“A Fé e a Razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”.
Com este pensamento de inegável beleza, que bem exprime o sentir comum da Igreja ao longo dos séculos, o pranteado Pontífice João Paulo II iniciava uma das mais importantes encíclicas de seu longo pontificado: Fides et Ratio.
De fato, se remontarmos o curso da História, poderemos observar como esta verdade esteve sempre presente no pensamento e no ensinamento da Igreja, desde a gesta apostólica de São Paulo no Mediterrâneo – especialmente na Grécia –, passando por todos os Padres, tanto os do Oriente quanto os do Ocidente.
Unidas, a Fé e a Razão, a Filosofia e a Teologia, produziram os grandes documentos da Doutrina Católica. Quando a Razão se separou, proclamou-se independente e, por fim, pôs-se em luta contra a Fé, começaram os grandes dramas da sociedade.
Iniciou-se com a modernidade um processo que chegou aos dias de hoje, nos quais a própria Razão se encontra, por sua vez, assediada, não pela Teologia, mas pela exacerbação dos sentidos e dos instintos no homem contemporâneo.
Processo de ruptura com a Filosofia Tomista
Foi com São Tomás de Aquino que chegou ao auge essa feliz união, esse sábio consórcio entre Fé e Razão, Teologia e Filosofia. Ao incomparável Doutor Angélico devemos a mais admirável e elevada síntese entre Fé e Razão.
Mas ele morreu jovem, não atingiu 50 anos. Fundador da escola filosófica que leva seu nome, não teve discípulo à altura que tomasse de suas mãos a tocha e a levasse a cumes ainda mais altos. A História tem seus mistérios…
Podemos qualificar o séc. XIII como o século de São Tomás, da Escolástica, mas já no século seguinte surgiu uma reação contra ele e essa escola. Iniciou-se um processo de ruptura entre a Fé e a Razão, um processo que conduziria a aberrações inimagináveis.
Na mencionada encíclica Fides et Ratio, João Paulo II lamenta-se:
A partir da baixa Idade Média, essa distinção legítima entre os dois conhecimentos transformou-se progressivamente em nefasta separação. […]
Em resumo, tudo quanto o pensamento patrístico e medieval tinha concebido e atuado como uma unidade profunda, geradora dum conhecimento capaz de chegar às formas mais altas da especulação, foi realmente destruído pelos sistemas que abraçaram a causa de um conhecimento racional, separado e alternativo da Fé.1
O saudoso Pontífice continua sua descrição desse processo de “divórcio” entre a Fé e a Razão, do qual se originaram o racionalismo, o subjetivismo, o niilismo, o relativismo, etc. E assinala:
Não é exagerado afirmar que boa parte do pensamento filosófico moderno se desenvolveu num progressivo afastamento da Revelação cristã […] Como consequência da crise do racionalismo, apareceu o niilismo. […]
Na interpretação niilista, a existência é somente uma oportunidade para sensações e experiências onde o efêmero detém o primado. O niilismo está na origem duma mentalidade difusa, segundo a qual não se deve assumir qualquer compromisso definitivo, porque tudo é fugaz e provisório.2
A Razão, um cárcere do pensamento?
Esse fosso cavado entre a Teologia e a Filosofia, tão bem descrito pelo Papa, conduziu-nos aos desequilíbrios dos dias atuais, em que se chegou ao extremo de uma verdadeira rebelião, não mais contra a Fé ou a Teologia, mas agora contra a própria Razão, a qual é considerada por alguns “pensadores” como uma espécie de cárcere do pensamento.
Uma das mais importantes manifestações dessa revolta foi a explosão de anarquia e sensualidade produzida na Sorbonne em maio de 1968, que adotou, entre outros, os lemas A imaginação tomou conta do poder; Viva o efêmero; Professores, sois tão velhos quanto a vossa cultura e É proibido proibir…
Depois, longe de deter-se nessa marcha rumo à irracionalidade, o mencionado processo de ruptura desembocou abertamente no preternatural, no mundo dos gurus, dos xamãs, da Nova Era e, em última instância, do satanismo.
Como estamos longe dos dias de São Tomás, da Escolástica e da sólida e fraterna união entre a Fé e a Razão!
O espaço forçosamente reduzido de um artigo não nos permite expor as numerosas, sábias e oportunas declarações do Magistério Pontifício sobre a necessidade dessa união entre Fé e Razão, bem como sobre os perigos decorrentes da atual situação de ruptura e hostilidade.
Limitar-nos-emos, pois, às recentes declarações do Papa Bento XVI que, com a segurança do exímio teólogo e filósofo, somada à autoridade de Vigário de Cristo, aponta-nos o caminho a percorrer.
Aproximação entre a Fé bíblica e a indagação grega
Na Aula Magna da Universidade de Regensburg, em 12 de setembro de 2006, o Santo Padre reencontrou-se com uma velha amiga: sua cátedra de professor.
Ali, dissertando sobre a importância do diálogo entre Fé e Razão, remontou-se à helenização do Cristianismo, mostrando a saudável influência do pensamento grego na elaboração da Teologia.
A convicção de que o agir contra a Razão estaria em contradição com a natureza de Deus, faz parte apenas do pensamento grego ou é válida sempre e por si mesma?
Penso que, neste ponto, se manifesta a profunda concordância entre o que é grego na sua parte melhor e o que é a Fé em Deus baseada na Bíblia.
Modificando o primeiro versículo do livro do Génesis, o primeiro versículo de toda a Sagrada Escritura, João iniciou o prólogo do seu Evangelho com estas palavras: “No princípio era o λόγος”. […]
“Logos” significa conjuntamente razão e palavra – uma razão que é criadora e capaz de se comunicar, mas precisamente enquanto razão.
Com este termo, João ofereceu-nos a palavra conclusiva para o conceito bíblico de Deus, uma palavra na qual todos os caminhos, muitas vezes cansativos e sinuosos, da Fé bíblica alcançam a sua meta, encontram a sua síntese.
No princípio era o “logos”, e o “logos” é Deus, diz-nos o Evangelista. Este encontro entre a mensagem bíblica e o pensamento grego não era simples coincidência.
De outro lado,
a visão de São Paulo – quando diante dele se estavam fechando os caminhos da Ásia e, em sonho, viu um macedônio que lhe suplicava: “Passa à Macedônia e vem ajudar-nos!” (cf. At 16, 6-10) – esta visão pode ser interpretada como a “condensação” da necessidade intrínseca de aproximação entre a Fé bíblica e a indagação grega.
O Papa lembra, a seguir, que essa aproximação entre a Fé e o logos já tinha sido iniciada no antigo Testamento. E afirma:
Assim, durante o período helenístico, a Fé bíblica – não obstante o desacordo em toda a sua dureza com os soberanos helenistas que queriam obter pela força a sua adequação ao estilo grego de vida e ao seu culto idolátrico –, estava interiormente caminhando ao encontro da parte melhor do pensamento grego até chegar a um contato recíproco que se verificou depois especialmente na literatura sapiencial tardia.
Nesse contexto, a septuaginta é um testemunho textual único em seu gênero e um passo importante da história da Revelação,
no qual se realizou de tal forma o referido encontro que acabou por ter um significado decisivo para o nascimento e difusão do Cristianismo. Trata-se, no fundo, do encontro entre Fé e Razão, entre iluminismo autêntico e Religião.
Orientação voluntarista iniciada por Duns Escoto
Bento XVI nota, entretanto, que
na teologia da baixa Idade Média, se desenvolveram tendências que rompem esta síntese entre o espírito grego e o espírito cristão.
Em contraste com o chamado intelectualismo agostiniano e tomista, Duns Escoto deu início a uma orientação voluntarista que, no termo de sucessivos desenvolvimentos, havia de levar à afirmação segundo a qual, de Deus, só conheceremos a “voluntas ordinata”.
Para além desta, existiria a liberdade de Deus, em virtude da qual Ele teria podido criar e fazer inclusive o contrário de tudo o que efetivamente realizou.
Vemos assim esboçarem-se posições que poderiam levar a um Deus-Arbítrio, que não depende sequer da verdade e do bem.
A transcendência e a diversidade de Deus aparecem tão exageradamente acentuadas, que inclusive a nossa razão e o nosso sentido da verdade e do bem deixam de ser um verdadeiro espelho de Deus, cujas possibilidades abismais permaneceriam, para nós, eternamente inatingíveis e ocultas por detrás das suas decisões efetivas.
Em contraste com isto, a Fé da Igreja sempre se ateve à convicção de que entre Deus e nós, entre o seu eterno Espírito criador e a nossa razão criada, existe uma verdadeira analogia, na qual por certo – como afirma, em 1215, o IV Concílio de Latrão – as diferenças são infinitamente maiores que as semelhanças, mas não até o ponto de abolir a analogia e a sua linguagem.
Perda da dimensão racional da existência
Depois de observar que essa recíproca aproximação interior verificada entre a Fé bíblica e a abordagem filosófica do pensamento grego é um elemento de importância decisiva sob o ponto de vista, não apenas da História das religiões, mas também da História universal, o Papa alerta:
À tese segundo a qual o patrimônio grego, criticamente purificado, é uma parte integrante da Fé cristã, contrapõe-se a reclamação de deselenização do Cristianismo – um pedido que, desde o início da Idade Moderna, tem dominado de modo crescente a pesquisa teológica.
E isso, como assinala Bento XVI, teve e tem nefastas consequências para a Religião e mesmo para a cultura.
O resultado não foi o aperfeiçoamento do Cristianismo, mas sim sua dissolução, e com isso a perda da dimensão racional da existência.
Segundo o Santo Padre, temos aí o relativismo, o cientificismo que leva à ditadura do poder e constitui uma verdadeira ameaça para o homem.
E que sugere ele? Restabelecer o vínculo entre Fé e Razão, entre Filosofia e Teologia.
A reflexão sobre o desenvolvimento das ciências conduz-nos rumo ao “Logos” criador
Nessa mesma linha, Bento XVI afirmou em Verona, por ocasião do IV Congresso Nacional da Igreja italiana, em 19 de outubro de 2006, que a correspondência entre as estruturas matemáticas e as estruturas reais do universo – pressuposto de todos os modernos desenvolvimentos científicos tecnológicos
implica que o próprio universo esteja estruturado de maneira inteligente, de modo que exista uma profunda correspondência entre a nossa razão subjetiva e a razão objetivada na natureza.
Então, torna-se inevitável perguntar se não deve existir uma única inteligência originária, que é a fonte comum de uma e da outra. Assim, precisamente a reflexão sobre o desenvolvimento das ciências conduz-nos rumo ao “Logos” criador.
Inverte-se a tendência a dar o primado ao irracional, ao acaso e à necessidade, a orientar para ele também a nossa inteligência e a nossa liberdade.
Com estas bases torna-se de novo possível ampliar os espaços da nossa racionalidade, reabri-la às grandes questões da verdade e do bem, unir entre si a Teologia, a Filosofia e as ciências, no pleno respeito pelos seus próprios métodos e pela sua autonomia recíproca, mas também na consciência da unidade intrínseca que as conserva unidas.
Relacionamento “sem confusão e sem separação” entre Filosofia e Teologia
Fé e Razão, Filosofia e Teologia seria o tema de outra magistral exposição que Bento XVI faria em 17 de janeiro de 2008 na Universidade La Sapienza, de Roma.
Como se sabe, as circunstâncias levaram o Papa a cancelar, nas vésperas de sua realização, a visita programada, mas o Vaticano deu a público o texto da alocução por ele preparada. Destacamos alguns trechos:
Teologia e Filosofia formam nisto um par de gêmeas peculiar, não podendo nenhuma das duas desligar-se totalmente da outra e, todavia, cada uma deve conservar a própria tarefa e identidade.
É mérito histórico de São Tomás de Aquino face às diferentes respostas dos Padres, em virtude do seu contexto histórico ter evidenciado a autonomia da Filosofia e, juntamente com ela, o direito e a responsabilidade própria da Razão, de se interrogar com base nas suas forças.
Diferenciando-se das filosofias neoplatônicas, onde Religião e Filosofia se encontravam inseparavelmente entrelaçadas, os Padres tinham apresentado a Fé cristã como a verdadeira Filosofia, ressaltando ainda que esta Fé corresponde às exigências da Razão na sua busca da verdade; que a Fé é o “sim” à verdade.
Observa ainda o Santo Padre que a ideia de São Tomás a respeito da relação entre Filosofia e Teologia poderia exprimir-se segundo a fórmula encontrada pelo Concílio de Calcedônia para a Cristologia: Filosofia e Teologia devem relacionar-se entre si “sem confusão e sem separação”.
“Sem confusão”, para ele, significa que cada uma delas deve conservar a própria identidade.
Na Filosofia deve permanecer verdadeiramente uma busca da razão na própria liberdade e na própria responsabilidade; deve ver os seus limites e, precisamente deste modo, também a sua grandeza e vastidão.
A Teologia deve continuar a beber num tesouro de conhecimento que não foi inventado por ela, que sempre a supera e que, não podendo jamais ser totalmente esgotado mediante a reflexão, por isso mesmo leva o pensamento a começar sempre de novo.
Mas, a par do dado “sem confusão”, vigora também o dado “sem separação”: a Filosofia não recomeça cada vez do ponto zero do sujeito individual que pensa, mas vive no grande diálogo da sabedoria histórica, que ela, crítica e ao mesmo tempo dócil, acolhe e desenvolve sempre de novo.
Mas também não deve fechar-se diante daquilo que as religiões e, de modo particular, a Fé cristã receberam e transmitiram à humanidade como indicação do caminho.
Religião e Razão reforçam-se mutuamente
Bem recentemente, em seu discurso em Camarões no dia 19 de março deste ano, Bento XVI deu um novo passo nessa importante temática. Dirigindo-se à comunidade muçulmana, na Nunciatura Apostólica, declarou:
Creio que um dever da Religião particularmente urgente hoje é tornar manifesto o vasto potencial da razão humana, que é ela mesma um dom de Deus e é elevada por meio da Revelação e da Fé.
Crer em Deus, longe de prejudicar a nossa capacidade de nos compreendermos a nós mesmos e ao mundo, dilata-a.
Mais adiante, explicou que nossa mente finita nunca pode alcançar diretamente, nesta terra, a glória infinita de Deus, mas podemos captar suas cintilações na beleza que nos cerca.
Iluminada pela “ordem magnífica do mundo”, a mente humana é capaz de descobrir que o “razoável” supera os cálculos da matemática, as deduções da lógica e as demonstrações científicas.
Pois o “razoável” inclui também a bondade e o atrativo inato de uma vida honrada e conforme aos princípios éticos, que se manifesta por meio da “linguagem da Criação”.
Esta visão induz-nos a procurar tudo quanto é reto e justo, a sair do âmbito restrito do nosso interesse egoísta e a agir em prol do bem dos outros. Assim, uma Religião genuína alarga o horizonte da compreensão humana e está na base de toda a cultura humana autêntica.
Rejeita todas as formas de violência e de totalitarismo: não só por princípios de Fé, mas também com base na reta Razão. Na realidade, Religião e Razão reforçam-se mutuamente, visto que a Religião é purificada e estruturada pela Razão, e o potencial da Razão é plenamente libertado pela Revelação da Fé.
Umas das grandes tarefas do Papa
Os trechos de pronunciamentos de Bento XVI acima citados não passam de uma pequena amostra do seu pensamento, o qual se insere na luminosa trajetória de toda a Igreja, desde São Paulo até nossos dias, como dissemos no início deste artigo.
A Fé e a Razão, a Teologia e a Filosofia, devem andar unidas como irmãs que se apoiam uma na outra para assim melhor elevar-se até Deus e contemplá-Lo.
E uma das grandes tarefas a que o Papa parece dedicar-se em seus ensinamentos é justamente a de recuperar a união entre Fé e Razão, pois sem ela a humanidade não sairá do abismo de irracionalidade ao qual desceu.
Queira para isso ajudar-nos a poderosa intercessão d’Aquela que a Igreja invoca amorosamente com o título de Sede da Sabedoria.