na mesa da Palavra de Deus.
O Concílio recorda, a propósito, antes de tudo que Deus é Autor da Sagrada Escritura:
As verdades reveladas por Deus, que se encontram escritas e manifestas na Sagrada Escritura, foram redigidas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a Santa Mãe Igreja, por Fé apostólica, tem como sagrados e canônicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo, têm Deus por autor e como tais foram confiados à própria Igreja.1
Portanto – dado que tudo quanto os autores inspirados ou hagiógrafos afirmam, deve ser considerado como confirmado pelo Espírito Santo, Autor invisível e transcendente –, deve declarar-se que “os Livros da Sagrada Escritura ensinam com firmeza, com fidelidade e sem erro a verdade que Deus, causa da nossa salvação, quis consignar nas Sagradas Letras”.2
Sumo princípio para uma reta interpretação
Da correta colocação do conceito de divina inspiração e verdade da Sagrada Escritura derivam algumas normas que dizem respeito diretamente à sua interpretação.
A mesma Constituição Dei Verbum, depois de ter afirmado que Deus é o Autor da Bíblia, recorda-nos que na Sagrada Escritura Deus fala ao homem de modo humano. Deus fala realmente à maneira humana.
E esta sinergia humano-divina é muito importante: Deus fala realmente aos homens de modo humano.
Para uma reta interpretação da Sagrada Escritura é preciso, portanto, procurar com atenção o que os hagiógrafos quiseram realmente afirmar e o que aprouve a Deus manifestar através das palavras humanas.
As palavras de Deus, expressas por línguas humanas, tornam-se semelhantes à palavra humana, como outrora o Verbo do Eterno Pai, tomada a carne da fraqueza humana, Se tornou semelhante aos homens.3
Estas indicações – muito necessárias para uma correta interpretação de caráter histórico-literário como primeira dimensão de qualquer exegese – exigem depois uma ligação com as promessas da doutrina sobre a inspiração e a verdade da Sagrada Escritura.
De fato, sendo a Escritura inspirada, há um sumo princípio de reta interpretação sem o qual os Escritos Sagrados permaneceriam letra morta, só do passado: a Sagrada Escritura deve “ser lida e interpretada com o mesmo Espírito com o qual foi escrita”.4
Três critérios sempre válidos
A este propósito, o Concílio Vaticano II indica três critérios sempre válidos para uma interpretação da Sagrada Escritura conforme ao Espírito que a inspirou.
Antes de tudo, é preciso prestar grande atenção ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura: só na sua unidade é Escritura.
De fato, por muito diferentes que sejam os livros que a compõem, a Sagrada Escritura é una em virtude da unidade do desígnio de Deus, do qual Cristo Jesus é o centro e o coração (cf. Lc 24, 25-27; Lc 24, 44-46).
Em segundo lugar, é necessário ler a Escritura no contexto da tradição viva de toda a Igreja.
Segundo um ditado de Orígenes, Sacra Scriptura principalius est in corde Ecclesiæ quam in materialibus instrumentis scripta, ou seja, “a Sagrada Escritura foi escrita no coração da Igreja antes do que em instrumentos materiais”.
De fato, a Igreja leva na sua Tradição a memória viva da Palavra de Deus e é o Espírito Santo que lhe dá a interpretação da mesma segundo o sentido espiritual.5
Como terceiro critério, é necessário prestar atenção à analogia da Fé, ou seja, à unidade de cada uma das verdades da Fé entre elas e com o plano integral da Revelação e a plenitude da divina economia nele encerrada.
O critério científico não é suficiente
A tarefa dos pesquisadores que estudam com diversos métodos a Sagrada Escritura é contribuir segundo os mencionados princípios para a mais profunda inteligência e exposição do sentido da Sagrada Escritura.
O estudo científico dos textos sagrados é importante, mas sozinho não é suficiente porque diria respeito apenas à dimensão humana.
Para respeitar a coerência da Fé da Igreja, o exegeta católico deve prestar atenção à compreensão da Palavra de Deus nestes textos, no âmbito da mesma Fé da Igreja.
Na falta deste imprescindível ponto de referência, a busca exegética permaneceria incompleta, perdendo de vista a sua finalidade principal, com o perigo de ser reduzida a uma leitura puramente literária, na qual o verdadeiro Autor Deus já não comparece.
Além disso, a interpretação das Sagradas Escrituras não pode ser apenas um esforço científico individual, mas deve ser sempre confrontada, inserida e autenticada pela tradição viva da Igreja.
Esta norma é decisiva para esclarecer a correta e recíproca relação entre a exegese e o Magistério da Igreja.
O exegeta católico não se sente apenas membro da comunidade científica, mas também e, sobretudo membro da comunidade dos crentes de todos os tempos.
Na realidade, estes textos não foram dados aos pesquisadores ou à comunidade científica “para satisfazer a sua curiosidade ou para lhes fornecer argumentos de estudo e pesquisa”.6
Os textos inspirados por Deus foram confiados em primeiro lugar à comunidade dos crentes, à Igreja de Cristo, para alimentar a vida de Fé e guiar a vida de caridade. O respeito desta finalidade condiciona a validez e a eficiência da hermenêutica bíblica.
A Encíclica Providentissimus Deus recordou esta verdade fundamental e observou que, longe de impedir a pesquisa bíblica, o respeito deste dado favorece o seu autêntico progresso.
Diria, uma hermenêutica da Fé corresponde mais à realidade deste texto do que uma hermenêutica racionalista, que não conhece Deus.
Unidade inseparável entre Sagrada Escritura e Tradição
De fato, ser fiéis à Igreja significa colocar-se na corrente da grande Tradição que, sob a guia do Magistério, reconheceu os escritos canônicos como palavra dirigida por Deus ao seu povo e nunca cessou de os meditar e expressar as suas riquezas inexauríveis.
O Concílio Vaticano II reafirmou-o com grande clareza:
Todas estas coisas, referentes à interpretação da Escritura, estão sujeitas em última instância ao juízo da Igreja, que exerce o divino mandato e ministério de guardar e interpretar a Palavra de Deus.7
Como nos recorda a mencionada Constituição dogmática, existe uma unidade inseparável entre Sagrada Escritura e Tradição, porque ambas provêm de uma mesma fonte:
A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura relacionam-se e comunicam-se intimamente entre si; porque, surgindo ambas da mesma fonte, de certo modo se fundem e tendem para o mesmo fim.
Com efeito, a Sagrada Escritura é a palavra de Deus enquanto consignada por escrito sob a inspiração do Espírito Santo.
A Sagrada Tradição, por seu lado, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a Palavra de Deus, confiada aos Apóstolos por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo, para que, com a luz do Espírito de Verdade, a guardem, exponham e difundam fielmente na sua pregação.
Donde se segue que a Igreja não tira somente da Sagrada Escritura a sua certeza de todas as coisas reveladas. Por isso, se devem receber e venerar ambas com igual afeto de piedade e reverência.8
Como sabemos, esta palavra pari pietatis affectu ac reverenti”, criada por São Basílio, foi depois recebida no Decreto de Graciano, do qual entrou no Concílio de Trento e depois no Concílio Vaticano II. Ela expressa precisamente esta interpenetração entre Escritura e Tradição.
Só o contexto eclesial permite que a Sagrada Escritura seja compreendida como autêntica Palavra de Deus que se torna guia, norma e regra para a vida da Igreja e o crescimento espiritual dos crentes.
Isto, como já disse, não impede de modo algum uma interpretação séria, científica, mas abre, além disso, para o acesso às dimensões ulteriores de Cristo, inacessíveis a uma análise só literária, que permanece incapaz de acolher em si o sentido global que no decorrer dos séculos guiou a tradição de todo o Povo de Deus.